Escritas

Lista de Poemas

A Filha da Antiga Lei

Deus não me dá sossego. É meu aguilhão.
Morde meu calcanhar como serpente,
faz-se verbo, carne, caco de vidro,
pedra contra a qual sangra minha cabeça.
Eu não tenho descanso neste amor.
Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa.
Quero de novo o ventre de minha mãe,
sua mão espalmada contra o umbigo estufado,
me escondendo de Deus.
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Fraternidade

Um dia
um padre que fazia milagres
deu sua bênção pro povo:
mulheres de cabacinha de ouro na orelha,
homens de camisa cor-de-rosa,
menino de todo jeito e de terninho.
Galho de funcho, arruda, manjericão,
cheiravam junto com o povo apertado no pátio.
Tudo ótico, olfático, escatológico.
A paciência de Deus sentou de pernas cruzadas
na platibanda da igreja. Com uma mão pitava,
com a outra segurava o joelho,
piscando um código pra Murilo Mendes
que rolava de rir.
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Os Tiranos

Joaquim meu tio foi imperturbável ditador.
Só uma de minhas primas se atreveu a casar-se.
As outras ficaram pra lhe honrar a memória
com azedumes e pequenos delírios.
Produzem crochê e hilaridade contando-se anedotas,
virtude e paciência que desperdiçam
por equivocado orgulho, irado catolicismo.
Em bordados e haveres gastam a amargura recíproca:
o galinheiro é de Alvina,
o canteiro é de Rosa,
o guaraná é de Marta
na geladeira de Aurora.
Não pisaram na igreja no casamento da irmã.
Tia Zilá dá sinais de cansaço,
breve estará na Glória.
Não tendo a quem mais servir,
as primas vão brigar empunhando
rosários, agulhas, maçanetas.
Mas, se baterem à porta, servirão biscoitos
e a anedota do rato equilibrista, que solicito sempre:
‘Um dia papai estava dormindo no quartinho da sala,
acordou com um barulhinho tin-tin, tin-tin-tão...’
Me comovem as primas, os tios emoldurados na parede,
os ratos na batalha campal daquela casa
caçando pra roer os restos
do que, apesar de tudo, foi amor.
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Códigos

O perfume das bananas é escolar e pacífico.
Quando a mãe disse: filha, vovô morreu, pode falhar de
[aula,
eu achei morrer muito violoncelírico.
Abriam-se as pastas no começo da aula,
os lápis de ponta fresca recendiam.
O rapaz de espinhas me convocava aos abismos,
nem comia as goiabas,
desnorteada de palpitações.
Filho da puta se falava na minha casa,
desgraçado nunca, porque graça é de Deus.
No teatro ou no enterro,
o sexofone me põe atrás do moço,
porque as valsas convergem, os lençóis estendidos,
abril, anil, lavadeira no rio,
os domingos convergem.
O entre-parênteses estaca pra convergir com mais força:
no curso primário estudei entusiasmada o esqueleto
[humano da galinha.
Quero estar cheia de dor mas não quero a tristeza.
Por algum motivo fui parida incólume,
entre escorpiões e chuva.
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Atalho

Nós não somos capazes da verdade,
os antinaturais por natureza.
Sofremos e procuramos.
Daí os eremitérios, as siglas,
diversos estatutos e estandartes.
Acontece, de pura misericórdia, um descanso:
uma borboleta amarela pousa na nossa mão
e, pra nosso susto, permanece sem medo;
olhamos o céu e dizemos do nosso terreiro:
é pra lá que se vai, depois de tudo.
De puro orgulho eu queria ser pobre,
de visceral preguiça, pedra.
Contudo explico, desentendo, procuro incansavelmente
a ponta da meada de seda,
o fundo da agulha de prata
que borda a blusa de Deus
que está no trono sentado
com olhar compassivo e ardente coração.
Eu quero amor sem fim. Deus dá?
Eu quero comida quente. Deus dá?
Aprecio as dificuldades e respectivos auxílios,
me esperando lá fora a luz do dia,
quando eu sair da floresta aonde eu fui passear
com medo da boicininga e da cobra píton
e não fiz nada demais: só fiquei com o moço na grama,
nossos rostos muitos próximos,
transida.
Se tirasse as cobras do conto ia ficar perfeito.
Não tiro e sei bem por quê.
De Deus assim não tenho medo e gosto
mas se Ele disser:
‘vem pro Carmelo estudar Tomás de Aquino, Luzia
[rebelde’,
eu fico trêmula e pretensiosa
de fazer cada uma mais maravilhante
de me tirar o tempo para ser feliz.
Do meu jeito, não.
Pego o trilho no pasto e vou saudando:
‘Bom dia, compadre; bom dia, comadre,
seus patinho tão bons?’
Meus peitos duros de leite,
as ancas duras, rapaz.
Benzinho-de-espinho me pega, carrapicho,
a tarde doura.
Caçar ninho de galinha é bom,
é bom chá de amor-deixado.
Eta-vida-margarida que eu resolvo por álgebra.
Me dá um meu sono e eu vou dormir virada pra parede.
Onde tem um descascado eu ponho os olhos,
tem um mosquitinho tonto,
um cheiro de telha
e Deus resplandecendo em Sua glória.
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A Falta Que Ama

