Escritas

Lista de Poemas

Sentença

"Vistos.
Fulano de Tal, nascido
nesta cidade do reino,
em tempo desconhecido.

Nascido
sem explicação ou sentido,
como o arremesso de um disco.

Nascido
como quem diz uma palavra e pronto:
ei-lo lançado no andamento do mundo.

Nascido
como se planta um figo ou ameixa
e se planta
um grito na garganta.

Nascido e agora,
viajor por profissão,
inquilino das coisas,
armazena culpas e velos de lã.

E eu, julgador, sentencio,
considerando o réu
e o estar aqui, opresso,
dividido na noite
que se dividiu,
como mulher no cio,
resolvo condená-lo
a viver em danação,
além do fojo de seus pais,
com avarias e receios,
entre iguais.

Depois, suspendo-lhe a pena,
para que pereça como veio."


Publicado no livro Danações (1969).

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.227-228. (Poiesis
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Alforria

Pássaros somos
sem menor retorno.
Depois as asas doem
e as folhas tombam.

Aos poucos
vou comprando
a liberdade.

Os sapatos doem,
as roupas doem,
a morte
não tem dor,
doendo em nós.

Aos poucos
vou comprando
a liberdade.

De chofre
nada nasce

A vigilância
cobre nosso sono
com gaiolas e tômbolas.

E o comércio
do sonho
se dissolve.

Aos poucos
vou comprando
a eternidade.


Publicado no livro O poço do calabouço (1977).

In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
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Mora Judicial

Demorou o processo
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.

Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.

Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.

Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.

E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.


Publicado no livro O poço do calabouço (1977).

In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
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Carta de Guia

Viver é um trato de esperança
que não estanca nos passos ou valores;
corta-se ao viver o baraço dos meses,
a varanda de clausuras,
para sermos o silencioso sulco,
a clareira de dons.

Viver são rédeas soltas
onde a memória destrança
o tropel dos símbolos.
Não tem contradança.

Viver no mundo é casa alugada,
onde dispomos, por instantes,
a cadeira na sacada,
retendo o rosto da amada
em nosso canto,
a refazer as cordas de seu leito.

Viver é soldar o esquecimento.


Publicado no livro Casa dos Arreios (1973).

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.376-377. (Poiesis
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Canga

Jesualdo Monte, não és homem.
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.

Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio
no teu lombo.

O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.

É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.

É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.

É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.

É esta a condição de não ser homem.


Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Arrevesso.

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.345-346. (Poiesis
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Cântico

Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.

Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.

Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.


Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Demarcação.

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.353. (Poiesis
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No Ombro das Coisas

Como recolher-te, povo,
no ombro das coisas?

Preciso juntar tua bandeira
no caminho
do sol, das oliveiras.

Preciso recolher-te
onde não minto
e sou rebelde.

Pão.
Prego, espectro.
A alma imortal
e a outra alma
que é povo.

Casaco batido e longo,
o tempo se adivinha.
Tu também te adivinhas
cada manhã, embora
em fatias. A aurora
te adivinha na pura
distração, sem nuvem.
O menino ao nascer te adivinha
e é o mundo
chorando, adivinhando
o outro lado. O escuro.
É teu lábio: respiras.

Em cacos teu espelho.
Em cacos e sementes.
Já viajam sem ver-te.

E vão-se estilhaços
de ti, vão-se de braços
com o ar, as horas todas.
E o meu velho desespero.

O povo é remo
e a pátria, imóvel barco.

Teus fragmentos viajam
absurdos, indomáveis
e recolher-te, faz-me
nascer de novo.

Bendito seja o teu fruto,
América. Bendito seja
o ventre que tanto amei
e escuto pulsar, povo.
Teu fruto
no pomar da memória.

Quero-te inteiro. Ouso
por ti sofrer.
Vou recolher-te, fio
a fio. Medo a medo.
E quando fores completo,
virás me recolher.


Publicado no livro Árvore do mundo (1977).

In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.113-11
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Purificação

Coarar as emoções,
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.

Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.

Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu, inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.
A alma! Que o ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!

Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!

O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.

Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!


Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.262-263. (Poiesis
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Canto Oitavo: Libertação do Cavaleiro

IV

O vento com seu cavalo
rompe a epiderme do susto,
retesando os duros músculos
avança com o sol ao meio.

Rasga o relincho no valo
e vai seguindo o roteiro,
maduro de campos claros
e horizontes escuros.

A tarde segue o cavalo
e o casco do sol percute,
bigorna de rubro talo
com seu ferreiro de rumos.

Bate as esporas no malho,
as crinas e as asas duplas,
acesas e resolutas,
desdobram sombra e cavalo.

Qual o vento e o cavaleiro?
Rio de oliveiras se fende,
penetrando o desamparo
das andorinhas no pêlo.

Qual o vento e o cavaleiro?
Batem esporas na tarde
e a tarde maçã suspensa,
fica tremendo na haste.

Sobe a garupa da ponte,
o vento e seu cavaleiro,
rangem esporas no ventre
e o sol irrompe no centro.


Publicado no livro O campeador e o vento (1966).

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.182-183. (Poiesis)

NOTA: Poema composto de 5 parte
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Considerações sobre a Morte e seus Hábitos

I Visitante insólita


A morte e seu consumo.
A morte e seu apuro.
O repuxo que ela traz, o soldo.

Desde antanho
concebemos seu vulto.
Desde antanho
a projetamos
no muro do que somos.

Limpa nos parece:
arroio, lebre.

O recuo não cabe
quando, adrede,
se cala.
Eis o aviso prévio.

Para que serve então
nossa vigília,
a escola, o calendário?

Que argumento a demove
do faro,
de unha aguçada,
do presságio?

Desde antanho
o aviso que ela dá
é de hora certa,
sem rádio, telefone
ou rezas.

O aviso é sem aviso,
recibo
de contas a pagar,
atavios, conceitos.
Está onde está.

E todos mudam de lotação
ou velocípede.
Todos mudam de cômodos.
O aluguel de nível.
Todos mudam de emprego.
Só a morte,
desde antanho,
não mudou,
não se converteu
ao rebanho.


Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.241-242. (Poiesis)

NOTA: Poema composto de 5 partes: II. Disciplina; III. Da roupa final; IV. Do hábito; V. Sepultament
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