Lista de Poemas
Branco
insistentes e fustigados,
batidos de halo e nimbo, uma legenda só: pungência pura.
O que sempre falam as palavras não dizem.
Sustidos no alto clima de claridade e pedras,
sol sobre tufos verdes e areia, vento desencadeado,
os fixos olhos dos que viram Deus avisam.
Misericordiosos e imóveis.
Estreito
os torrões estão leves,
ao menor toque se desmancham em pó.
Estrela de agosto,
baça.
Céu que se adensa,
vento.
Papéis no redemoinho levantados,
esta sede excessiva
e ciscos.
Um homem cava um fosso no quintal,
uma ideia má estremece as paredes.
Três Mulheres E Uma Quarta
são três mulheres piedosas
que amam passar as tardes no serviço do templo.
Arnalda, forte e bruta,
lava teto, piso e paredes,
lustra sacrário e átrio.
Alice é para as flores:
a espécie conforme o jarro
e o calendário litúrgico.
Armantilda é para adorar.
O Senhor ama igualmente as três,
mas simpatiza mais com Araceli.
À uma e meia da tarde elas vêm
com balde, rosário e rosas,
Araceli com seu nariz.
Ai que cheiro, ela diz:
poeira, flor murcha e incenso,
o sovaco de Deus.
Ai que cheiro, ela diz,
louvado seja!
Quando ela chega, desacomoda o pó
de entremeio-os-dedos das imagens,
os toquinhos de vela crepitam e morrem,
arroxeiam de vez as rosas de remédio na jarrinha.
Araceli cheira e cata,
feliz como um cachorro, e sai
com o lixo sagrado dela.
A Carne Simples
um apetite de desespero no meu corpo.
Uivo entre duas mós.
Uivo o quê?
A mão de Deus que me mói e me larga na treva.
Na boca de barro, barro.
Quando era jovem
pedia cruz e ladrões pra guarnecer meus flancos.
Deus era fora de mim.
Hoje peço ao homem deitado do meu lado:
me deixa encostar em você
pra ver se eu durmo.
Porfia
por causa da Vida Eterna.
Senão, pra que vincar o terno,
se todo fim é madeira carcomida,
ossos tão limpos que dispensam nojo?
Pela mesma razão,
os metafísicos armam seus solilóquios,
os governantes bons governam com justiça,
o meu decote é fundo.
O moço formoso,
meu desejo dele não morre,
está inscrito nas unhas,
cresce com sua raiz.
A mulher pode vinte orgasmos?
De tão tolo esmero não cuido.
Quero amor, o fino amor.
Só suporto sete dores.
Mais uma fico distraída, tocando meu violão.
Cemitério é campo-santo, por isso tanto me atrai,
depois de repugnar.
Nem que insistam, olha onde esteve seu pai:
uma lasca de tábua podre,
tiras de pano e poeira.
Transpôs, eu digo,
este silêncio é engano, é pura expectação,
é o que mesmo sem guizos é esperança.
Eu sei do enterro, do lapso, da autópsia,
conheço o afogado, o cepo, a assinatura falsa.
Mas por que achais que os pêndulos oscilam?
Depois do féretro, o relógio bate,
alguém faz café, todos bebem.
Quisera lamuriar-me, erguer meus braços tentada
a pecar contra o Santo Espírito.
Mas a vida não deixa. E o discurso
acaba cheio de alegria.
Graça
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado
[gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um príncipe. Eu passeio
[nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos
[e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.
Amor
e não ouso em tua presença
ou à tua simples lembrança
recusar-me ao esmero de permanecer contemplável.
Quisera olhar fixamente a tua cara,
como fazem comigo soldados e choferes de ônibus.
Mas não tenho coragem,
olho só tua mão,
a unha polida olho, olho, olho e é quanto basta
pra alimentar fogo, mel e veneno deste amor incansável
que tudo rói e banha e torna apetecível:
caieiras, desembocaduras de esgotos,
ideia de morte, gripe, vestido, sapatos,
aquela tarde de sábado,
esta que morre agora antes da mesa pacífica:
ovos cozidos, tomates,
fome dos ângulos duros de tua cara de estátua.
Recolho tamancos, flauta, molho de flores, resinas,
rispidez de teu lábio que suporto com dor
e mais retábulos, faca, tudo serve e é estilete,
lâmina encostada em teu peito. Fala.
Fala sem orgulho ou medo
que à força de pensar em mim sonhou comigo
e passou um dia esquisito,
o coração em sobressaltos à campainha da porta,
disposto à benignidade, ao ridículo, à doçura. Fala.
Nem é preciso que amor seja a palavra.
‘Penso em você’ — me diz e estancarei os féretros,
tão grande é minha paixão.
Lembrança de Maio
onde minhas pernas se juntam.
É tão bom existir!
Seivas, vergônteas, virgens,
tépidos músculos
que sob as roupas rebelam-se.
No topo do altar ornado
com flores de papel e cetim
aspiro, vertigem de altura e gozo,
a poeira nas rosas, o afrodisíaco,
incensado ar de velas.
