Escritas

Lista de Poemas

Aspiração

Tão imperfeitas, nossas maneiras
de amar.
Quando alcançaremos
o limite, o ápice
de perfeição,
que é nunca mais morrer,
nunca mais viver
duas vidas em uma,
e só o amor governe
todo além, todo fora de nós mesmos?

O absoluto amor,
revel à condição de carne e alma.
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O Céu Livre da Fazenda

Das loucas festas na fazenda da Jaguara
não resta mais nem um cristal trincado.
Matas e lagoas não recordam
o que ali se bebeu e se dançou
enquanto o antigo dono Antônio de Abreu Guimarães
carpia em penitência portuguesa seus pecados
de contrabandista de ouro e diamantes.
As obras pias que a Jaguara devia sustentar
morreram com os festejos. Tempos rotos.
Na torre da igreja da fazenda
a suinara é o epílogo de tudo.

A ganância e a vaidade se ausentaram
destes sítios. Nem mesmo ingleses
escoram mais galerias de Morro Velho com madeiras
cortadas na Jaguara. A natureza
recompõe seus prestígios onde o homem
parou de depredar. A garça branca
pousa delicada nos espelhos d’água remansosa, onde a presença
não se percebe mais da garça rósea.

E vem o gaturamo cantarilho
nas roçadas de milho, o quero-quero
circunvoando juncos. Multicor,
a plumagem do socozinho vai cruzando
o voo horizontal das jaçanãs.
Repara, homem do asfalto, a seriema
a preparar, no capim alto, seus disfarces,
e a corruíra-do-brejo, a viuvinha,
o lenhador-de-olho-branco, a saracura,
todas essas aves que só existem
nas gravuras dos livros, na empalhada
vitrina dos museus... porque matamos
o que era vida alada em nossa volta.

Ou não repares nada. Tenho medo
de convidar-te a ver o livre espaço
da Jaguara, e teu instinto predatório
novamente açular-se, tua fome
de frequentador de restaurante cinco estrelas
cobiçar a carne tenra e não sabida
que neste lugar-refúgio se compraz
em ter forma voante e livre-azul.

Neste lugar habito em pensamento
quando Marcus Vinícius e Marco Antônio
me emprestam seus binóculos científicos
e apontam para o sabiá-laranjeira
construindo seu ninho; o carcará
metuendo, que não assusta colibris;
e cento e oito mais espécies que aqui vivem
em seus ecossistemas primitivos,
sobrantes por milagre.
Ouço, na gravação, suas linguagens.
Estão perto de mim, reis-fazendeiros
das plantas e dos bichos-alimento.
Já não é a Jaguara voluptuosa,
mas o simples refúgio, ilha de vida,
enquanto a vida nega-se a si mesma
na exacerbação das técnicas de lucro.
Pequeno paraíso vegetal
ou resto de paraíso... à sombra austera
da torre onde a suinara tem sua noite.
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Música Protegida

Santa Cecília, anterior aos sindicatos,
protege a situação dos músicos das minas.
Ninguém seja cantor ou instrumentista
quer no sagrado ou no profano
sem se prender aos doces laços
de sua melódica Irmandade.
Quem infringir a santa regra
ofensa faz ao povo e ao Céu,
a boca se lhe emudece, o instrumento
cai sem som na laje fria.
Mas aos pios irmãos Santa Cecília
a cada dia e hora
concede voz mais pura
e mais divino som ao clarinete.
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Resultado

No emblema do amor
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.

Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
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Rebelião

A empresa Gomes Nogueira
dobrou o preço do ingresso.
Alega que a nova fita
é de beleza infinita.

Aos estudantes recusa
direito de meia-entrada,
esse direito imortal,
escrito na lei falada.

Tamanho abuso levanta
as pedrinhas do passeio.
Até mancebos serenos
protestam; nem é pra menos.

Vamos entrar assim mesmo,
protestar não adianta,
e a fita, diz Cena Muda,
tem um mistério que espanta.

Mas tamanho desagrado
na algibeira estudantil
gera rumor, logo mil
ruídos vão se encorpando.

Ninguém vê o preto e branco
enrolo das peripécias
do dramalhão Paramount.
A bagunça, num arranco,

toma conta do recinto,
malhando cadeira e tudo
quanto é peça de madeira.
Acende-se a luz. E sinto

que é hora de grande alvitre:
levar essa massa humana
para a reforma do mundo.
Começar? Já, num segundo,

deixar a sala-ratoeira
(pois a Polícia é finória)
e sair, queimando bondes,
que nada têm com essa história.

Os bondes, mas logo os bondes,
providência de estudantes?
Isso mesmo: velho impulso,
a destruição dos amantes.

Do cinema em polvorosa,
na turba, sai o anarquista.
A noite, incendida rosa,
abre um clarão na Lagoinha.
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A Ilha

Nos quatro bancos de cimento
da ilha do Parque estão postados
com o maior comedimento
quatro casais de namorados.

Há nas ilhas sempre o convite
a idílios sem falsos recatos,
mas aqui se traça o limite
que separa intenções e atos.

Os casais se entreolham, discretos,
esperando que um deles ouse
libertar instintos inquietos,
acabando com a falsa pose.

Ninguém se atreve a dar a senha
das carícias que sonham ser.
Grossa cortina de estamenha
vela o arrepio de viver.

Tão leve, o dia! O verde, o esquilo,
céu autorizativo, cúmplice…
Mas vê-se bem que tudo aquilo
é cenário de jogo dúplice.

