Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Cleonice Rainho foi uma escritora e poeta portuguesa, cuja obra se insere no contexto da poesia contemporânea. Embora menos conhecida do grande público, a sua escrita revela uma sensibilidade particular para a expressão de sentimentos e observações sobre a vida. A sua contribuição literária, marcada por uma linguagem pessoal e reflexiva, explora temas que tocam na intimidade e na perceção do mundo ao seu redor. O seu legado, ainda que modesto em termos de projeção, representa um testemunho da diversidade de vozes na literatura portuguesa.

n. , Luanda · m. , Venecia

77 511 Visualizações

Saci-Pererê

Bonequinho preto
de uma perna só,
cachimbo na boca
e gorro vermelho
— fogo vivo de suas magias.

Original e engraçadinho
podia ser de qualquer cor
ou de qualquer raça,
esse negrinho,
pois já virou
até passarinho...

Molequinho esperto
levado, faz artes
como Pedro Malazartes
e pelas estradas
aos viajantes persegue
— traidor como quê
esse Saci-Pererê.

Mas no nosso carro,
ele dança e pula
com um pé só,
sem ouvir vovó
que conta sua lenda e diz:
— Pra nós é um mascote,
símbolo de sorte
dessa viagem feliz.

Ler poema completo

Poemas

50

Saci-Pererê

Bonequinho preto
de uma perna só,
cachimbo na boca
e gorro vermelho
— fogo vivo de suas magias.

Original e engraçadinho
podia ser de qualquer cor
ou de qualquer raça,
esse negrinho,
pois já virou
até passarinho...

Molequinho esperto
levado, faz artes
como Pedro Malazartes
e pelas estradas
aos viajantes persegue
— traidor como quê
esse Saci-Pererê.

Mas no nosso carro,
ele dança e pula
com um pé só,
sem ouvir vovó
que conta sua lenda e diz:
— Pra nós é um mascote,
símbolo de sorte
dessa viagem feliz.

7 023

A Calçada

A calçada da minha rua,
de pedra portuguesa,
preta e branca, já se vê,
que é bonita é,
mas não dá pra jogar maré
e eu já descobri por quê...

Tem desenhos lindos:
— Uma estrela que lembra luz
e ilumina meus pés
na sandália que reluz;
— um trevo de quatro folhas
que dizem dar sorte...
Será que dá?
Passo sobre ele
prá lá pra cá.
— Um dragão sossegado
porque não é de verdade.
Se fosse, nos dias de chuva,
saltava da calçada
e ia embora na enxurrada.
Pulo sobre ele: Plim... plom... plão!
Ôi, dragão! Não tenho medo, não!

2 841

A Pipa e o Vento

Aprumo a máquina,
dou linha à pipa
e ela sobe alto
pela força do vento.

O vento é feliz
porque leva a pipa,
a pipa é feliz
porque tem o vento.

Se tudo correr bem,
pipa e vento,
num lindo momento,
vão chegar ao céu.

6 327

Infância

Sou pequeno
e penso em coisas grandes:
pomares e mais pomares,
jardins de flores e flores
e pelas montanhas e vales
grama verdinha e bosques,
com milhões de árvores
e asas de passarinhos.

Rios e mares de peixes
— aquários largos e livres
— ar dos campos e praias,
a manhã trazendo o dia
com o sol da esperança
e a noite de sonhos lindos,
nuvens calmas, lua e astros,
minhas mãos pegando estrelas
neste céu de doce infância.

E pelas estradas claras
meu cavalinho veloz
no galopar mais feliz:
— eu e ele sorrindo,
levando nosso cristal
para os meninos do mundo.

1 284

O Avião

Levanta vôo,
corta o espaço
o enorme pássaro.

Arroja-se longe
e rastro deixa
— novelos brancos
que se entrelaçam
e se desenrolam,
escrevendo no ar
letras de silêncio.

Seu corpo brilha,
sobrepaira e desaparece
na nuvem branca
estendida como um véu.

— Se eu fosse o piloto
desse avião
ia aterrissar no céu.

4 223

A Borboleta Azul

Nosso jardim é uma festa
de borboletas:
pequenas e grandes,
listradas,
amarelas e pretas
e uma pintadinha
que é uma graça.

Mas a azul, azulzinha,
a preferida,
é como se fosse
minha filhinha:
vi-a nascer da lagarta,
virou crisálida,
depois borboleta.

Quando voou
pela primeira vez
bati palmas: Vivô!!!

Voa e volta leve,
azul, azulzinha
e pousa num cacho
de rosas brancas
sua casinha.

Às vezes se ajeita,
mansinha,
tomando a forma
de um coração.

Seu corpo sedoso,
macio,
parece vestido
com pano do céu.

3 013

Canção

Chove e da janela
vejo as andorinhas
no poleiro dos fios
grossos da água
de muitos dias.

De asas molhadas
sacodem-se,
bicam e se encolhem
tristinhas.

Estou com duas blusas,
queria jogar-lhes uma
e sem poder
conto os fios.

São cinco — uma pauta
e as gotas dágua
caem como notas
de uma canção.

1 047

Terraplanagem

A máquina amarela
range-range, sobe o morro,
trabalhando a terra
que se esfarela.

A terra é chão e solo,
estrada, poeira e pó.
A terra é campo
de verdes verduras,
árvores, troncos, cipó.
A terra é barro, argila
para tijolos e esculturas.

Penso na terra
que se esfarela
ao peso da máquina amarela:
— A terra trabalha também
para alimentar as raízes,
produzir minérios,
sustentar os montes,
as flores, os frutos
e a água das fontes.

1 574

Mickey

(No seu cinqüentenário)

Pequenino camundongo
dengoso e faceiro
de orelhas enormes,
boca de riso franco
e narinas que sopram
alegria e calor humano.

Ratinho catita,
garrido, elegante,
que troca de roupa
a qualquer hora,
em qualquer lugar,
onde se desenrole
o pano da fantasia.

Amigo querido
da gente pequena.
Rei de sua turma,
namora Minie,
anima o Pateta,
abraça Horácio,
atiça o Pluto,
adora Clarabela
e, com todos eles,
vive aventuras,
sente emoções
e faz estripulias,
representando
incríveis papéis.

Já cinqüentão
está jovem, menino
e será imortal
pela criatividade
do Papai Walt Disney.

1 469

Cores

Branco do leite, da neve
e dos flocos de algodão.

Amarelo das laranjas maduras,
do ouro e dos girassóis.

Cinzento das nuvens pesadas
e da cinza dos braseiros.

Roxo da quaresmeira florida
e de escondidas violetas.

Azul do céu de dias claros,
do anil e do mar profundo.

Marrom do chocolate gostoso
e das castanhas de Natal.

Rosa da corola de muitas flores
e do rosto de muitos nenéns.

Preto das noites escuras,
da fumaça e do carvão.

Verde das folhas viçosas
e das pedras de esmeralda.

E vermelho vivo do sangue
que colore nossos corações.

2 124

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Juarez
Juarez

??