Thiago de Mello

Thiago de Mello

1926–2022 · viveu 95 anos BR BR

Thiago de Mello foi um poeta brasileiro de renome internacional, conhecido por sua obra profundamente ligada à Amazônia e às questões sociais e ambientais. Sua poesia se caracteriza pela musicalidade, pela força imagética e pelo engajamento político e existencial. Celebrado por sua vasta produção literária, que abrange poesia, prosa e tradução, ele se tornou uma voz importante na literatura contemporânea, tanto no Brasil quanto no exterior, recebendo diversas homenagens e prêmios ao longo de sua carreira.

n. 1926-03-30, Barreirinha · m. 2022-01-14, Manaus

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Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony


Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964

Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Amadeu Thiago de Mello Data e local de nascimento: 4 de junho de 1926, Barreirinhas, Maranhão Nacionalidade: Brasileira Língua de escrita: Portuguesa Contexto histórico em que viveu: Nasceu durante a República Velha, viveu a Era Vargas, a redemocratização após a ditadura militar e as transformações sociais e culturais do Brasil no século XX e início do XXI. Sua obra é marcada por um forte engajamento com as questões da Amazônia, da identidade brasileira e dos direitos humanos, refletindo os turbulentos períodos políticos e sociais pelos quais o país passou.

Infância e formação

Origem familiar e ambiente social: Vindo de uma família de classe média, filho de um farmacêutico e de uma dona de casa, Thiago de Mello passou a infância entre o Maranhão e o Pará, o que despertou seu profundo amor e conexão com a região amazônica. Educação formal e autodidatismo: Fez o curso secundário no Colégio Cearense e depois no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas sua paixão pela literatura o levou a seguir carreira literária. Influências iniciais: Foi influenciado por autores como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles, e pela cultura popular maranhense e amazônica. A poesia simbolista francesa também exerceu algum impacto em sua formação. Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu: Embora associado ao Modernismo brasileiro em sua fase mais madura, Thiago de Mello desenvolveu uma voz poética única, distante de rótulos rígidos, com forte sotaque regional e universal. Absorveu elementos da poesia social e da poesia de resistência. Eventos marcantes na juventude: A mudança para o Rio de Janeiro e o contato com o meio intelectual da época foram decisivos para o início de sua carreira literária.

