Lista de Poemas
Quero, terei —
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.
Dos montes, dos vales,
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
Paro, escuto, reconheço-me!
O som da minha voz caiu no ar sem vida.
Fiquei o mesmo, tu estás morto, tudo é insensível...
Saudar-te foi um modo de eu querer animar-me,
Para que te saudei sem que me julgue capaz
Da energia viva de saudar alguém!
Ó coração por sarar! quem me salva de ti?
Campina e trigo, campina,
Campina e trigo.)
Como ao som de uma marcha ao mesmo tempo marcial e fúnebre,
[...] e alegria e temor
Rompem...
A vida é antagonismo, [...]?
Queda de impérios, tudo a fugir... sangue, ruídos... tumultos
Amontoamentos de coisas pilhadas num saque,
Despensas junto das cidades, entre casas caídas,
Choros, raivas, inferno de som,
A vida e a sua tragédia toda vivida num dia, numa hora...
Todo o mistério e horror de nos acontecerem coisas
Todo o horror de quem vive sossegado e de repente vê a morte
Vê o inferno, [...]
(Pobre de [...]!)
Tudo quebrado, tudo ferido, tudo diverso de quando era normal a vida...
(Ditosos os que morrem logo depois de nascer
E para quem a luz da vida não é mais do que um relâmpago no horizonte!)
(Poder pensar claro neste assunto!
Poder ver bem e sem sofrer ser outro o que é isto!
Ah quem me dera ter o coração ampliado e arrumado
Como um interior de casa de família de gente que tem com que viver!)
E o ruído dos saques, o fragor das batalhas, os choros, as mágoas, os (...)
Os choques dos homens
São um mar de confusão onde a nossa lucidez se afunda.
Perco-me de compreender...
Apanho-me nessa tragédia de pasmo humanitário.
Monólogo na Noite
Sou um símbolo encarnado em dor e ódio
Pedaço d’alma de possível Deus
Arremessado para o mundo
Com a saudade pávida da pátria
A cujo horror tremo ao pensar voltar
Mas sem nada da (...) e da ilusão
Para viver neste desterro. Amor,
Paz, amizade, tudo quanto ajuda
A viver a mentira do universo
Falha-me e eu (...)
Ó sistema mentido do universo
Estrelas-nadas, sóis irreais
Oh com que ódio carnal e estonteante
Meu ser de desterrado vos odeia.
Eu sou o inferno. Sou o Cristo negro
Pregado na cruz ígnea de mim mesmo
Sou o saber que ignora;
Sou a insânia da dor e do pensar
Sobre o livro de horror do mundo.
Por que fui eu, amaldiçoado horror
Que me fizeste ser e que eu nem posso
Pensar para te amaldiçoar, ou crer
Em ti, tão cheio do consciente e mensurante
Que o ódio me não cegue para ver
Que não sei que tu és para saber
Se sequer poderei pensar odiar-te.
SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN [b]
Portugal — Infinito, onze de Junho de 1915
Hé lá, á — á — á — á!
De aqui, de Portugal, de onde a Europa olha a América,
De onde tu teres existido é um efeito complexo,
Consciente de estar à vista, no palco para a plateia que é no auge.
Saúdo-te deliberadamente, saúdo-te
Desde o princípio de te saudar, como é próprio de ti.
Hé-lá Walt, old boy, meu velho arado das almas,
Hé-lá meu condottiere da sensualidade autêntica
Pirata do teu próprio génio,
Filho-pródigo da tua inspiração!
Ó sempre moderno e eterno; cantor dos concretos absolutos
Concubina fogosamente [...] do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te pela diversidade das coisas,
Sexualidade... etc.
Tu, o homem-mulher-criança-natureza-máquinas!
Tu, o p'ra-dentro, tu o p'ra-fora, tu o ao-lado de tudo!
Fulcro-sensualidade ao serviço do infinito, escada
Até não haver fim a subir, — e subir!
Saúdo-te e chamo
A tomar parte em mim na saudação que te faço
Tudo quanto cantaste ou desejaste cantar.
Ervas, árvores, flores, a natureza dos campos...
Homens, lutas, tratados — a natureza das almas...
Os artifícios, que dão sabor ao que não é artifício
As coisas naturais que valem sem valor dado,
As profissões com que o homem se interessa por ter vontade
As grandes ambições, as grandes raivas, as pálpebras
Descidas sobre a inutilidade metafísica de viver...
Chamo a mim, para os levar até ti,
Como a mãe chama a criança para a sentir ser
A totalidade dispersa do que interessa ao mundo...
Ah, que nada me fique de fora das algibeiras
Quando vou procurar-te.
