Thiago de Mello

Thiago de Mello

1926–2022 · viveu 95 anos BR BR

Thiago de Mello foi um poeta brasileiro de renome internacional, conhecido por sua obra profundamente ligada à Amazônia e às questões sociais e ambientais. Sua poesia se caracteriza pela musicalidade, pela força imagética e pelo engajamento político e existencial. Celebrado por sua vasta produção literária, que abrange poesia, prosa e tradução, ele se tornou uma voz importante na literatura contemporânea, tanto no Brasil quanto no exterior, recebendo diversas homenagens e prêmios ao longo de sua carreira.

n. 1926-03-30, Barreirinha · m. 2022-01-14, Manaus

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Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony


Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964

Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Amadeu Thiago de Mello Data e local de nascimento: 4 de junho de 1926, Barreirinhas, Maranhão Nacionalidade: Brasileira Língua de escrita: Portuguesa Contexto histórico em que viveu: Nasceu durante a República Velha, viveu a Era Vargas, a redemocratização após a ditadura militar e as transformações sociais e culturais do Brasil no século XX e início do XXI. Sua obra é marcada por um forte engajamento com as questões da Amazônia, da identidade brasileira e dos direitos humanos, refletindo os turbulentos períodos políticos e sociais pelos quais o país passou.

Infância e formação

Origem familiar e ambiente social: Vindo de uma família de classe média, filho de um farmacêutico e de uma dona de casa, Thiago de Mello passou a infância entre o Maranhão e o Pará, o que despertou seu profundo amor e conexão com a região amazônica. Educação formal e autodidatismo: Fez o curso secundário no Colégio Cearense e depois no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas sua paixão pela literatura o levou a seguir carreira literária. Influências iniciais: Foi influenciado por autores como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles, e pela cultura popular maranhense e amazônica. A poesia simbolista francesa também exerceu algum impacto em sua formação. Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu: Embora associado ao Modernismo brasileiro em sua fase mais madura, Thiago de Mello desenvolveu uma voz poética única, distante de rótulos rígidos, com forte sotaque regional e universal. Absorveu elementos da poesia social e da poesia de resistência. Eventos marcantes na juventude: A mudança para o Rio de Janeiro e o contato com o meio intelectual da época foram decisivos para o início de sua carreira literária.

