Escritas

Resistência

Carlos Drummond de Andrade Ano: 336
O tísico
não tosse.
Não precisa tossir
para provar que continua tísico.
Rosto esverdinhado, barba por fazer,
pescoço envolto em lã xadrez,
roupa de brim dançante no esqueleto,
o tísico da cidade quando morre?

Cumprimentado de longe,
ninguém lhe aperta a mão.
Alguém já viu micróbios passeando
em seus ossudos dedos pré-defuntos.

Sua voz mal ouvida é som de longe,
de onde ninguém volta, ou só voltou
em véus de assombração. Terá morrido
o tísico, e transita,
pausado, de brim cáqui, em dia azul?

Morre de congestão o velho indagador,
de ataque morre súbito o fortudo
professor de ginástica. Morrem outros
de 20 anos, rapazes não marcados.
O tísico, vai tossindo, enterra todos.
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