Angela Santos

Angela Santos

n. 1967 PT PT

Angela Santos é uma escritora brasileira contemporânea, conhecida por sua poesia que explora as complexidades da identidade, das relações humanas e da condição feminina. Sua obra se destaca pela linguagem direta e pela capacidade de abordar temas sociais e existenciais com sensibilidade e profundidade.

n. 1967-01-01, Lisboa

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Crepúsculo

A
nudez e o frio do que era
acordaram o sonho
maior que o quase - nada
dentro de mim

Eu crescia
por dentro, crescia por fora
ante o espanto e a espera.
e os meus olhos cresciam,
assustados cresciam
e dentro deles um sonho,
mundos
outros.

O meu corpo eternizava
o crepúsculo da Primavera
os cheiros as cores
Maio nos sentidos perpetuado.

Fora de mim,
indiferente
o suceder de estações
pétalas, réstias de sol
árvores despidas, vergadas
pelos ventos outonais.

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Poemas

257

Denúncia

Ecos
de fome
um rosto acusa
existência e agonia
mórbida simbiose,
o não à vida

Ecos de humilhação
corpo ressequido
fatalmente anónimo .. longínquo
a limpeza gélida do número,
a inócua visão da morte…
colorida.

O horror
não age no descanso
de mentes anestesiadas,
a morte compromete
mas é de longe que vem…

distancia, entorpecimento da culpa,
da nossa culpa…sem defesa!

1 109

Do Poeta

A
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…

Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina

Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!

1 029

Conjugação

Sonhei

que era esta
que sou
e sendo esta
era ainda outra
que também sou

vi-me desdobrada
e una
e sonhei um tempo único
pretérito e espera
saber e adivinhação

Sonhei
tudo podia ser
a negação de limites
e a mutação contínua.

Sou, sendo
o conjugado verbo
do meu ser condicional imperfeito!

1 168

Vidraça

A
menina olhava a vida
por detrás da vidraça
e estremecia a um bater de asa
suspirando pelo beijo que à noite
trocam os namorados

A menina guardava-se
religiosamente
vaidosa do seu sexo sacralizado
e venerava a pureza
do nada.

A menina ardia no incêndio
que a noite
insuspeitadamente
acende na memória adormecida.

1 157

Formas

Às
vezes eu penso
um quadro que inventasse
na orgia dos sentidos
na bebedeira de cores
e na forma instante
que o revelasse

Às vezes eu sinto
O inaudível choro de um instrumento
no sentido abraço que toca e arranca
a humana voz presa
a um violoncelo

Às vezes eu vejo
a forma incrustada numa pedra tosca
e desprender-se dela a estátua talhada
a forma acabada ..a mão e o cinzel.

1 042

Reconstrução

Prende-me
ao tempo
despido de história,
à memória branca,
à leveza de ser…

Prende-me a ti
desassossego, caos
viagem, maré ……

E desfaz-me, depois
para que me despoje e faça
à imagem do eu
que tiver que ser.

1 148

Recusa

Hábeis,
as vozes dos arautos
anunciam o jugo
num canto de inocência
simulado
e as nossas asas presas
perdem o jeito de voar.

Guarda o fundo da memória
um bater de asas
que o verdugo não profana,
e devagar vai esboçando
a forma de uma falésia antiga
sobrevoada

Inúteis fontes e oásis
prometidos
à nossa sede sem cura…
num gesto ousado
a alma se desprende
com o voo por destino.

1 123

Contradição

Não
me lembres o tempo
que me lembras de mim
e eu quero a amnésia
não sentir…não pensar…

eu louca em busca
da paz e do silencio
quando a tempestade
é que me contagia.

1 007

Estranheza

Mãe
que distancia é esta
que vai de mim a ti
distancia crescida
se um dia fomos
uma quase - única forma
uma quase única vida

Mãe
estranho sentir o meu
que te vejo estrangeira
e a palavra
mais não é que limite…

Mãe
que desconforto é este
se teus braços um dia foram
repouso, refúgio
e hoje
apenas braços…os teus
abraço que recuso

Mãe
que nome tem o que sinto
espada que pra ti volto
muralha que eu mesmo ergo
por já não saber dizer-me…

Mãe
razão desta dor que nutro
taça do meu amargo néctar,
oferenda do nosso grito mútuo.

796

Condição

Se
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar

Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher

Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda

Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.

Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!

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Comentários (1)

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claraluz1952

Doy especiales gracias a la gran artista y escritora Angela Santos por colorear este inconmensurable universo con sus majestuosas palabras. Sus poemas y escritos cristalizan la auténtica luz que ella trasporta en su espíritu. Un enorme abrazo y mi eterno cariño, desde Viena, Miriam M. Vargas