Percurso literário

Início da escrita: Começou a escrever poesia ainda na adolescência, influenciado pelas leituras e pelo ambiente cultural do Rio de Janeiro. Publicou seus primeiros poemas em jornais e revistas literárias. Evolução ao longo do tempo: Sua obra evoluiu de uma poesia inicial mais lírica para uma poesia de profundo engajamento social e político, com uma marca identitária forte ligada à Amazônia. Seus poemas ganharam densidade temática e formal, abordando a exploração da natureza, a luta dos povos indígenas e a crítica ao colonialismo. Evolução cronológica da obra: Publicou seu primeiro livro, "O Ciclo do Pássaro Negro", em 1947. Seguiram-se obras como "Mãos do Povo" (1950), "Poesia" (1952), "A Terra Prometida" (1953), "Poemas Sacros" (1960), "Faz Escurecer o Coração" (1961), "Os Guerreiros" (1960), "Mementos" (1961), "B Bells" (1964), "Corpo Noturno" (1965), "Maranhão: Dramas e Cantos" (1965), "Os Pássaros da Noite" (1966), "Coração do Brasil" (1974), "Os Horrores da Guerra" (1976), "O Amazonas" (1977), "Tempo de Clarineta" (1984), "No Ponto de Partida" (1987), "Um Rio de Voo Inteiro" (1993), "Os Vários Cantos" (2000), "Poesia" (2005), "A Lenda do Uirapuru" (2008) e "Os Vários Cantos" (2009). Colaborações em revistas, jornais e antologias: Colaborou ativamente com diversas publicações literárias no Brasil e no exterior. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Foi tradutor de poetas como Pablo Neruda, e também atuou como editor e jornalista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais: "O Ciclo do Pássaro Negro" (1947), "A Terra Prometida" (1953), "Os Guerreiros" (1960), "Faz Escurecer o Coração" (1961), "Coração do Brasil" (1974), "O Amazonas" (1977), "Um Rio de Voo Inteiro" (1993). Temas dominantes: A Amazônia (sua natureza, seus povos, a exploração), a identidade brasileira, a liberdade, a resistência, a crítica social e política, o amor, a morte e a espiritualidade. Forma e estrutura: Utilizou tanto o verso livre quanto formas mais tradicionais, demonstrando grande flexibilidade formal. Sua poesia é marcada por um ritmo intenso e musicalidade. Recursos poéticos: Uso profuso de metáforas, comparações, personificações e imagens sensoriais, com forte apelo visual e auditivo. Tom e voz poética: O tom varia entre o lírico, o épico, o elegíaco e o engajado. A voz poética é frequentemente pessoal, mas transcende o individual para alcançar uma dimensão universal, falando em nome de povos oprimidos e da natureza ameaçada. Linguagem e estilo: Linguagem acessível, mas rica em imagens e simbolismos, com vocabulário que mescla o popular e o erudito. Seus poemas são densos em imagética e carregados de uma sonoridade peculiar. Inovações formais ou temáticas: Introduziu uma perspectiva amazônica na poesia brasileira, dando voz aos povos e à natureza da região. Sua obra é um marco na poesia de protesto e de valorização da cultura autóctone. Relação com a tradição e com a modernidade: Manteve um diálogo com a tradição literária brasileira, ao mesmo tempo em que abraçou as inovações formais e temáticas da modernidade, desenvolvendo um estilo singular. Movimentos literários associados: Embora não se encaixe estritamente em um único movimento, sua obra dialoga com o Modernismo e com a poesia social e de engajamento. Obras menos conhecidas ou inéditas: Possui uma vasta obra que inclui contos, crônicas e ensaios, além de traduções. Muitas de suas obras menos conhecidas também são de grande valor literário.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Relação com acontecimentos históricos: Sua obra reflete intensamente os períodos de ditadura militar no Brasil, a luta pela redemocratização, as questões ambientais emergentes e a exploração dos recursos naturais e humanos da Amazônia. Foi perseguido pela ditadura militar. Relação com outros escritores ou círculos literários: Manteve amizade e colaborou com importantes escritores brasileiros e latino-americanos, como Jorge Amado e Pablo Neruda. Geração ou movimento a que pertence: Embora sua obra tenha começado na geração que seguiu o Modernismo, ele se distingue por um estilo próprio e um engajamento que transcende classificações. Posição política ou filosófica: Defensor da justiça social, da liberdade e da preservação ambiental, posicionou-se claramente contra regimes autoritários e a exploração colonial e capitalista. Influência da sociedade e cultura na obra: A cultura amazônica, os mitos indígenas, as lutas sociais e a beleza natural da região são a matéria-prima de sua poesia. Diálogos e tensões com contemporâneos: Estabeleceu diálogos com a poesia social latino-americana e dialogou com poetas brasileiros de diferentes gerações. Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo: Foi amplamente reconhecido em vida, recebendo prêmios e homenagens, e seu legado continua a ser celebrado e estudado após sua morte.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra: Embora os detalhes sobre sua vida pessoal sejam menos divulgados, a conexão com sua terra natal, o Maranhão e a Amazônia, é um elemento central que moldou profundamente sua obra e sua visão de mundo. Amizades e rivalidades literárias: Manteve relações de amizade com muitos escritores importantes, como Jorge Amado, Pablo Neruda e Mario Quintana. Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos: Sofreu perseguição política durante a ditadura militar, o que o forçou ao exílio temporário. Profissões paralelas: Além de poeta, foi jornalista, editor e tradutor. Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas: Sua obra revela uma profunda espiritualidade, conectada à natureza e às cosmogonias indígenas, sem se prender a dogmas religiosos específicos. Admirava a sabedoria ancestral e a conexão sagrada com a terra. Posições políticas e envolvimento cívico: Foi um ativista convicto, usando sua poesia como ferramenta de denúncia e conscientização social e política.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lugar na literatura nacional e internacional: É considerado um dos maiores poetas brasileiros do século XX e um importante nome da literatura latino-americana. Sua obra é traduzida para diversos idiomas. Prémios, distinções e reconhecimento institucional: Recebeu inúmeros prêmios, como o Prêmio Jabuti e o Prêmio Camões, além de títulos honoríficos e comendas em vários países. Receção crítica em vida e ao longo do tempo: Sua poesia sempre foi elogiada pela crítica pela originalidade, força expressiva e relevância temática. A recepção crítica tem se mantido positiva e crescente. Popularidade vs reconhecimento académico: Goza tanto de grande popularidade entre leitores que se identificam com sua mensagem social e ambiental, quanto de um sólido reconhecimento no meio acadêmico, sendo objeto de estudos e teses.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Autores que o influenciaram: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Pablo Neruda, Jorge Amado, Walt Whitman, Walt Disney (em sentido de representação do universo infantil e da fantasia). Poetas e movimentos que influenciou: Influenciou gerações de poetas brasileiros e latino-americanos com sua poesia engajada, sua conexão com a natureza e sua forma de dar voz aos marginalizados e à Amazônia. Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas: Seu legado é marcado pela defesa intransigente da Amazônia, pela valorização da cultura brasileira e pela poesia que une lirismo, crítica social e universalidade. É uma referência para poetas que buscam conciliar a arte com o compromisso social e ambiental. Entrada no cânone literário: É figura consolidada no cânone da literatura brasileira e latino-americana. Traduções e difusão internacional: Sua obra foi traduzida para mais de 30 idiomas, garantindo ampla difusão internacional. Adaptações: Alguns de seus poemas foram musicados e serviram de inspiração para obras artísticas. Estudos académicos dedicados à obra: Sua obra é objeto de inúmeros estudos acadêmicos, teses e dissertações em universidades brasileiras e estrangeiras.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Leituras possíveis da obra: Pode ser lido como um canto épico à Amazônia, um grito de resistência contra a opressão e a destruição ambiental, uma reflexão sobre a identidade e a condição humana, e uma celebração da vida e da beleza. Temas filosóficos e existenciais: Aborda temas como a relação do homem com a natureza, a busca por liberdade e justiça, a finitude da vida e a importância da memória e da cultura. Controvérsias ou debates críticos: Poucas controvérsias significativas cercam sua obra, sendo majoritariamente aclamada por sua relevância e qualidade literária. A principal discussão gira em torno da sua inserção nos movimentos literários e da sua capacidade de transcender classificações.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade: Era conhecido por sua humildade, simplicidade e profundo respeito pela natureza e pelos seres humanos, especialmente os povos indígenas. Contradições entre vida e obra: Não há contradições significativas; sua vida e obra caminharam em uníssono, refletindo seus ideais e sua paixão pela Amazônia. Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor: Sua proximidade com os povos indígenas e sua defesa apaixonada pela Amazônia são traços marcantes de seu perfil. Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética: A Amazônia, em particular as paisagens do Maranhão e do Pará, e o contato com a natureza eram fontes primordiais de sua inspiração. Acreditava na poesia como um ato de resistência e cura. Hábitos de escrita: Dedicava-se à escrita com disciplina, mas também buscava inspiração na vivência e no contato com o mundo. Episódios curiosos: Durante seu exílio, viveu em diversos países, mas sempre manteve um forte elo com o Brasil e com a Amazônia. Manuscritos, diários ou correspondência: Sua correspondência e manuscritos são fontes valiosas para o estudo de sua obra e de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Circunstâncias da morte: Faleceu em decorrência de complicações de uma pneumonia. Publicações póstumas: Sua obra continua a ser publicada e reeditada, mantendo viva sua memória e seu legado literário.