Percurso literário

Início da escrita: Começou a escrever poesia ainda na adolescência, influenciado pelas leituras e pelo ambiente cultural do Rio de Janeiro. Publicou seus primeiros poemas em jornais e revistas literárias. Evolução ao longo do tempo: Sua obra evoluiu de uma poesia inicial mais lírica para uma poesia de profundo engajamento social e político, com uma marca identitária forte ligada à Amazônia. Seus poemas ganharam densidade temática e formal, abordando a exploração da natureza, a luta dos povos indígenas e a crítica ao colonialismo. Evolução cronológica da obra: Publicou seu primeiro livro, "O Ciclo do Pássaro Negro", em 1947. Seguiram-se obras como "Mãos do Povo" (1950), "Poesia" (1952), "A Terra Prometida" (1953), "Poemas Sacros" (1960), "Faz Escurecer o Coração" (1961), "Os Guerreiros" (1960), "Mementos" (1961), "B Bells" (1964), "Corpo Noturno" (1965), "Maranhão: Dramas e Cantos" (1965), "Os Pássaros da Noite" (1966), "Coração do Brasil" (1974), "Os Horrores da Guerra" (1976), "O Amazonas" (1977), "Tempo de Clarineta" (1984), "No Ponto de Partida" (1987), "Um Rio de Voo Inteiro" (1993), "Os Vários Cantos" (2000), "Poesia" (2005), "A Lenda do Uirapuru" (2008) e "Os Vários Cantos" (2009). Colaborações em revistas, jornais e antologias: Colaborou ativamente com diversas publicações literárias no Brasil e no exterior. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Foi tradutor de poetas como Pablo Neruda, e também atuou como editor e jornalista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais: "O Ciclo do Pássaro Negro" (1947), "A Terra Prometida" (1953), "Os Guerreiros" (1960), "Faz Escurecer o Coração" (1961), "Coração do Brasil" (1974), "O Amazonas" (1977), "Um Rio de Voo Inteiro" (1993). Temas dominantes: A Amazônia (sua natureza, seus povos, a exploração), a identidade brasileira, a liberdade, a resistência, a crítica social e política, o amor, a morte e a espiritualidade. Forma e estrutura: Utilizou tanto o verso livre quanto formas mais tradicionais, demonstrando grande flexibilidade formal. Sua poesia é marcada por um ritmo intenso e musicalidade. Recursos poéticos: Uso profuso de metáforas, comparações, personificações e imagens sensoriais, com forte apelo visual e auditivo. Tom e voz poética: O tom varia entre o lírico, o épico, o elegíaco e o engajado. A voz poética é frequentemente pessoal, mas transcende o individual para alcançar uma dimensão universal, falando em nome de povos oprimidos e da natureza ameaçada. Linguagem e estilo: Linguagem acessível, mas rica em imagens e simbolismos, com vocabulário que mescla o popular e o erudito. Seus poemas são densos em imagética e carregados de uma sonoridade peculiar. Inovações formais ou temáticas: Introduziu uma perspectiva amazônica na poesia brasileira, dando voz aos povos e à natureza da região. Sua obra é um marco na poesia de protesto e de valorização da cultura autóctone. Relação com a tradição e com a modernidade: Manteve um diálogo com a tradição literária brasileira, ao mesmo tempo em que abraçou as inovações formais e temáticas da modernidade, desenvolvendo um estilo singular. Movimentos literários associados: Embora não se encaixe estritamente em um único movimento, sua obra dialoga com o Modernismo e com a poesia social e de engajamento. Obras menos conhecidas ou inéditas: Possui uma vasta obra que inclui contos, crônicas e ensaios, além de traduções. Muitas de suas obras menos conhecidas também são de grande valor literário.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Relação com acontecimentos históricos: Sua obra reflete intensamente os períodos de ditadura militar no Brasil, a luta pela redemocratização, as questões ambientais emergentes e a exploração dos recursos naturais e humanos da Amazônia. Foi perseguido pela ditadura militar. Relação com outros escritores ou círculos literários: Manteve amizade e colaborou com importantes escritores brasileiros e latino-americanos, como Jorge Amado e Pablo Neruda. Geração ou movimento a que pertence: Embora sua obra tenha começado na geração que seguiu o Modernismo, ele se distingue por um estilo próprio e um engajamento que transcende classificações. Posição política ou filosófica: Defensor da justiça social, da liberdade e da preservação ambiental, posicionou-se claramente contra regimes autoritários e a exploração colonial e capitalista. Influência da sociedade e cultura na obra: A cultura amazônica, os mitos indígenas, as lutas sociais e a beleza natural da região são a matéria-prima de sua poesia. Diálogos e tensões com contemporâneos: Estabeleceu diálogos com a poesia social latino-americana e dialogou com poetas brasileiros de diferentes gerações. Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo: Foi amplamente reconhecido em vida, recebendo prêmios e homenagens, e seu legado continua a ser celebrado e estudado após sua morte.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra: Embora os detalhes sobre sua vida pessoal sejam menos divulgados, a conexão com sua terra natal, o Maranhão e a Amazônia, é um elemento central que moldou profundamente sua obra e sua visão de mundo. Amizades e rivalidades literárias: Manteve relações de amizade com muitos escritores importantes, como Jorge Amado, Pablo Neruda e Mario Quintana. Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos: Sofreu perseguição política durante a ditadura militar, o que o forçou ao exílio temporário. Profissões paralelas: Além de poeta, foi jornalista, editor e tradutor. Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas: Sua obra revela uma profunda espiritualidade, conectada à natureza e às cosmogonias indígenas, sem se prender a dogmas religiosos específicos. Admirava a sabedoria ancestral e a conexão sagrada com a terra. Posições políticas e envolvimento cívico: Foi um ativista convicto, usando sua poesia como ferramenta de denúncia e conscientização social e política.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lugar na literatura nacional e internacional: É considerado um dos maiores poetas brasileiros do século XX e um importante nome da literatura latino-americana. Sua obra é traduzida para diversos idiomas. Prémios, distinções e reconhecimento institucional: Recebeu inúmeros prêmios, como o Prêmio Jabuti e o Prêmio Camões, além de títulos honoríficos e comendas em vários países. Receção crítica em vida e ao longo do tempo: Sua poesia sempre foi elogiada pela crítica pela originalidade, força expressiva e relevância temática. A recepção crítica tem se mantido positiva e crescente. Popularidade vs reconhecimento académico: Goza tanto de grande popularidade entre leitores que se identificam com sua mensagem social e ambiental, quanto de um sólido reconhecimento no meio acadêmico, sendo objeto de estudos e teses.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Autores que o influenciaram: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Pablo Neruda, Jorge Amado, Walt Whitman, Walt Disney (em sentido de representação do universo infantil e da fantasia). Poetas e movimentos que influenciou: Influenciou gerações de poetas brasileiros e latino-americanos com sua poesia engajada, sua conexão com a natureza e sua forma de dar voz aos marginalizados e à Amazônia. Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas: Seu legado é marcado pela defesa intransigente da Amazônia, pela valorização da cultura brasileira e pela poesia que une lirismo, crítica social e universalidade. É uma referência para poetas que buscam conciliar a arte com o compromisso social e ambiental. Entrada no cânone literário: É figura consolidada no cânone da literatura brasileira e latino-americana. Traduções e difusão internacional: Sua obra foi traduzida para mais de 30 idiomas, garantindo ampla difusão internacional. Adaptações: Alguns de seus poemas foram musicados e serviram de inspiração para obras artísticas. Estudos académicos dedicados à obra: Sua obra é objeto de inúmeros estudos acadêmicos, teses e dissertações em universidades brasileiras e estrangeiras.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Leituras possíveis da obra: Pode ser lido como um canto épico à Amazônia, um grito de resistência contra a opressão e a destruição ambiental, uma reflexão sobre a identidade e a condição humana, e uma celebração da vida e da beleza. Temas filosóficos e existenciais: Aborda temas como a relação do homem com a natureza, a busca por liberdade e justiça, a finitude da vida e a importância da memória e da cultura. Controvérsias ou debates críticos: Poucas controvérsias significativas cercam sua obra, sendo majoritariamente aclamada por sua relevância e qualidade literária. A principal discussão gira em torno da sua inserção nos movimentos literários e da sua capacidade de transcender classificações.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade: Era conhecido por sua humildade, simplicidade e profundo respeito pela natureza e pelos seres humanos, especialmente os povos indígenas. Contradições entre vida e obra: Não há contradições significativas; sua vida e obra caminharam em uníssono, refletindo seus ideais e sua paixão pela Amazônia. Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor: Sua proximidade com os povos indígenas e sua defesa apaixonada pela Amazônia são traços marcantes de seu perfil. Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética: A Amazônia, em particular as paisagens do Maranhão e do Pará, e o contato com a natureza eram fontes primordiais de sua inspiração. Acreditava na poesia como um ato de resistência e cura. Hábitos de escrita: Dedicava-se à escrita com disciplina, mas também buscava inspiração na vivência e no contato com o mundo. Episódios curiosos: Durante seu exílio, viveu em diversos países, mas sempre manteve um forte elo com o Brasil e com a Amazônia. Manuscritos, diários ou correspondência: Sua correspondência e manuscritos são fontes valiosas para o estudo de sua obra e de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Circunstâncias da morte: Faleceu em decorrência de complicações de uma pneumonia. Publicações póstumas: Sua obra continua a ser publicada e reeditada, mantendo viva sua memória e seu legado literário.

