Escritas

Intervalo de vida

Ruy Belo
InĂștil sol inĂștil chuva inĂștil cĂ©u
enquanto nĂŁo imĂłveis como as ĂĄrvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rĂ­gidos os meses

InĂștil Ă© o sol feito relĂłgio de pobres
o sol afinal a Ășnica
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as ĂĄrvores fazendo
concorrĂȘncia Ă s coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas

E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como Ășnicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lĂĄbios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passĂĄmos

InĂștil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infùncia
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo

a erva cresce. Entre gestos polidos pĂĄginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
hå plåtanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de ĂĄguas
que a forma sempre mudĂĄvel da minha unha
essa unha roĂ­da pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estaçÔes e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias

InĂștil cĂ©u que o sol todos os dias
deixarĂĄ levarĂĄ como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças

A primeira infĂąncia passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverĂĄ barcos e seremos livres


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pågs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984