Poemas

15

Breve Será Dezembro

Somos homens e sabemos
que breve será dezembro
no tempo de nossa carne.
Se habitaremos um tempo
de limites impossíveis,
somos homens, não sabemos.

E a despeito do cansaço.
quase nada percorremos
da estrada que nos tocou.

De nosso tivemos pouco:
tivemos crenças legadas,
herdamos o sangue antigo
e sobretudo o desejo.

Prolongamos o roteiro
que a mão primeira traçou.
Nosso corpo limitado
serviu de atalho à infinita
substância do pecado.

De tudo, apenas foi nosso
o débil gesto esboçado
que se extinguiu muito aquém
da fronteira.

Contudo, algo esperamos.


Publicado no livro Silêncio e Palavra (1951).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
5 276

Notícia da Manhã

Para Milu e Ângelo


Eu sei que todos a viram
e jamais a esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormindo.
E aos dormidos — e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la;
aos moribundos nos catres
e aos cegos de coração —
a todos que não a viram
contarei desta manhã
— manhã é céu derramado
é cristal de claridão —
que reinou, de leste a oeste,
de morro a mar — na cidade.

Pois dentro desta manhã
vou caminhando. E me vou
tão feliz como a criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo menino
(ele conhece caminhos
e mundos, melhor do que eu).

(...)

Por verdadeira, a manhã
vai chamando outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e às vezes tarde despontam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens, das coisas:
na roupa estendida à corda,
nos navios chegando,
na torre das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa, tão bonitos!

(...)

A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade
Não: a manhã se deu ao povo.

A manhã é geral.

