Lista de Poemas

Dó Maior

Quando desceu à rua depois do encontro
o ar rodopiava de neve.
O inverno chegara
enquanto estiveram juntos.
A noite brilhava branca.
Caminhou leve de alegria.
A cidade inteira em declive.
Os sorrisos que passavam –
sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
Era de graça!
E todos os pontos de interrogação começavam a cantar o ser de Deus.

Foi isso que pensou.
Uma música surgiu
e a passos largos
caminhava num turbilhão de neve.
Tudo a caminho da nota dó.
Um trémulo compasso em direcção a dó.
Uma hora acima dos tormentos.
Era fácil!
Sorriam todos atrás de colarinhos vincados.
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Nocturno

Conduzo por uma aldeia à noite, casas que saltam
diante das luzes – acordaram agora, querem beber um copo.
Casas, celeiros, placas de indicação, caminhos sem ninguém
regressam à vida. Seres humanos dormem:

alguns podem dormir em paz, outros têm rostos tensos
como num treino duro para a eternidade.
Não ousam deixar-se ir mesmo em sono solto.
Como cancelas baixas esperam enquanto o mistério vai desfilando.

A estrada passa uma longa temporada fora da cidade pela
floresta.
Árvores, árvores silentes num pacto entre elas.
Têm uma cor melodramática, como um incêndio.
Como é nítida cada uma das folhas. Seguem-me no caminho para casa.

Deito-me por ali para dormir, vejo imagens desconhecidas
e sinais esboçando-se atrás das pálpebras
no muro da escuridão. Pela ranhura entre a vigília e o sono
uma enorme letra esforça-se por entrar sem grande sucesso.
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Memórias que me observam

Manhã de Junho, cedo de mais para acordar,
tarde de mais para adormecer.

Tenho de sair – é densa a folhagem das
memórias, perseguem-me com o seu olhar.

Não se deixam ver, misturam-se todas
com o fundo, verdadeiros camaleões.

Tão perto estão que as ouço respirarem
aqui onde o canto do pássaro ensurdece.
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Vermeer

Não é um mundo seguro. O ruído começa ali,
do outro lado da parede
onde está a estalagem
com risos e refregas, rixas de dentes, lágrimas,
o seu retinir de sinos
e o cunhado insano, o assassino, que faz com
que na sua presença todos sintam temor.

A grande explosão e o tropel do resgate que chega atrasado
os barcos exibindo-se nos canais, o dinheiro correndo
para o bolso do homem malvado
ultimatos atrás de ultimatos
flores encarnadas abertas ressoando premonições de guerra. 

E exactamente dali através da parede
para o estúdio de luz
e os segundos a quem autorizaram viver séculos.
Quadros com nomes próprios “A Lição de Música”
ou “Mulher de Azul Lendo uma Carta”.
Está grávida de oito meses, dois corações que batem dentro dela.
Na parede atrás vê-se um mapa enrugado da Terra Incognita.

Respira apenas. Um material azul que se desconhece está pregado às cadeiras.
Os rebites de ouro voaram com incrível rapidez
e pousaram ali abruptamente
como se não fossem outra coisa senão silêncio.

Os ouvidos zumbem, talvez do abismo talvez do cume.
É a pressão do outro lado da parede
A pressão que faz flutuar os factos
e firmar o pincel. 

Atravessar as paredes faz sofrer, faz adoecer
mas não temos outra escolha.
O mundo é um. Mas as paredes ….
As paredes são parte de ti –
Ou se sabe ou não se sabe embora seja assim para todos
excepto para as crianças. Para elas não há paredes.

O céu limpo tomou o seu lugar e encostou-se à parede.
É como uma prece ao vazio.
E o vazio volta o seu rosto para nós
E murmura
“Não sou vazio, sou aberto”.
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Pós-convalescença

O miúdo doente.
Fechado em si numa visão
com a língua dura como um chifre.

Senta-se de costas voltado para uma seara num quadro.
A ligadura à volta do queixo parece ser a de uma múmia.
Os óculos são grossos, de mergulhador. Não há resposta e nada
é repentino como um telefone que toca a meio da noite.

Mas ali o quadro. Uma paisagem que nos faz sentir
em paz mesmo se o trigo é uma tempestade de ouro.
Azul, terrível azul e nuvens em andamento. Debaixo nas ondas
amarelas
camisas brancas velejando: malhadores – não projectam sombras.

Na extremidade do campo um homem parece olhar nesta direcção.
Um chapéu largo esconde o seu rosto na sombra.
Parece olhar para a figura negra aqui na sala, como
se quisesse ajudar.
A pouco e pouco o quadro alarga-se, começa a abrir por detrás
do miúdo que está doente
e mergulhado em si. Lança faúlhas e faz ruído. Cada
espiga de trigo irradia luz para o despertar!
O outro homem – no trigo – faz um sinal.

Aproxima-se.
Ninguém se apercebe.
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VIAGEM NOCTURNA

Fervilha sob os nossos pés. Os comboios partem.
O hotel “ Astoria “estremece.
Um copo de água ao lado da cama
brilha nos Túneis.

Ele sonhou que estava preso em Salvbard.
O planeta girou com rancor.
Olhos brilhantes caminhavam sobre o gelo.
A beleza da ferida estava ali.
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Prelúdios

1
Recuo diante de uma coisa que se arrasta de lado pela
tempestade de neve.
Fragmento do que está para vir.
Uma parede esboroando-se. Uma coisa sem olhos. Rija.
Um rosto de dentes.
Uma parede solitária. Ou é uma casa que ali está
embora a não consiga ver?
O futuro … um exército de casas vazias
tacteando o caminho pela neve que cai. 

