Adélia Prado

Adélia Prado

n. 1935 BR BR

Adélia Prado é uma poetisa brasileira contemporânea, conhecida pela sua poesia que entrelaça o cotidiano com o sagrado, o profano com o espiritual, e o trivial com o transcendente. A sua obra, marcada por uma linguagem direta, coloquial e por vezes inesperadamente lírica, reflete uma profunda reflexão sobre a condição feminina, a fé, o corpo, a morte e a busca por sentido numa realidade muitas vezes desprovida de transcendência. Prado oferece uma visão única da vida urbana e das relações humanas, onde a poesia emerge dos gestos mais simples e dos momentos mais corriqueiros, revelando a beleza e o mistério escondidos na experiência quotidiana.

n. 1935-12-13, Divinópolis

767 407 Visualizações

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
‘coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água
[quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
Ler poema completo

Poemas

439

Em Português

Aranha, cortiça, pérola
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.
1 178

Epigráfico

A anelante argila
põe brincos de diamante
porque ama a Beleza
e nisto é tenaz,
na fé de sobreviver à morte,
a que não existe.
Pois vêm da vida os mortos
falar à alma o que só ela escuta.
Contra o que se sente
toda filosofia é mesmo vã,
o livro é sagrado
quando o que apregoa
é revelado na carne
onde os joelhos vacilam
e os pelos crescem.
Ter medo é saber do inaudito,
ninguém até hoje explica
por que batem as pálpebras.
1 370

Aura

Em maio a tarde não arde
em maio a tarde não dura
em maio a tarde fulgura.
1 582

A Morte de D. Palma Outeiros Consolata

Ficou severo na morte o pobre corpo,
o rosto ancestralmente conhecido.
Olhei-a no caixão durante horas.
Depois da oração fúnebre,
da água benta aspergida,
depois do hino do mártir
cantado em sua memória,
vai suavizar-se o rosto, pensei,
a boca vai conformar-se
à alegria de quem sempre soube:
a vida é uma dor contínua, mas Deus é pai amoroso.
Em vão.
Chegou o filho de longe, o último,
a neta bastarda
por quem seus peitos velhos renasceram,
em vão.
D. Palma não abriu os olhos,
não ameaçou sorrir, os lábios colados.
Só uma pessoa falou: ‘Que semblante sereno!’
Mas não era verdade, eu não tive o sinal.
Um dia me ofereceu um livro,
o mais bonito e mais caro que
comprou em sua vida,
o livro cuja palavra
resgatou sua tristeza da astúcia de satanás.
Pois vou abri-lo ao acaso
pra que um novo mistério me conforte.
Eis, creia no que lhe digo, assim está:
“Cantemos um hino ao Senhor,
Cantemos um novo hino ao nosso Deus!”
1 186

Imagem E Semelhança

O gorila recolhido órfão
ao cativeiro urbano
ganha comida e afagos.
Mesmo assim,
bate a cabeça na jaula,
saudoso do que não viveu,
rumor de folhas, cheiros,
perigos na mata e a mãe.
Quero salvar o gorila
na sua língua de bicho.
Quando morre para onde vai sua alma,
a quem serve sua dor,
seu tristíssimo olhar de desgarrado?
Há meninos assim, mas são humanos,
parece um horror menor.
Atracado às grades o gorila me olha,
é proibido mas lhe dou bananas.
931

Jejum Quaresmal

O relógio bate, meu Deus,
como quem sabe o que faz.
Está com fome o relógio.
Eu também, querendo comer do prato
onde comem os santos
Vossa vontade esdrúxula e desumana,
eu que, só em tendo feijão e batatas,
me sinto no Vosso colo.
Fantasias de privação me atrasam a santidade,
pois a via que entendo é oferecer-Vos
à cruenta paixão minha colher de açúcar.
1 250

O Servo

E os pobres?
Até os ensandecidos quererão saber.
E se ninguém perguntar as pedras gritarão:
e os pobres? E os pobres?
Os negrinhos adolescentes
apanham do patrão em Montes Claros
e não ganham comida,
só más ordens e insultos.
Está escrito: “O zelo de Tua casa me devorará.”
Por quem zelo eu?
Ao fim por sensações nas quais descubro sempre:
existe um bem, existe. E tudo é bom,
é boa a paixão, a morte é boa, sim.
Achei engraçado quando o poeta tropeçou na pedra,
eu tropeço na lei de jugo suave: “Amai-vos.”
O que sei de ressurreição começa aqui,
em ruas que os homens fizeram e nelas passam
carregando sacolas, bolsinhas presas no cinto
onde guardam seus óculos.
Eu fico horas no sol. As comidas dos homens são poéticas,
tiradas dos três reinos da criação
e matam em mim duas formas de fome. Sou o mais pobre.
Com incompreensível alegria, como um fardo,
carrego a consciência de um dom
que põe negrinhos e pessoas pálidas
ornados e cintilantes.
Poesia sois Vós, ó Deus.
Eu busco Vos servir.
1 165

Teologal

Agora é definitivo:
uma rosa é mais que uma rosa.
Não há como deserdá-la
de seu destino arquetípico.
Poetas que vão nascer
passarão noites em claro
rendidos à forma prima:
a rosa é mística.
1 296

Maria

Aí está a rosa,
defendida de lógica e batismo,
a inquebrantável,
a Virgem!
1 244

Citações

1

Obras

8

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.