Poemas

15

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony


Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964

Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
129 639

Já Faz Tempo que Escolhi

A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre cegueira e traição.
Mas entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
já faz tempo que escolhi.

Rio de Janeiro, 1981


Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
14 734

Canção do Amor Armado

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor
é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história vem, que vai ficar.
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,
onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, e universal
como o pássaro voando — sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
deixou de ser dever e de ser cívico,
deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma — de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede,
e não sucedeu nada, porém nada?

De repente não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.
Só porque não tem mais voto,
o povo não é por isso
que vai deixar de cantar,
nem vai deixar de ser povo.

Pode ter perdido o voto,
que era sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre sua arma,
sempre ao alcance da mão.

De canto e de paz é o povo,
quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
Agora sim que é sagrado:
cada qual tenha sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo — um simples canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar.

Rio, 6 de fevereiro, 1966

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Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto. A Canção do Amor Armado (1966).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
12 356

Os Astros Íntimos

Consulto a luz dos meus astros,
cada qual de cada vez.
Primeiro olho o do meu peito:
um sol turvo é o meu defeito.

A minha amada adormece
desgostosa do que sou:
a estrela da minha fronte
de descuidos se apagou.

Ela sonha mal do rumo
que minha galáxia tomou.
Não sabe que uma esmeralda
se esconde na dor que dou.

A cara consigo ver,
sem tremor e sem temor,
da treva engolindo a flor.
Percorre a mata um espanto.

A constelação que outrora
ardente cruzava o campo
da vida, hoje mal demora
no fulgor de um pirilampo.
Mas vale ver que perdura
serena em seu resplendor,
mesmo de luz esgarçada,
a nebulosa do amor.
5 108

Faz Mormaço na Floresta

Não quero
que me cedas,
por dar amor.
nem me concedas nada
de teu, por dar amor.

De dá diva, já basta
tu inteira na luz que do teu corpo nasce

Quero só que tu queiras,
de coração cantando,
vir comigo acender
toda a paz das estrelas
que abraçados inventam
o teu corpo e o meu.

A cuia morna do ventre
da cunhatã estendida
tomo nas mãos e sorvo
sem sofreguidão a luz
que líquida se derrama
entre as vertentes da coxas.

Firme a forquilha das ancas
a coluna se recurva:
faz mormaço na floresta.

Um suor escorre da nuca
porejada de hortelã
e o chão se encharca de festa.

Calor molhado de seta
nos envolve sobre a areia
Crescem cantos na floresta
quando as asas quentes pousas
de tua boca em meu peito:
estirado me floresço.

Fogo ondulado, teu dorso
que me lentamente desce,
enquanto árvore cresço

Sombra ardente que me guia
tua cabeleira baila
na esparramada alegria

É quando mordo a luz
do teu peito que tenho
o que perdi sem ter.

Quando me vi foi quando
antes de te ver, abriste
o sol dos teus cabelos

nenhum espelho nunca
(nem o secreto lago)
em que o medo me espio)
me desvelou, relâmpago
quanto o tremor alçado
de teus joelhos chamando.

Nunca sei como sou
(sei só que sou contente)
quando contigo vou.

Amor me ensina a ser
a verdade que invento
para te merecer.

Só chegas quando estou:
as estrelas me trazes
para o céu que te dou.

Na glória de saber
que inteiro me recebes
desaprendo o que é ter.
8 634

Rumo

A Geir Campos


Somente sou quando em verso.

Minhas faces mais diversas
são labirintos antigos
que me confundem e perdem

Meu pensamento perfura
muros de nada, à procura
do que não fui nem serei.

Ante a carne fêmea e branca
meu corpo se recompõe
ofertando o que não sou.

Meu caminhar e meus gestos
mal e apenas anunciam
minha ainda permanência.

Para chegar até onde
não me presumo, mas sou.
sigo em forma de palavra.


Publicado no livro Silêncio e Palavra (1951).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
7 566

Sugestão

Não cegues
o fio da tua lâmina
contra a pedra em que o tempo transformou
a flor antiga que inventei cantando
quando sequer chegada eras ao mundo.
Nem cultives o cardo do infortúnio
em veredas por onde eu caminhava
antes da tua mão na minha vida.
Não podes apagar o que já é cinza
nem afogar o que a água já levou.
Alguma sombra azul do que passou
vive no amor que nos abraça agora.
Não desperdices teu poder de luz.
Prepara, cada noite, a tua aurora.

5 969

Iniciação do Prisioneiro

(Poema escrito a 21 de novembro de
1965, numa cela do Quartel da Polícia
do Exército, no Rio de Janeiro, ao qual
o autor foi recolhido por haver participado
de uma manifestação contra a ditadura,
em frente ao Hotel Glória, no
instante mesmo em que ali chegava o
ditador para inaugurar a Conferência
da OEA. Desse protesto participaram,
entre outros, os companheiros Antônio
Callado, Jayme de Azevedo Rodrigues,
Carlos Heitor Cony, Márcio Moreira
Alves, Flávio Rangel, Glauber Rocha,
Joaquim Pedro de Andrade e Mário
Carneiro, todos eles presos — e aos
quais é dedicado este poema.)