Perde amor mais uma parada
nesta Citera provincial.
Tarde. Fecha-se o Parque. Nada
acontece de bem ou mal.
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Plataforma Política

O noturno mineiro
congrega na estação
da Central do Brasil
a fina flor política.
Dez horas da manhã,
desembarcam sublimes
estadistas do Rio.
Quatro e vinte da tarde,
despedem-se conspícuos
estadistas locais.
A plataforma zumbe
de abraços e cochichos.
Lá vai o deputado
amigo do Palácio-
-em-flor da Liberdade
e chega o senador
comensal do Catete.
Coronel ajudante
de ordens, rutilante
na farda feita lírio
de imácula brancura,
mostra o grau de prestígio
de quem sai ou quem vem:
o Senhor Presidente
faz-se representar.
Sensação: desta vez
o próprio Presidente
do valoroso Estado
calca seus borzeguins
no ladrilho vulgar.
A música festeira
extravasa da banda
militar requintada
e leva a toda Minas
o som do alto poder
que domina montanhas
e elege candidatos
mesmo à falta de votos.
Que emérita figura
de altíssimo coturno
tira Sua Excelência
da torre oficial?
O Chefe da Nação?
O Papa? O Imperador
de algum remoto Império?
O banqueiro londrino
que veio ver de perto
as arras prometidas
ao desejado empréstimo?
Tento em vão acercar-me
do círculo dileto
que usufrui a presença
do egrégio titular
emanador de eflúvios
benignos. Em muralha,
casimiras escuras
e notórios secretas
em seu redor me barram
o horizonte visual.
Sei que perto de mim,
contudo inatingível,
astro do empíreo cívico,
o Presidente espera
outro deus, outro astro,
na estação convertida
em sacro belvedere.
Somem carregadores,
jornaleiros, cambistas
de palpites lotéricos.
Viajantes banais
esgueiram-se, dissolvem-se
na pompa do espetáculo.
A Central do Brasil
é ara, catedral
do mineiro mistério
do Poder com pê grande,
o Poder Triunfal.
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Mulher Eleitora

Mietta Santiago
loura poeta bacharel
conquista, por sentença de juiz,
direito de votar e ser votada
para vereador, deputado, senador
e até Presidente da República.
Mulher votando?
Mulher, quem sabe, Chefe da Nação?
O escândalo abafa a Mantiqueira,
faz tremerem os trilhos da Central
e acende no Bairro dos Funcionários,
melhor: na cidade inteira funcionária,
a suspeita de que Minas endoidece,
já endoideceu: o mundo acaba.

Ivone Guimarães, em Pitangui,
alcança igual triunfo. Salve, juízes
de Minas, impertérritos!
Amigo sou de Ivone e de Mietta.
Já vejo as duas, legislativamente,
executivamente,
a sorte das mulheres resgatando.
As amadas-escravas se libertam
do jugo imemorial,
perdoam, confraternizam, viram gente
igual a nós, no mundo irmão.
Façanha de duas mineirinhas.
Antônio Carlos, do Palácio do Governo,
bate palmas e diz: “Perfeitamente”.

Mas o Major Cançado, inconformado,
recorre da sentença.
Onde já se viu mulher votar?
Mulher fumar,
mulher andar sozinha,
mulher agir, pensar por conta própria,
são artes do Demônio, minha gente.
Major, ó Seu Major,
Minas recuperada te agradece.
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Vitória

I
Como se eu quisesse
abater com o peito uma torre de ferro.

Como se eu esperasse
entrar dentro de seus olhos e me sorrir.

Como se eu sentisse
por mim o amor que ela não sente
e o fosse ela sentindo, à medida
em que o meu rosto se mostrasse amado.

Seis meses nesta batalha
perdida sem começar.
II
É, este amor não tem jeito.

Meu peito bate na laje.
A laje, não respondendo,
acrescenta meu amor.

É, este amor não tem jeito.

Seis meses enfim completos,
mereço chegar à boca
sorridente-negativa
que retumbalha em meu peito.

Foi naquele corredor.
Naquela tarde. Naquele
minuto sem uma flor
entre painéis burocráticos
de perfeito desamor.

Foi concessão de cansaço?
Prêmio de merecimento?
Sei lá o que foi. O amor
inebriou-se no beijo
que dei nela e que me dei
em sua boca gelada.
Valeu nada. Valeu tudo?
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Bar

Ciprestes e castanheiros
em torno deste bar rústico
vão tornando mais ilustre
o consumo de cerveja.

Mas são ciprestes pirâmides
e castanheiros truncados
em volta de mãos vorazes,
tecendo ramas polêmicas.

Como se papa um sanduíche,
a decoração se come?
Este lugar, eu o amo
ou não se fala mais nisto?
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Comentários (12)

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Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Porco Chovinista
Porco Chovinista
2024-10-30

Sembouquempisons

Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
Jhone Ricardo Gonçalves Da Silva
2024-05-15

Um pouco mais Drummond na vida.

Bruna de Castro Alves
Bruna de Castro Alves
2023-10-28

Conheci este poema aos 12 anos e ele me tocou profundamente. Na época pensava sobre Hiroshima, mas sua sagacidade abriu minha consciência para o horror do poder e da perversidade humana. Viva Drumond!

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2023-08-27

O eterno poeta... o maior , o mias belo... o imortal encantador.