Escritas

Lista de Poemas

Escuta...

À Beatriz Carvalho

Escuta, amor, escuta a voz que ao teu ouvido
Te canta uma canção na rua em que morei,
Essa soturna voz há de contar-te, amigo
Por essa rua minha os sonhos que sonhei!

Fala d’amor a voz em tom enternecido,
Escuta-a com bondade. O muito que te amei
Anda pairando aí em sonho comovido
A envolver-te em oiro!... Assim s’envolve um rei!

Num nimbo de saudade e doce como a asa
Recorta-se no céu a minha humilde casa
Onde ficou minh’alma assim como penada

A arrastar grilhões como um fantasma triste.
É dela a voz que fala, é dela a voz que existe
Na rua em que morei... Anda crucificada!
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Aos Olhos D’Ele

É noite de luar casto e divino.
Tudo é brancura, tudo é castidade...
Parece que Jesus, doce bambino,
Anda pisando as ruas da cidade...

E eu que penso na suavidade
Do tempo que não volta, que não passa,
Olho o luar, chorando de saudade
De teus olhos claros cheios de graça!...

Oceanos de luz que procurando
O seu leito d’amor, andam sonhando
Por esta noite linda de luar...

Talvez o perfumado, o brando leito
Que procurais, ó olhos, no meu peito
Esteja à vossa espera a soluçar...
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Pus-me a colher

Pus-me a colher ’mas saudades,
Do campo, singelos bens,
Quando as ouvi: «Não nos leves,
Não te bastam as que tens?!»
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A luz ignóbil

A luz ignóbil, informe,
É um diamante enorme
Engastado no azul duma safira...
A ignóbil luz
Inunda toda a rua...

O Almas de mentira,
Almas cancerosas,
De virgens que nunca se curvaram
Á janela dos olhos pra ver rosas
E cravos e lilases e verbenas...

Ó Almas de grangrenas,
Almas ’slavas, humildes, misteriosas,
Cruéis, alucinantes, tenebrosas,
Todas em curvas negras como atalhos,
Feitas de retalhos,
Agudas como ralhos
Cortantes como gritos!
Almas onde se perdem infinitos!...

Almas trágicas de feias
Que nunca acreditaram
Em beijos e noivados...
E que desperdiçaram
Quimeras aos braçados
E sonhos as mãos cheias!...

ò almas de assassinos que morreram
E riram e mataram!
Almas de garras que se esclavinharam
Em carnes virgens por sensualidade!

Almas de orgulho e de claridade
Talhadas em diamante!
Almas de gato-tigre, almas de fera!

O ébrios da quimera
O cisternas sem fundo!
Que trazeis nos olhos macerados
Seivas de Primavera...
Todo o horror do mundo!...

Ó Almas de boémios, rutilantes,
Que Não sabem que há sol,
Almas esfuziantes
Que atravessam o mar como um farol!

Ó Almas de poetas, assombradas,
Almas sagradas
De tanto adivinhar!
Almas maravilhadas
De arder em labaredas
Sem nunca se queimar!

Almas de velhas que querem agradar...
De amantes que Não cessam de enganar...
Ó Almas de ladrões
Onde passam, a rir, constelações!

Almas de vagabundos
Onde há charcos e lagos
Pântanos e lamas...
Onde se erguem chamas,
Onde se agitam mundos,
E coisas a morrer...
E sonhos... e afagos...
Almas sem Pátria,

Almas sem rei,
Sem fé nem lei!
Almas de anjos caídos,
Almas que se escondem pra gemer
Como leões feridos!

Vinde todas aqui á minha voz
Que o mundo é ermo
E estamos sós.

Vós todas que sois iguais a mim
O Almas de mentira!
Vinde á minha janela, á minha rua
Ver a ignóbil luz,
A luz informe,
O diamante enorme,
Engastado no azul duma safira...

Vai passar certamente a procissão...
Na minha rua vai um riso franco
Um riso de alvorada!
Há dentro dela tudo quanto é branco!
É urna asa de pomba, desdobrada!...

Brancos os lilases e as rosas...
Mudou-se em prata o oiro das mimosas
E há lirios as molhadas,
Aos feixes, ás braçadas...
Tudo branco, Meu Deus!

Lá vêm os anjos todos de brocado,
De olhos ingénuos e resplendor...
O ar tem o sabor
Dum grande morangal
Que nunca foi tratado...

Olhem as virgens, olhem! Que sorriso!
Vieram do Paraíso
mesmo agora...
E todo o ar
Parece acabadinho de lavar
Ao despontar da aurora...