É preciso que Amor seja a primeira
palavra a ser gravada nesta cela.
Para servir-me agora e companheira
seja amanhã de quem precise dela.

Não sei o que vai vir, mas se desprende
dessa palavra tanta claridão,
que com poder de povo me defende
e me mantém erguido o coração.

No muro sujo, Amor é uma alegria
que ninguém sabe, livre e luminosa
como as lanças de sol da rebeldia,
que é amor, é brasa e de repente é rosa.


Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto. A Canção do Amor Armado (1966).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
5 577

Lição de Escuridão

Caboclo companheiro meu de várzea,
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.

Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.

Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.

Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.

De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.

Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.

Barreirinha, 1981


Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
6 334

39 Anos de um Cidadão Brasileiro

(...)

Dia 31 de março,
confiro meus documentos.
Cidadão brasileiro,
legítimo: sei que a lei
mudou, mas não mudou tanto.
Alguma coisa ainda vale
no chão amado da infância,
chão com cheiro de marirana
e flor de cajueiro,
chão por onde hoje campeia,
solta e grossa,
a botina rombuda.

Está na certidão:
natural do Amazonas,
barrancos do Bom Socorro.

(...)

Pois brasileiro, caboclo,
39 anos. Feitos ontem.
É. Mas não chegou ninguém,
remando de canoa. Ninguém veio
pelas águas dos remansos,
— curimatãs, tucumãs —
ninguém chegou lá de longe
varando a noite do vento
para amanhecer na festa
do meu dia aniversário.

(...)

Pois brasileiro casado,
e pai de dois filhos homens.
O menor ficou tão longe,
nem sabe o lugar que tem
no fundo azul do meu peito.
o outro vem vindo comigo:
é o bem maior de uma vida
que se acabou já faz tempo,
nem parece que passou.
Com este menino conto,
todos podemos contar.

(...)

Folha corrida não há.
A de serviços é pouca,
nem sei se vale. O que vale
é este papel esquecido,
todo comido de tempo,
que só me acende desgostos
e durezas dos meus dias
de serviço militar.
Provo que sou reservista,
dei muito tiro no muro,
desmontei muito fuzil,
decorei o regulamento,
bom mesmo era rastejar
no cheiro fresco da lama.
Fiz meias-voltas, volver,
fiz tudo para entender
a alma daquele tenente:
estava sempre engomado,
limitava-se ao comando,
nunca nenhuma palavra
de gratuita convivência.
Às vezes vinha a cavalo,
solene e só, silencioso
na altura do seu desprezo.
Foi o ser mais solitário,
o mais feroz que eu já vi.

(...)

De eleitor, além do título
— que de repente se ameaça
de nenhuma serventia —
guardo a alegria de sempre
ter escolhido sozinho,
mas guardo a pena de nunca
ter dado o amor do meu voto
a um homem do povo e ao povo
num homem: assim como Arraes.

A profissão é a de poeta
ou de empinador de papagaios
o que vem a dar no mesmo.

(...)

Deixando o ser livre limpo,
chegaram os cantos que eu amo.
De todos os que mais valem,
são os poemas sobre a rosa
na parede da prisão,
é a canção da rebeldia
dos fonemas da alegria,
é o canto companheiro
chegando do ao coração,
é a toada pro menino
que vai levando o pendão.

Por isso estou aqui com a minha vida,
na cordilheira longe do meu povo,
do qual jamais tão perto estive tanto.

Cidadão brasileiro,
natural do Amazonas,
39 anos, casado,
eleitor e reservista,
pai de dois filhos e poeta,
que ficou desempregado.
Nunca no entanto tive tanto trabalho,
trabalho o tempo inteiro e não me canso
porque trabalho cantando
na construção da manhã:
manhã geral de amor que vai chegar.

Santiago do Chile,
31 de março de 1965

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Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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Comentários (1)

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Muito claro e futurista... como decreto final...que a palavra do homem "liberdade" estará sempre em seus imensos e bondosos corações. fantástico.