Cristina Miranda

Cristina Miranda

1962-01-03 Braga
33746
1
12


Alguns Poemas

Sentados num muro

Interrompo o desfiar do corpo
pelos chãos verdes,
testemunhos que são
de passeios leves.

Neles se estendem agora
folhas brancas,
nuvens,
colocadas ali
com todo o cuidado
por deuses,
nos seus interlúdios merecidos,
prenhes da resposta
à pergunta que um poeta faz,
tão mais absorto está que as divindades.

Deleito-me ante aquelas sombras,
a tua,
a deles...

Olho-as e já as vejo
tornadas corpos cintilantes
pingando do céu
como que esvoaçando pelas noites cerúleas.

[Pareço divagar,
parece que nada do que digo faz sentido,
mas espera...
Apodero-me do que pensas,
procuro responder,
imaginando que são para mim
as perguntas,
todas as que não fazes, que adivinho.
Espera então,
porque já sou eu que me questiono
que descaradamente inverto os papéis.

Deixa-me continuar este devaneio,
retomar o fio
por em ordem o que penso,
o que te quero dizer,
fazer sentir.]

Vão ser lavradas,
sulcadas por pensamentos,
aradas,
as nuvens.
Vão alagar-se de suspiros
que choverão dos teus dedos
entrelaçados ludicamente nos meus...
Tornar-se-ão regadios que nos encherão,
tornando-nos campo exuberante.

Mas mesmo assim,
continuarão brancas,
enquanto,
incólumes,
nascerão de nós dias róseos,
nascerão de nós mais histórias,
onde correremos descalços.
Silenciar-se-ão por fim,
aquietar-se-ão,
aconchegar-se-ão
até adormecerem,
deixando-se apenas deslizar
pela pergunta,
margem de um rio que não cruzamos
com medo de nos afastarmos
do quanto nos queremos.

Se olharmos bem,
estarão dois vultos que se passeiam
na outra margem.

Se olharmos bem,
cruzaram o rio,
o receio ficou ancorado do lado de lá.

Se olharmos bem,
conseguiremos, até, vislumbrar uma cidade,
espécie de lugar onde ficaram as espadas...

E já é um jardim aquela margem,
um canteiro de cravos e de rosas,
e,
mais ao fundo,
um muro de pedra...

[Alonguei-me, perdoa,
mas valeu a pena.]

Se olhares bem,
pousada no muro
está a resposta,
está um lugar onde já estou sentada,
onde também já estás
e um outro lugar bem no nosso meio,
um espaço que espera, ansioso,
pela frase guardada.

Enchamos então o silêncio,
Meu Amor,
porque é nosso, por direito, o momento.

Vamos ver como um canteiro
pleno de cravos e rosas
vai ficar então completo
com o que nos diremos:
Quem somos na nossa memória?
Duas margens que se encontraram
num rio.

Afinal,
foi sempre parte integrante de nós.

Aroma de beijo

"Beijo-te docemente"

Enquanto em ti me solto
De coração alado,
Qual pássaro,
Em voo planado,
Tranquilo como o teu beijo.

"Beijo-te docemente"

Volto a nascer,
Finda de mim, imensa de ti,
Plena do teu estio,
Das paisagens
Por onde vou esvoaçando,
Buscando a clareira
Nessa tez dourada
Que me lembra a praia
Ou um campo imenso
Que aguarda a ceifa.

"Beijo-te docemente"

E sou toda mulher,
Toda eu vida,
Toda eu em ti,
Toda eu sonho
"Numa noite que não tem braços" que me impeçam...

"Beijo-te docemente"

Imagino-te
Todo tu mãos
Como um sussurro que inebria.
Não as cales,
Que já espero por ti
Na era do sempre,
No tempo em que nos sabemos.
Jorrará o sonho pelos dedos,
Como um caudal,
Ousamos pensar,
Profético.

Neste entretanto em que te espero,
Entre o que pareço e o que vou ser,
Entro num arvoredo de perguntas.
Se me lembro de como fazemos amor,
Se me lembro de como falamos,
Com a linguagem só nossa,
Enquanto que por mim,
Pelo meu pensamento,
Os teus gestos escorrem...

"Beijo-te docemente..."

Já prendi um afago à asa do vento...
Já lhe disse que fosse,
Que te procurasse,
Pois que te saberia,
Quando visse um céu anilado...
Ele soube-te,
E envolvendo-te na carícia que eu lhe prendera na asa,
Trouxe-te,
Ao tempo em que dissipava aquele arvoredo,
Até me encontrar
Levando com ele as perguntas...

Sou eu que te digo agora
Que te vou beijar levemente,
Enquanto me abandono,
Para me perder toda, em ti.
A noite não será impedimento,
Pois que é de nós, companheira,
E que as mãos,
Cheias de Alma,
De cor,
Tão nuas,
Tão nossas,
Que tanto têm para falar,
Se vão perder em cada esquina de nós!

O alvorecer do dia assistirá,
Ainda matutino,
De como nos olvidámos que parecíamos,
De como chegámos à estação de sermos,
Quando nos dissemos,
Na linguagem que guardámos dentro da certeza:
"Beijemo-nos, Amor, docemente",
E partirá, então,
Leve,
Brando,
Na asa daquele vento...
-
joaoeuzebio
Desejo te de te ter agora neste poemas belissimos viajei feito um passaro neste poema lindo Parabéns um abraço
02/agosto/2020
-
Cristina, me deparei com seus poemas e fiquei em estado de extâse, você tem muita sensibilidade e talento. Pretento ler todos os seus poemas e poesias, desgustando-as pouco a pouco. Parabéns
16/junho/2017

Quem Gosta

Seguidores