Caem do céu miríades de penas
Leves como aves...
Dulcíssimas, suaves...
Curvam-se as açucenas...

Em mãos de prata lá vêm os Evangelhos
As casas, ao luar, são mais pequenas
Puseram-se — quem sabe?... — de joelhos...

O ar é virginal...
Um templo de cristal
Onde, rodopiando,
Passam brandas, arfando,
Como asas de pombas sobre as eiras,
O estandarte real
E pendões e bandeiras!...

Quem vem?...
Esvaiu-se num sopro a procissão...
Silencio! Nada! Ninguém!
Pasmo de coisas mortas!
Alucinação!
E o meu coração
Põe-se a bater às portas...

E não abre ninguém!
Ninguém! Ninguém! Ninguém!...
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Há nos teus olhos

Há nos teus olhos de dominador,
No teu perfil altivo de romano,
No teu riso de graça e de esplendor
Um misterioso ideal divino e humano.

Cruz de Cristo sangrando sobre o pano
Das velas altas, lá vai, sobre o fragor
Dum mar sereno, cristalino e plano,
A tua barca de conquistador!

Eu quero ir contigo a esses distantes
Reinos! Deixa-me erguer as brancas velas,
Ser um dos teus audazes navegantes!

Meus olhos cegos são dois poços fundos...
— Conta-me o céu! Ensina-me as estrelas!
Mostra-me a estrada dos teus Novos Mundos!
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Trazes-me em tuas mãos

Trazes-me em tuas mãos de vitorioso
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.

Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me poisou.

0 silencio, em redor, é urna asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...

Cheira a ervas amargas, cheira a sándalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...
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Os Meus Versos

Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste
O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou?

Adivinhaste? Eu não posso acreditar
Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo,
Tu disseste para ti: “Por um olhar
Somente, embora fosse assim tão lindo,

Ficar amando um homem!... Que loucura!”
– Pois foi o teu olhar; a noite escura,
– (Eu só a ti digo, e muito a medo...)

Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro d’alma a soluçar!
.............................................................
Ai não descubras nunca o meu segredo!
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Súplica

A prece que eu murmuro, a soluçar
Ao Deus todo bondade e todo amor,
É rezada de rastos no altar
Onde a tristeza reza com a dor!

A minha boca reza-a comovida,
Chora-a meus olhos, beija-a o meu peito,
Sonha-a minh’alma sempre enternecida
Ao ver-te rir, ó meu Amor Perfeito...

Que o Deus do céu atenda a minha prece,
Embora eu saiba nesta desventura
Que Deus só ouve aquele que o merece!

Mas vou pedindo ao Deus de piedade,
Que te conceda anos de ventura,
Como dias a mim de inf’licidade!...
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Escrevi o nome teu

Escrevi o nome teu
Na branca areia do mar
Vieram as ondas brincando
Teu lindo nome beijar
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Sonho Morto

Nosso sonho morreu. Devagarinho,
Rezemos uma prece doce e triste
Por alma desse sonho! Vá... baixinho...
Por esse sonho, amor, que não existe!

Vamos encher-lhe o seu caixão dolente
De roxas violetas; triste cor!
Triste como ele, nascido ao sol poente,
O nosso sonho... ai!... reza baixo... amor...

Foste tu que o mataste! E foi sorrindo,
Foi sorrindo e cantando alegremente,
Que tu mataste o nosso sonho lindo!

Nosso sonho morreu... Reza mansinho...
Ai, talvez que rezando, docemente,
O nosso sonho acorde... mais baixinho...
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Comentários (13)

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robertinho de roberto
robertinho de roberto
2024-10-21

FLORBELA ESPANCA : paixão na primeira poesia! poesia que vasa sentimento pra todos os lados! sentimentos que espelham sofrimentos d'alma!

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

Alma luz! Poesia.

texto bom
texto bom
2021-09-08

naseu en 8 de dezembro e moreu em 8 de dezembro

euskadia
euskadia
2020-08-08

.....erro atrás de erro.... Cada calinada ortográfica capaz de por vacas a grunhir.....Deus, assevera que a língua portuguesa em locais de domínio linguístico como este é suposto ser, dizia, deixa no exterior erros crassos, quer de incúria, quer por livre arbítrio

euskadia
euskadia
2020-08-06

.....quanto à violência mefítica daqueles que, por não se saberem sentados em palha, julgarão seus atributos na jactância da vil existência que se lhes (a eles próprios) conferem. Falar ou opinar sobre língua portuguesa e, com quem dela se serviu para redesenharem a sua alma como Deus assentiu o mundo pela geometria, sem o fervor da deferência, então nada sabe sobre o parir duma Essência