As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta,
o barulho do bonde,
os passarinhos namorando
— ah! pois todas essas coisas
que minha ternura encontra
num pedacinho de rua,
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
à mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança
mais além uma coragem,
e além, aqui e ali
pelo campo e pela serra,
aos mendigos e aos sovinas,
aos marinheiros, aos tímidos,
aos desgraçados, aos prósperos,
aos solitários, aos mansos,
às velhas virgens, às puras
e às doidivanas também,
a manhã vai derramando
uma alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.
E de repente a manhã
— manhã é céu derramado,
é claridão, claridão —
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão.

9 de julho de 1954
S. Sebastião do Rio de Janeiro

Imagem - 00850001


Poema integrante da série O Andarilho e a Manhã, 1953/1955.

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984
7 642

Narciso Cego

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distiguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador.


Publicado no livro Narciso Cego; Seguido do Romance do Primogênito (1952).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
8 663

Poema de Quarto Centenário

Para Astrojildo Pereira


Olho longamente num jornal
que serve de correio da manhã
a fotografia do escritor
num cárcere do Rio de Janeiro.
De tanta doçura,
parece a foto de um adolescente.
Recordo que muitas vezes lhe vi
brincar no olhar um alegre passarinho,
um arabesco de amor no azul aberto,
o terno gosto da alegria humana.

Mas já está com 74 anos o escritor,
o escritor preso.
Está preso porque provou
do mundo que lhe coube,
e achou o mundo amargo
e um tanto podre.

Continuo olhando no jornal
a fotografia do grande machadiano
sentado altivo no catre,
o seu perfil sereno
e malferido
na dor da biblioteca devassada,
o olhar cravado límpido na vida
consumida na construção do amor,
esse poder imenso de canção
de amanhecer na boca anoitecida.

Queima demais a brasa desta foto:
brasa de incêndios, frágua da manhã.
É preciso fazer alguma coisa,
varar no escuro um rumo de meninos,
inventar um navio de amapolas.
aprender outra vez a soletrar,
abrir os alicerces do arco-íris,
é preciso fazer alguma coisa
para lavar a vida degradada.

(...)

Santiago do Chile, noite de ano novo, 1965


Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
5 703

Solilóquio ao Pé do Berço

Cruzaste
a porta do tempo.
Sem resplendores (chegaste)
de sol ferindo o levante,
fulges-me aos olhos — cristal
entre sonho e a relembrança
do que não sou, do que fui.

(...)

Perante a paz de teu sono.
dentro de mim se desfralda
um jeito novo de amar.
Meus vícios e desvirtudes
cabisbaixos se recolhem
ao mais secreto de mim,
para depois regressarem
humildemente velados
sob as roupagens do amor,
como flores falecidas
que por milagre recobram
suas pétalas mais brancas.

(...)

Teu pranto, de claro timbre,
com suavidades de canto,
leva-me à lágrima, arranca
de céu estéril, orvalho
que, de tão puro, dissolve
os seixos de antigas penas:
de sobre a magoada areia
que entre pesares palmilho,
teu suave pranto me leva
a ignotos ermos caminhos
onde, foscos, se derramam
palores de nove luas.

Em troca, nada te dou.
Meu filho, és retardatário:
o que talvez fora puro
— límpida pérola intacta
no coração escondida —
era frágil, se quebrou.
A porção a mim legada
de substância que permite
mudar de pouso as montanhas,
ouvir o canto das pedras
e caminhar sobre as águas,
era pouca, se acabou.

Pelas esquinas do mundo,
os mistérios já te espreitam
com suas múltiplas faces:
as sombras da solidão
já se insinuam, de manso,
rumo aos campos de teu ser.
Ah que pobre amor paterno!
Pobre de mim, andarilho
cego e sujo, desprovido
dos mais frágeis artifícios
que te afastem dos tormentos
a que nasce condenado
um homem — ser cuja glória
se resume nos covardes
passeios pela floresta
enquanto o Lobo não vem.

Sem mão que possa guiar-te
(mal-aventurada mão!)
em futuros desamparos,
sem boca que te anuncie
o tempo dos malefícios,
uma ventura me resta:
és meu filho — dou-te a bênção.

(...)

E porque nada possuo
digno de oferta a quem chega
de mãos vazias ao mundo,
é que te fiz, sob disfarce
de conversa, este inaudível
solilóquio ao pé do berço.

Imagem - 00850001


Poema integrante da série Romance do Primogênito, 1952.

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984
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Comentários (1)

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Muito claro e futurista... como decreto final...que a palavra do homem "liberdade" estará sempre em seus imensos e bondosos corações. fantástico.