Escritas

Lista de Poemas

Remissão

Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastando numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, em suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo de teu ser?
👁️ 2 075

Sonetilho do Falso Fernando Pessoa

Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
👁️ 1 411

Maternidade

Seu desejo não era desejo
corporal.
Era desejo de ter filho,
de sentir, de saber que tinha filho,
um só filho que fosse, mas um filho.

Procurou, procurou pai para seu filho.
Ninguém se interessava por ser pai.
O filho desejado, concebido
longo tempo na mente, e era tão lindo,
nasceu do acaso, o pai era o acaso.

O acaso nem é pai, isso que importa?
O filho, obra materna,
é sua criação, de mais ninguém.
Mas lhe falta um detalhe,
o detalhe do pai.

Então ela é mãe e pai de seu garoto,
a quem, por acaso,
falta um lobo de orelha, a orelha esquerda.
👁️ 1 611

Entre o Ser E As Coisas

Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.

Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.

N’água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.
👁️ 1 117

A Língua E o Fato

Precisamos dar um nome
português a este desporto.
De resto, o nome genérico
nem tem cara de vernáculo.
Lincoln, de latim provido,
hesita entre bulopédio
e globipédio. Afinal
define-se por ludopédio
no jornal oficial.
Aprovado o lançamento
por força da lei mineira
não assinada mas válida,
eis que súbito estraleja
barulho estranho lá fora.
A redação se interroga.
Que foi? Que não foi? Acode
o servente noticioso
e conta que espatifou-se
a vidraça da fachada
por bola de futebol.
👁️ 540

Espetáculo

Foi Saint-Hilaire, o sábio-amante
da natureza, o vê-tudo,
o anotador, quem disse
(não os mentirosos da cidade):
Aqui até os relâmpagos são diferentes
dos que fulguram na Europa.
Formam no horizonte
imensa claridade.
O ar é todo prata
e uma luz mais faiscante
no centro se alevanta,
foguete esplendoroso
que no clarão floresce
e no clarão perece.

Era noite, e Saint-Hilaire
parou na serra o seu cavalo,
sob a chuva e a bofetada do trovão,
europicamente
deslumbrado.
* Esses três últimos poemas pertencem a Boitempo II, mas não estavam incluídos na pasta organizada por CDA. (N. E.)
👁️ 594

O Amor E Seus Contratos

Voltas a um mote de Joaquim-Francisco Coelho


Nos contratos que tu lavras
não vi, Amor, valimento.
Só palavras e palavras
feitas de sonho e de vento.

Tanto nas juras mais vivas
como nos beijos mais longos
em que perduram salivas
de outras paixões ainda ativas,
sopro de angolas e congos,
eu sinto a turva incerteza
(ai, ouro de tredas lavras)
da enovelada surpresa
que põe tanto de estranheza
nos contratos que tu lavras.

Por mais que no teu falar
brilhe a promessa incessante
de um afeto a perdurar
até o mundo acabar
e mesmo depois — diamante
de mil prismas incendidos — ,
amarga-me o pensamento
de serem pactos fingidos
e nos seus subentendidos
não vi, Amor, valimento.

Experiência de escrituras
eu tenho. De que me serve?
Após sofridas leituras
de ementas e de rasuras,
no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios
de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios,
teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.

As nulidades tamanhas
que te invalidam o trato
não sei se provêm de manhas
ou de vistas mais estranhas.
Serão talvez teu retrato
gravado em vento ou em sonho
como aéreo documento
que nunca mais recomponho.
São todas — digo tristonho —
feitas de sonho e de vento.
👁️ 1 195

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.
👁️ 741

Como Encarar a Morte

De longe

Quatro bem-te-vis levam nos bicos
o batel de ouro e lápis-lazúli,
e pousando-o sobre uma acácia
cantam o canto costumeiro.

O barco lá fica banhado
de brisa aveludada, açúcar,
e os bem-te-vis, já esquecidos
de perpassar, dormem no espaço.

A meia distância

Claridade infusa na sombra,
treva implícita na claridade?
Quem ousa dizer o que viu,
se não viu a não ser em sonho?

Mas insones tornamos a vê-lo
e um vago arrepio vara
a mais íntima pele do homem.
A superfície jaz tranquila.

De lado

Sente-se já, não a figura,
passos na areia, pés incertos,
avançando e deixando ver
um certo código de sandálias.

Salvo rosto ou contorno explícito,
como saber que nos procura
o viajante sem identidade?
Algum ponto em nós se recusa.

De dentro

Agora não se esconde mais.
Apresenta-se, corpo inteiro,
se merece nome de corpo
o gás de um estado indefinível.

Seu interior mostra-se aberto.
Promete riquezas, prêmios,
mas eis que falta curiosidade,
e todo ferrão de desejo.

Sem vista

Singular, sentir não sentindo
ou sentimento inexpresso
de si mesmo, em vaso coberto
de resina e lótus e sons.

Nem viajar nem estar quedo
em lugar algum do mundo, só
o não saber que afinal se sabe
e, mais sabido, mais se ignora.
👁️ 1 475

Passatempo

O verso não, ou sim o verso?
Eis-me perdido no universo
do dizer, que, tímido, verso,
sabendo embora que o que lavra
só encontra meia palavra.
👁️ 1 321

Comentários (12)

Iniciar sessão ToPostComment
Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
2024-05-15

Um pouco mais Drummond na vida.

Bruna de Castro Alves
Bruna de Castro Alves
2023-10-28

Conheci este poema aos 12 anos e ele me tocou profundamente. Na época pensava sobre Hiroshima, mas sua sagacidade abriu minha consciência para o horror do poder e da perversidade humana. Viva Drumond!

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2023-08-27

O eterno poeta... o maior , o mias belo... o imortal encantador.