Santa sobre os abismos,
à voz do padre abrasada
eu nada objeto,
lírica e poderosa.
Canga
Conspira contra a alegria nativa da minha alma
a lembrança de que existem leprosos
e um deles saudou o papa
com braços sem mão e dedos.
Não fui chamada ao palácio.
Sabiamente execrou-se:
ela frequenta o vaso sanitário,
aquela mulher confusa.
Tenho dois cestos de cartas com primorosos encômios:
‘...Teu coração bate como as asas de um pássaro em pleno
[voo.’
De que me vale esta ovação postal
que não pode entender meus suores noturnos
e tomará esta queixa, certamente,
como puro despeito?
Meu coração bate como as asas de uma galinha de ferro.
Escrever me subjuga e não entendo,
tal qual comer, defecar,
molhar-me de urina e lágrimas.
Ó anelo de comunhão estrangulado,
mistério que me abate e me corrói.
Minha alma canta em delícias.
Meu corpo sofre e dói.
O Ameno Fato Terrível
é um jardim ao meio-dia,
um jardim de rosas.
Cheirava-as como — descobri depois —
se cheiram os homens,
odoroso mistério.
Um jardim caipira, o da minha casa,
estrelas do norte, cravinas, uma flor rosada
que desabrochava em pencas e até hoje só vi
nos canteiros dos pobres.
E rosas, rosas, rosas, o modo de minha mãe virar rainha:
‘para mim a rosa é a primeira das flores’.
Quando Deus vier,
quem nunca se permitiu a consolação das flores
será tomado de uma ânsia de vômito;
porque o sinal será um perfume de rosas,
um perfume intensíssimo,
um odor tal que transtornará o tempo
e atrairá os demônios exsudando ira.
O que mais me lembra o Juízo
é um jardim ao meio-dia,
um jardim de rosas.
Comentários (0)
NoComments
Adélia Prado - 24/03/2014
Adélia Prado - a vida é mais tempo alegre do que triste
Roda Viva | Adélia Prado | 1994
Série 15 Minutos - Adélia Prado
Adélia Prado fala sobre sua obra, feminismo e o momento político do Brasil (2018)
ENSINAMENTO - Adélia Prado
"Reflexões Filosóficas sobre Poemas de Adélia Prado" LIVE com a Profª Lúcia Helena Galvão
Adélia Prado - XIX Encontro Comunitário de Saúde Mental #Shorts
Recuperação 2023 - Produção Textual 22/12/2023
Adélia Prado no Sempre Um Papo - 30 anos
Adélia Prado - SÉRIE "10 CITAÇÕES"
Adélia Prado no Sesc Vila Mariana - Sempre Um Papo 2014
Adélia Prado fala sobre fé e arte - Imagem da Palavra (2012) [Rede Minas Memória]
Exausto | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Romeu Zema pergunta se escritora Adélia Prado trabalha em rádio mineira
Adélia Prado no Sempre um Papo - 2008
Adélia Prado - O poder humanizador da poesia
ADELIA PRADO UMA MULHER DESDOBRAVEL 1
A MEMÓRIA AFETIVA - ADÉLIA PRADO (Poesia)
Não Quero Faca Nem Queijo Quero a Fome | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Leitura Obrigatória - Bagagem: Adélia Prado
Com Licença Poética | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
[Sobre o autor] Adélia Prado
Adélia Prado, a simplicidade de um estilo
ADELIA PRADO - Documentário
ADELIA PRADO - entrevista exclusiva
Assembleia de MG prepara desagravo à escritora Adélia Prado após gafe de governador
Casamento | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Resenha #104 Poesia reunida, de Adélia Prado | Com licença poética!
Adélia Prado - 2o. Fliaxará 2013
Dona Doida | Poema de Adélia Prado com narração de Mundo Dos Poemas
Camilla Rebouças | Momento | Adélia Prado
Adélia Prado pede oração pelo Brasil no #SempreUmPapo
BAGAGEM DE ADÉLIA PRADO
Adélia Prado (Com Licença Poética) - Projeto [Caixa de Espanto] de @TiagoZorg #literatura #leitura
Dona Doida - Adélia Prado
Palestra de Adélia Prado na SP Escola de Teatro
Entrevista com Adélia Prado - Jogo de Idéias
Análise do poema "Com licença poética" de Adélia Prado.
Simpósio Nacional da Família 2014 - "Testemunho de Adélia Prado"
Resumo do livro "Bagagem" de Adélia Prado.
Bagagem, Adélia Prado - Leitura Obrigatória UFRGS 2021
Bagagem (1976), de Adélia Prado. Prof. Marcelo Nunes.
Adélia Prado (Momento) - Projeto [Caixa de Espanto] de @TiagoZorg #literatura #poesia #leitura
Marília Gabriela lê "Com Licença Poética", de Adélia Prado
As Mortes Sucessivas - Adélia Prado | Poesia
"Bendito" por Adélia Prado
A memória eterniza o que realmente importa | Adélia Prado by Nélson Freire
Adélia Prado - Encontros Notáveis
Leitura de poemas por Adélia Prado - Jogo de Idéias
Português
English
Español