O meu saber da língua é um saber folclórico.
Muitos me arguirão deste pecado.
Não sei o que responder,
uma nuvem me tolda.
Me levanto com a alva,
encontro ameixas maduras no quintal,
uma ave nova que voa
sem fugir de mim.
Nunca fui em Belo Vale,
mas amo esta cidade
porque meu pai passou nela, em romaria,
e voltou falando ‘Belo Vale, porque Belo Vale’,
este som de leite e veludo.
Quis dizer nêspera e não disse.
Só por causa da música que não entendo
ninguém me apedrejará.
Não invejo os deuses, porque não existem.
Os gênios, sim, os que dizem:
eis a forma nova, fartai-vos.
Como és belo, amado! Belo e perecível!
Tudo é sonho e escândalo,
congênita ambiguidade.
Se pudesse entender: o Filho de Deus é homem.
Mais ainda: o Filho de Deus é verbo,
eu viraria estrela ou girassol.
O que só adora e não fala.
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Impropérios

Senhor, escutai meu estrondoso medo.
Tal é que nem minha boca se abre,
tanto me espantam os sanitários e seus vasos,
estes que só a flores
e a Vosso Precioso Sangue deveriam remeter-se.
No entanto, até línguas eu queria saber
pra expressar meu horror
nos mil modos que o horror tem.
Quando eu tinha quinze anos minha mãe morreu.
Foi o sofrimento mais lindo,
a verde vida um pasto tão bonito, eu belamente urrei,
bezerra sem sua mãe, apenas.
Hoje, a simples tosse sufoca, mais que a meu peito,
minha alma imortal, e mais feia eu fico que uma feia
[mulher.
Eu não tinha canais, ainda que porosa. Hoje tenho,
de bile, de televisão, por onde os micróbios
e minha própria imagem me excomungam.
Ó Deus anacrônico, vem em meu socorro, como vinhas,
da mais eterna forma: o menino quer ser feliz com seu
[arco.
Que bom é suar na tarde e gritar: mãe, cê tá aí, mãe?
A morte veio e vem, mas se devem alçar os caixões
e com passo de marcha carregá-los, chorando sim,
mas como quem leva espigas para o campo.
Me estende Senhor Tua mão de ferreiro
que segura trens e navios, puxa pelo nariz os aviões.
Que boa é a vida se não me abandonas.
Um violino muito ao longe chora,
silente e vagarosa chega a noite.
A hora, o açoite, que valem?
se Vos tenho a meu lado, ó meu Pastor.
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A Menina E a Fruta

Um dia, apanhando goiabas com a menina,
ela abaixou o galho e disse pro ar
— inconsciente de que me ensinava —
‘goiaba é uma fruta abençoada’.
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!
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O Lugar da Necrópole

Há quem tendo cantado e batido os dentes no copo
já morreu.
Há quem tendo falado suas dores secretas
está hoje selado sob lápides,
excrescendo sobre mim o seu fantasma
de pessoa verdadeira, rebelada,
de pessoa poética.
Na juventude me comprazia o fúnebre,
as faces lívidas dos poetas doentes.
Hoje, só preciso da vida pra morrer.
Nas metrópoles,
o campo-santo acaba confundido,
rodeado de bares.
E por causa disso iludem-se as pessoas
de ter nas mãos a indomesticável.
O cemitério quer ladeira e montes
para os quais se olha ao entardecer:
um dia estarei lá,
lá longe,
no incontestável lugar.
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A Face de Deus É Vespas

Queremos ser felizes.
Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
‘Graças a Deus, podia ser pior!’
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas.
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