Lista de Poemas
Comparecimento
do leito ou da pedra,
com pólvora em todos os sentidos.
Compareço:
gatilho na ponta dos gestos,
em fogo e bala, à espreita.
Compareço e me vou.
Aceitei por condição.
Não oculto
as linhas de loucura
que me lutam.
Rebento em pleno vôo.
Aqui estou
por própria culpa.
Possuo o desespero
residente
naquilo que construo.
Não recuo
dos deuses. Enfrento
o seu semblante satisfeito,
rejeito
a luz e o erro,
com a mesma carnação
e o mesmo jeito.
E se a recusa vier de vossa parte,
vivo em metade,
vivo separado.
Não pretendo ser salvo.
Vivo explosivo, áspero,
mas vivo.
E sou meu próprio alvo.
Publicado no livro Danações (1969).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.198-199. (Poiesis
O Homem e as Coisas
à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.
Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?
Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?
Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?
Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.
Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.
As coisas não se submetem
à nossa vestidura.
Publicado no livro Ordenações (1971). Poema integrante da série Ordenação Quinta: Formal de Partilha.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.329-330. (Poiesis
O Poder Está Solto
É um louco nas ruas
um louco maneiroso
nos palácios
e governamental
perto da aurora
Mas esta é de jardins
impressões digitais cárceres
sujos violências
no arame de secar
e secretos rancores
América da aurora
onde colhi
o cravo de teu nome
E te guardo
em sobressalto
e corro amedrontado
pelo peito
O poder está solto
casa a casa
ou nas armas
de um reino precavido
Está no telefone
ouvindo o amor
e o suspeitoso ar
de quem vigia
pelas telhas
subornos de vontade
ou de fé silenciosa
América era um pátio
onde retive
meu amor
nos lábios
O poder nos julgou
e o desvendado mundo
em nós
Está solto o poder
— é um animal
América semeada
no relincho
de um cavalo
Como prender o mar
senão na praia?
América do mar
que me banhava
O poder só se prende
quando morde
ou alastra seu recado
América eu escavo
outra América
eu escavo
as florestas
este medo
eu escavo
os remendos
da história
escavo escavo
o escravo
que mói
a palma
de meus sonhos
eu escavo
o teu abismo
e o ritmo
do que te chama
Não há coração
igual ao teu
E te escavo
Não há poder
Apenas cúmplices
Publicado no livro Um país o coração (1980).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.65-6
Cantata em Rodas Plumas
armou a clava
da tarde e seu alarme.
Quer, albatroz, levar-me
onde alcançam suas asas.
Vem, ditoso, acordar-me.
Quer nos levar nas rodas
das plumas e avalanches.
Nós chegaremos antes
com jubilosas almas,
que se absorvem, alvas
e salvas, nos redutos.
De céu a céu, conceitos
são cinzas e ferrugem.
E os que se amam, pungem
de amar, e mais amando
em gozo, em gozo, em bombo
ou nos vestígios, nuvens;
nos elos desta lava.
Em mais amor solvemos
o que se faz pequeno.
E humano: abismo, abismo.
Cântico
tua esperança
Até que a mó se desgaste;
Mesmo sem mó, limarás
Contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
Mais doloroso e profundo
Limarás sem mãos ou braços,
Com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
Após a morte de tudo.
Construção da Noite
há um homem
Mas o fundo é o outro lado;
No casulo de seu tempo
Há um homem
Mas o fundo é o outro lado.
É o casulo
Onde o homem foi achado
Mas o fundo é o outro lado.
É o terreno
Onde o homem foi lavrado
Mas o fundo é o outro lado.
É a treva
onde o homem foi fechado
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio
De um homem soterrado
Mas o fundo é o outro lado
Mas o fundo é o outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto
É a infância que cresce sobre o morto,
É o sol que madruga no seu rosto,
É um homem que salta do sol-posto
E convoca outros homens para o sonho.
E mistura-se á terra
E mistura-se ao sonho
E o canto recomeça além do sonho,
Além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado.
Mas o fundo principia
Sem passado,
Sem os montes, sem os barcos,
Sem o lago.
Tua vida verdadeira é o outro lado,
Tua terra verdadeira é o outro lado,
Tua herança verdadeira é o outro lado.
Tudo cessa
Tudo cessa
Tudo cessa
Mas o mundo
é o outro lado
que começa
Clara Onda
que nunca se divide, confluindo
e torna noite, este sapato findo
e o firmamento, silencioso ciclo.
Este amor em meadas, infinito.
Em meadas de orvalho, desavindo,
em meadas e quedas, rugas, trincos
e rusgas, trinos, pios e sóis contritos.
Este amor me retece e configura.
Tem pressa de crescer, fogo calado.
Apenas queima, quando não se apura.
Parece interminável, quando tomba.
E só se apura, quando despertado.
Dissolvido me solve em clara onda.
Livro do Sol - 1
existem além delas,
não padecem, nem sofrem
mas existem
e projetam a sombra nas janelas.
Penetrar a substância que as anima
como a noite as embala no seu ventre,
como a noite as concentra e precipita,
não tem asas, nem plumas,
só silêncio
sonoro como as algas,
só silêncio
de astros
na caverna.
As coisas
nos prendem
junto a elas,
nos contemplam,
nos amam
mas nos prendem
e ficamos calados
na amurada
vendo as coisas
pensarem
no que somos.
Ganho
não espero soldo, nem reses.
De ganho, só meus proventos;
De ganho, o que esbanjo ao vento.
De ganho o que cava a pá
De ganho o que faz a paz.
De ganho o que a morte dá,
Dia a dia, ano a ano.
Neles não ponho linhas ou malhas
como a peixes.
Ponho luz e ponho tento;
nenhum lucro lanço em dados.
Qual a réstia que os distingue?
Qual a torre? Qual o sino?
Vestem blusas, vestem nuvens?
São humanos ou divinos?
De que tempo o seu declive?
De que sarro?
Dos deuses não espero soldo, nem reses.
Só lhes ganho o não rendido,
o obscuro, o solo virgem,
onde parte deles vive
e outra parte se redime.
Chegamento
cheguei
vivente, ileso ainda,
apresentando as trilhas
que só eu caminhei,
amamentadas filhas.
Até aqui cheguei,
pressuroso, confiante
mas seco, sem detenças
no depois e no antes;
sou a colina estreita
e o sol posto à direita.
Amigos, inimigos
até aqui cheguei,
por força de eu comigo;
com armas fabriquei
o tempo, onde Vulcano
subterrâneo, desceu.
A liberdade amei,
era bela e eu moço,
donzela a desposei.
E por sabê-la amada
e sempre mais diversa
do amor sobrou-me nada
e da esperança, réstias
Até aqui cheguei;
esse poder que tinha
de tanto andar, gastei.
Por isto na cantina,
guardador me encerrei
à espera de outra vinha.
Até aqui cheguei.
Para tantos cuidados,
afinal o que é meu
Que treva e luz se aninha
No corpo, que é só minha?
A roupa, quem ma deu
há muito apodreceu.
Os bens desempregados
são vindos e voltados.
E de tanto buscar
desfaço-me no ar.
Afinal o que é meu?
Até aqui cheguei.
Exaurido, remando
ou sem remos.
Amando ou desamando,
desconheço quando
os pés na mesma via
atingirão o dia.
Caminharei.
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