2
Duas verdades aproximam-se uma da outra. Uma vem de dentro,
outra de fora,
e onde se encontram é possível ter um indício
de nós.

O homem que vê o que está para acontecer grita desvairado
“Alto!
Seja o que for, desde que não tenha de me conhecer a mim mesmo.”

E há um barco que se quer amarrar à terra – insiste mesmo
aqui –
de facto insistirá ainda milhares de vezes.

Da escuridão dos bosques surge um longo arpão,
irrompe pela janela aberta
entre os convidados que aquecem dançando.

3
O apartamento onde vivi metade da minha vida tem de ficar vazio. Já não tem nada. A âncora tem
de subir – apesar do peso da tristeza, é o apartamento mais leve de toda a cidade. A verdade não
precisa de nenhuma mobília. A minha vida fechou agora um grande círculo e voltou ao ponto de
partida: uma sala vazia. Coisas que nela vivi tornam-se visíveis nas paredes iguais a pinturas
egípcias, murais duma câmara funerária. Imagens esbatendo-se devido a uma luz excessiva. As
janelas mais largas. O apartamento vazio é um grande telescópio apontado ao céu. É silencioso
como um ritual Quaker. Tudo o que podes escutar são as pombas nas traseiras, o arrulhar delas.
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Solidão

I
Aqui, estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro patinou no gelo, derrapou de lado e seguiu
na faixa contrária. Os carros aproximando-se –
os seus faróis – cada vez mais perto.

O meu nome, as minhas filhas, o meu emprego
desprenderam-se e ficaram para trás em silêncio
cada vez mais para trás. Eu estava anónimo,
como uma criança num pátio de colégio cercada de inimigos.

Era poderosa a luz do tráfego aproximando-se.
Iluminava-me à medida que girava e girava
o volante num medo transparente agitado como clara de ovo.
Os segundos dilatavam-se – ocupando mais espaço –
engrandeciam como edifícios de hospital. 

Podia-se quase ficar à vontade
e um tudo nada descontraído
antes do choque se dar.

Então surgiu terra firme: veio em socorro um grão de areia
ou uma rajada súbita de vento. O carro agarrou-se
derrapou, atravessou a estrada.
Elevou-se um poste e quebrou-se – um som vibrante
juntou-se à escuridão.

Até que chegou o silêncio. Sentado e seguro pelo cinto
vi alguém caminhar no turbilhão da neve
para ver o que restava de mim.

II
A caminhar durante horas
pelos campos gelados da Suécia
não consegui ver ninguém.

Noutras partes do mundo
pessoas nascem, vivem e morrem
em perpétua multidão.

Ser constantemente visível – viver
num enxame de olhos –
deixa marcas no rosto.
Sulcos revestidos de pó.

O murmúrio que sobe e desce
enquanto dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia. 

Tenho de estar a sós
dez minutos pela manhã
dez minutos pela tarde.
- Sem fazer nada.
Todos fazem fila à porta de todos.
Muitos.
Um.
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A viagem

Na estação subterrânea.
Uma multidão entre placares
num pasmo de luz morta.

O comboio parou e recolheu
rostos e portefólios

Depois a escuridão. Sentámo-nos
nas carruagens como estátuas,
arrastados pelas cavernas.
Restrição, sonhos, restrição.

Em estações abaixo do nível do mar
vendiam-se notícias da escuridão.
Pessoas movendo-se tristemente
silenciosas debaixo do mostrador dos relógios.

O comboio carregando
roupas e almas

Olhares em todas as direcções
na viagem pela montanha.
Nenhuma mudança.

Junto à superfície começa
um zunido de abelhas – liberdade.
Saímos da terra.

A terra por uma vez bateu
asas e ficou quieta debaixo
de nós, estirada e verde.

Espigas de milho esvoaçavam
por cima das plataformas.

Terminal – eu
prossegui mais além.

Comigo quantos estavam? Quatro,
cinco, não mais.

Casas, estradas, céus,
enseadas azuis, montanhas
abrindo as suas janelas.
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Acerca da História

Num dia de Março caminhei para escutar até à beira do lago.
O gelo era azul como o céu. E quebrava-se ao sol.
O sol sussurrava a um microfone debaixo do gelo.
Há um fervilhar e borbotar. De longe parece uma folha de papel
a ser amarrotada.
Tudo isto é como a História: o nosso presente. Descemos
nele, escutamos. 

II
Conferências são como ilhas instáveis e voadoras.
Epílogo: uma frágil ponte suspensa de compromissos.
O tráfego inteiro passa por cima daquela ponte debaixo de estrelas,
debaixo de faces de crianças ainda por nascer, pálidas,
abandonadas, sem nome como grãos de arroz.

III
Em 1926, Goethe visitou a África disfarçado de Gide e reparou
nisso.
Há rostos que se tornam mais nítidos pelo que vêem depois da morte.
Ao chegarem notícias diárias da Argélia pela rádio
vi uma casa enorme e todas as janelas da casa eram escuras
excepto uma. Era dessa mesma que o rosto de Dreyfus olhava.

IV
Radical e Reaccionário vivem juntos como num casamento
miserável,
diminuídos um pelo outro, encostados um ao outro.
Mas nós, os seus filhos, temos de encontrar o nosso caminho.
Cada problema exige a sua linguagem privada. 
Por qualquer vereda em que haja um traço de verdade, caminhem.

V
Num baldio não longe das leiras
há meses que está um jornal aberto cheio de notícias.
Envelhece devido ao dia e à noite, chuva e sol.
Está a ponto de se tornar uma planta, um repolho. Está
a unir-se à terra
como uma memória antiga que se transforma gradualmente em ti.
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