Escritas

Lista de Poemas

Crepúsculo

A
nudez e o frio do que era
acordaram o sonho
maior que o quase - nada
dentro de mim

Eu crescia
por dentro, crescia por fora
ante o espanto e a espera.
e os meus olhos cresciam,
assustados cresciam
e dentro deles um sonho,
mundos
outros.

O meu corpo eternizava
o crepúsculo da Primavera
os cheiros as cores
Maio nos sentidos perpetuado.

Fora de mim,
indiferente
o suceder de estações
pétalas, réstias de sol
árvores despidas, vergadas
pelos ventos outonais.

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Odes de Luz

Ia pelas praças que inventava
acordando uma saudade antiga…

manhãs de sol, a orla da praia
luz e cores pela alma bebidas
e o tempo a escoar-se lento
num vago murmúrio de eras perdidas

ressurgindo, assim, o canto e o sol
odes de luz reflectiam…
os olhos curados renegavam sombras
e outra vez e outra
acreditar podiam.
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Uníssono

Um coro de
mil vozes
em uníssono
na minha voz se faz ouvir
eco de outras vozes devolvido
as vozes que um dia acolhi.

São tantas as vozes
no insondável silencio
todas a uma só vez escuto
e o imperceptível murmúrio
é ladainha a lembrar
Babel na dispersão.

No coro de mil vozes
distingo a minha
buscando sempre na inquietação
poder chegar atempo a quem a oiça
do alto da claridade que alcançou

E quando a voz antiga
de manso chega
a voz que oiço em mim
de longe vinda
descubro ser a minha
a voz que grita, no murmúrio
de mil vozes que a habita

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Saudade do Futuro

Na
boca
ainda o gosto da tua
no corpo
indeléveis sinais do teu
no coração
a indomada saudade de ti...

Nos olhos da alma
um mar e uma caravela
circunavegando a memória
olhando o que foi, como se fosse agora,
passado presente que lançou a ponte
futuro que caminha em direcção ao que somos....
esse tempo que trabalha o que faremos de nós
no lugar onde eu e tu escreveremos de novo
belas páginas de uma história.

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Águas Mansas

Clareou à luz do teu olhar
o dia que passa nas asas de um pássaro
azul
e logo se abrem as portas para o inaudito
onde o sopro de um anjo
revela a condição de seguir
rumo ao que houver do outro lado,
avesso da noite, luz que se oculta
e revela o azul purpura
da secreta beleza que chega nas dobras da noite
É então que me aconchego
e perscruto os sinais que sobem do centro
da vida que guardas na cadencia do teu peito
no sopro tranquilo.

E como um navio rasgando a calmaria
adormeço à tona dos teus olhos de água.

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A Casa do Silêncio

Sabes, na
luminosidade difusa
Do cair do dia
Nos interstícios de sombra e luz
Sobe-me ao peito o tremor
Que vem dos tempos
Sem memória
Em que o teu nome era o nome
que  eu sem saber
em mim trazia

Difusa a luz da memória
incide sobre a estreita nesga
e é por ela  que entram
os sinais onde te leio
e só  no silencio  entendo
o pretérito que não sei dizer

És
antes do tempo que atravesso
sei-o  nas entrelinhas do meu ser....
e é na  tua voz  que acordo
de um sono milenar.

Nela regresso  ao  espelho
Onde de novo te vejo
mas esse fundo do fundo
da palavra  não consentida.

De olhos fechados tacteio
como cego a luz perdida
e abro de par em par
um mui antigo portal
e a nave do silencio
que o tempo vence, atravessa-o

E nesse lugar sem nome
de todos os nomes guarida,
a voz do vento desvenda
o nome que desde sempre
no fundo do meu ser se abriga.

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Auscultação

Agora
paro mais vezes,
paro e perscruto o silencio…
escuto, sem saber bem o que oiço

Quem sabe se a voz do mundo,
como o correr silencioso de um rio,
a espraiar-se na foz de um poema,
palavra a palavra erguido
construindo um sentido.

E se paro, e oiço, sinto "isto"…
e isto que sinto, como dize-lo?
isto que arranco a um lugar em mim,
ou a um lugar longe que de mim se acerca,
como voz que com o vento chegasse
quando eu em silencio posta.

Talvez que do coração
"isso" não seja mais que o sussurro,
colhido naquele instante
em que a mente se ausenta
para lhe dar voz.

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Entre Margens

Acho-me,
desencontro-me
amaino se posso
os demónios
Aposso-me das espectrais
sombras que vagueiam
na antecâmara de mim
De sonhos e caminhos
é feito o mundo
o meu
o outro de que me aparto
de cacos e restos do velho

O novo teima
entre os escombros das implacáveis leis
do mais forte
da gravidade
da entropia
e da sua negação

E então?

Então o sonho é o que sobra
e o rasgo de alma por onde ele brota

E além - sonho
as cores, a luz, as palavras, o poema
as barreiras vencidas, a cabeça a prumo
a teimosia...acreditar ainda

E além de tudo o amor.. amar
amar-te
o que faz sentir-me
o que faz sentido

E o mar.....

o que sem ti
faz doer!
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Se tu soubesse

Ah
! se o brilho do meu olhar
poisado sobre o teu
falasse das horas, dos dias vividos
esgotando esperas ,desfiando interrogações
acalmando a custo as vagas do desejo.

Ah! Se tu soubesses……
como dói a demora enquanto escorrem
lentas as imagens que trago comigo
e sinto nessa ausência a insuperável presença
inscrita na espera que marcam meus dias.

Por isso não sei já o que é o longe
e se não estar só é só estar ao lado
ou antes estar por dentro do outro
e senti-lo em nós como gestação.

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Dobras da Memória

Prende-se
à alma
isto que não dizemos, que é só sentir
a fome de tudo ser a um só tempo
sem tempo Ter

Donde o longe que me chama
que lhe não sei as raízes?
difusa nas dobras da memória
a ponte de mim a mim
que não atravessei
intocável, fugidia cifra
de que fico aquém

Revisitados espaços onde fui e sou
teima o afã de me dizer,
que me devolve à incoincidência
de me saber outra
e a mesma ser.

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Comentários (1)

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claraluz1952
claraluz1952
2018-07-20

Doy especiales gracias a la gran artista y escritora Angela Santos por colorear este inconmensurable universo con sus majestuosas palabras. Sus poemas y escritos cristalizan la auténtica luz que ella trasporta en su espíritu. Un enorme abrazo y mi eterno cariño, desde Viena, Miriam M. Vargas