Que nada me esqueça, se te saúdo, que nada
Falte, nem o faltar esqueça,
Porque faltar é uma coisa — faltar.
Vá! Vá! Tudo! O natural e o humano!
Vá, o que parte! vá, o que fica! vá o que lembra e o que esquece!
Tu tens direito a ser saudado por tudo
E eu, porque o vejo,
Tenho o direito a encanar a voz em tudo saudar-te
V - Lá fora vai um redemoinho de sol
Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruído dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta ao ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...
De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...
Chove fogo — ouro de barulho estruge...
"Hela-hohô-ô (ô)...
Z — zz Sher Rr to go. Shabababulá...
[...]
ESPAÇO...
Tudo se apaga como uma grande lâmpada eléctrica que se funde...
Vem do fundo do mundo
Vem do horizonte mudo, confuso do mundo,
Sussurro surdo, escuro, murmúrio
De uma cavalgada que dura, que dura furiosa no ouvido,
Inúmera cavalgada vem...
Vêm do fundo do mundo confuso
Vêm do abismo do espaço nocturno...
À pressa, negros, rápidos, de repente surdem...
Súbito outra vez tremem...
Oscilam no ruído que tem rasto no escuro...
Inúmera cavalgada... Quem?
Vem apertada nos passos confusos
Vem apertada nos ruídos dispersos,
Vem aclamada nos ruídos mudos
Vem apertada nos ruídos confusos,
Vem apertada, vem apertada, vem apertada
Todo o horizonte está cheio por dentro de um grito absurdo
Helahôhô...
Helahôhô...
Se eu morrer, na minha cova
Ponham letreiro mostrando
Que morri quando era nova
Que morri sempre te amando.
Quando penso
Em glória, fama, (...)
(...) tudo acabando em morte
Eu sinto um frio n'alma, um confranger,
Obscurecer de todo o pensamento,
Dissolver da clareza da consciência
Nos seus (...) elementos escuros.
Tudo formas
Do gélido sentimento de existir
Que é o frio habitual do meu sentir;
Sentir a vida como um arrepio,
Como um horror, como uma morte consciente.
O frio do mistério enche tudo
Porque o mistério é tudo e é tudo a vida.
Comentários (17)
What?
Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.
cmt
O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".
O profeta dos poetas!
Mensagem
1934
Poesias
1942
Poesias de Álvaro de Campos
1944
Odes de Ricardo Reis
1946
Poemas de Alberto Caeiro
1946
Fausto
1952
Poesias Inéditas (1930-1935)
1955
Poesias Inéditas (1919-1930)
1956
Quadras ao Gosto Popular
1965
Novas Poesias Inéditas
1973
Poemas Ingleses
1974
Livro do Desassossego
1982
Álvaro de Campos - Biografia encenada
Estou Cansado - Poema de Álvaro de Campos
Chico Buarque lê Álvaro de Campos
Álvaro de Campos - Tabacaria (por Mário Viegas)
Mário Viegas - Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos
''Acaso & Afinal'' Álvaro de Campos [Fernando Pessoa]
Primeiro é a Angústia - Álvaro de Campos
SIM ESTÁ TUDO CERTO - Álvaro de Campos, Poema do Dia 10.wmv
Maria Bethânia - Ultimatum - Álvaro de Campos
Fernando Pessoa por Joao Villaret- Tabacaria
Sinde Filipe diz Ai Margarida de Álvaro de Campos (2008)
Reticências, Álvaro de Campos (trecho)
Trecho Texto Essa Velha Angustia (Álvaro de Campos)
MANIFESTO DE ÁLVARO DE CAMPOS
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) - Lisbon Revisited
Jô Soares - CRUZOU POR MIM, VEIO TER COMIGO NUMA RUA DA BAIXA - Álvaro de Campos - gravação de 1985
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ignorante
pode alguem me ajudar em relacao da referencia de publicao deste livro
Sim Fernando
Amo Fernando Pessoa, e o meu preferido é AQUI NA ORLA DA PRAIA...
O Cosmos descortinado...O sonho coberto de poesias...Assim é Fernando Pessoa.
Great Man ...
Da educaçâo que me deram....
Toda a ordem errada. Aqui na orla da praia... O Poeta é um fingidor...Meta poesia, Taqbacaria... O menino da sua mâe. Nunca comheci que tivesse levado porrada... ETC O desassossego do cais!
e lindo
Tantas citações que poderiam usar, e usam logo uma que a Internet lhe tem atribuído erradamente...
alguem podia me fazer uma interpretação do poema sff?
Gostei do blog