Escritas

Lista de Poemas

Expressionismo

Ônibus bêbedos tropeçam nas calçadas
Clichy-Odéon
O Sena sujo acaricia as pontes cansadas
Oito horas e ainda não é noite
Os barcos enfileirados
escorregam lesmamente
Atravancamentos
Assovios do pliceman a cavalo
Posso atravessar
A Torre Eiffel tem tanta pena do obelisco!
O boi e o sapo fábula moderna
Sexo conquistador
O mundo abre os joelhos
Meu Pantheon tão negro no meio
das casas debruçadas e curiosas
As janelas são olhos que se acendem um depois do outro
e daqui há duas horas
verei a Cidade-Luz!

Blaise Cendrars - Jean Cocteau - Vildrac - Appollinaire

Quartier Latin tão querido dos vagabundos
Lentamente subo para Montmartre
como alguém que volta para casa
com muito spleen

Pigalle cabarés
Morand não escreveu a noite de Montmartre
Lapin Agile
Casas baixas
Nostalgia do meu sol
Bonés
O coração da manhã falava em crimes bizarros
Mas eu não temo roubos
Debruçado sobre um balcão duvidoso
bebes conhaque
Meus amigos querem crônicas!
Hotel Meublé
Maryland
E um pouco do meu país
alastra-se pela prisão pequena...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.51-52. (Autores brasileiros, 19
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Boxe

Para Oswaldo de Andrade


Glórias do ring
Descarga elétrica
diz o vizinho que o swimg fulminou
Carpentier! Carpentier! Carpentier!
E o campeão sorri ao lado do Ursus estendido
Eis Siki desafiante no tablado
e o hino nacional das ovações.
Músculos aços braços sem cansaços
O século vibra todo
na elegância desse xeque-mate
Fora o xadrez e os bilhares de ventres prudentes
as folhas mortas e os decadentes
Renascimento das Espartas sadias
para brilhos nunca dantes inventados
E temos o direito de parodiar Camões
porque somos os clássicos do futuro
ou no mínimo o futuro dos clássicos
(Boa piada!)


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.44. (Autores brasileiros, 19
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Bailado Sueco

Para Blaise Cendrars


Floresta a três andares
As horas da noite pouco a pouco se vão indo
e as horas brancas se aproximam
Chovem desejos retorcidos
tentações em verde escuro
Zé Pereira
... bum... bum... bum...
bum... bum... bum... bum...
Brasil carnavalesco e feiticeiro
cheio de bruxas e de negros
dançando o samba
dos sensualismos nacionais

"O meu boi morreu
que será de mim!!!"

A lua muito grande
muito vermelha
viajando incógnita pela Europa
Sangue!
Todo esse sangue de mil raças
corre em minhas veias
Sou brasileiro
Mas do Brasil sem colarinho
do Brasil negro
do Brasil índio

Cendrars é um poeta brasileiro!


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Análogos.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.50. (Autores brasileiros, 19
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Paris

Crepúsculos longos impressionistas
A luz não cai
escorrega
sobre os patins das nuvens

O Sena foge
levando o gosto da posse.

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Lisboa

A cidade tomou banho
Água suja do Tejo
A Torre de Belém
no poente decadente
sonha com impossíveis caravelas.

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Oh Valsa Latejante

Oh valsa latejante. . .

O poema que eu hei de escrever
será nu e simplesmente rude
O poema que eu hei de escrever será um palavrão.

Dor recalcada
inveja mesquinha
perversidades impotentes
todo o fracasso e a sub-angústia

O espezinhamento usa batom

Mas tudo há de jorrar com ele
numa amarga libertação...

O cacto com seus espinhos
apertado entre as palmas da mão
é menos doloroso

Oh valsa latejante...

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Fotografia

Esse papel estragado de fotografia
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.

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Tomasina

O cavalo cambaio dirige a caravana
Embaixo na estação o trem cospe um desafio
Calor calado e abafado
Cinza recente
A rua principal do delegado
Um cabo e um soldado para que o cabo possa ser cabo.
Estafetas viajantes andarilhos e cometas
no capilé da venda democrática
A farmácia dos corifeus coronelandos
A matriz morfética e o padre calabrês
e atrás da vila o catatraz da rápida caudal
Cartomancia dos jornais atrasadotes
O correio onde o guri brinca com as cartas registadas
O gado paciente na estrada de carmim
O cafezal tuberculose do Jangote
Os toros das queimadas
Os olhos das amadas
O ciciar da já saudade da cidade.

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Autobiografia Inacabada

IV

Vícios de estufa
revanches de sonho
e um dia o milagre do mar.

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