Escritas

Lista de Poemas

Take Off

1. há quem faça obras
eu apenas
solto as minhas cobras

2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias

3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos

4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra

5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?

6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério


Publicado no livro Antilogia (1979).

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
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Numa Incerta Noite

Calculo as ruas que atravesso
Vendo a copa das árvores
Guiado pelas folhagens
Profusamente imerso
Na vertigem inversa
Da hemorragia verde
Do ciclópico olho vegetal
Que me contempla

1991


Poema integrante da série Incertezas.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
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Digitações

A poética é uma máquina
Há um código central
Em que se digita ANULA
É a máquina do nada
Que anda ao contrário
Da sua meta
A repetição é a morte
Noutro código lateral
Digita-se ENTRA
E os cupins invadem o quarto

1990


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
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As Categorias Límpidas

Constroem tocas em margens de córregos
e riachos, e passam quase toda a vida
na água em busca de larvas e insetos e
cutucam sedimentos de aluvião com os
bicos. Os machos têm espora afiada e
oca nos calcanhares, que se liga a uma
glândula venenosa na coxa. Os organis-
mos ovíparos formam ovos no corpo e
óvulos muito protoplasmáticos onde o pla-
no de clivagem não consegue penetrar
e dividir a extremidade vegetativa, ou
seja, a clivagem meroblástica caracteri-
za vertebrados terrestres répteis ou pás-
saros. Caldwell enfatizou o caráter rep-
tiliano desses mamíferos paradoxais, mas
navegadores europeus por muito tempo
foram ludibriados por taxidermistas chine-
ses e por costuras de cabeças e troncos
de macacos às partes traseiras de peixes.
Porém não se conseguiu achar emendas
ou costuras. O enigma interno sendo ainda
maior, contudo, os primeiros evolucionis-
tas franceses insistiram em que a anato-
mia não podia mentir: os ovos, eles bra-
davam, acabarão por serem encontra-
dos um dia (naquele tempo ainda não se
encontrara glândulas mamárias). Saint-
Hilaire manteve acesa a chama da ovi-
paridade. Caldwell solucionou um misté-
rio específico, intensificando, porém, o
problema geral. A natureza clamava pe-
las categorias límpidas, pois é impossí-
vel vencer num mundo assim: ou se é um
primitivo prima facie ou especializado
por uma simplicidade implícita e oculta.

1991


Poema integrante da série Informes.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
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Tiranossauro, Penso em Ti

Há 100 milhões de anos
Apoiado na cauda
Dentes em serra o Terror
Dos ornitisquianos
Grande réptil predatório
A vida muda
Passou rápido o tempo
Em alegoria giratória
Penso em outros predadores
E também nas presas
Nos devorados
Nos vencidos

1989


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
👁️ 1 226

Máquina

Máquina de signos
Gnosis de si mesmo
Nós cegos de nomes
Rota de desígnios
Ou máquina do sono
Que revira o corpo
Tudo gira em torno
Do nada onde somos

1990


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
👁️ 1 292

Perguntas a H P Lovecraft

Por que sempre as cidades ciclópicas com altas torres de cantaria
negra? Por que formas e cores inimagináveis vindas do espaço, vozes
estaladas ou zumbidas e os cheiros insuportáveis? Por que ventos
frios e pesadelos que são reais? Por que o ignoto nos repugna e por
que o fascínio do repulsivo? Por que mundos perdidos no tempo
anterior ao homem? Por que os Antigos eram sempre superiores, mas
repelentes? Por que algo, sempre, deve calar-se? Por que os reinos
informes da infinitude? Por que sempre as substâncias viscosas e
verdes? Por que Aqueles são ameaçadores? Por que as coisas se
evaporam? Por que a incógnita nos causa horror?

1989


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
👁️ 1 028

Fragmentos Cósmicos

Todo sistema tende
A um grau crescente de desordem
Onde depositar
O lixo cósmico?
Informação é matéria prima
A paciência é elástica
Inflar bem lento e explodir
Como no Big Bang

1990


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
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Anotação 18: A Vida Sono

Cabeceio tonto ao monitor
Acordo em visgo
Pálpebras de pedra
Letras bêbadas de âmbar
E entro barco
Ébrio de tantos roncos
Pernas bambas
O Boxeur erguendo-se da lona
Sono-dança do intelecto
Entre as idéias
O diabo Logos
Fixa as peças do texto-sono

1992


Poema integrante da série Anotações.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
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Não me Venham com Metafísicas

o corpo e a matéria em prosa
aqui e agora
nada de primeiros motores
nada de supremos valores
isso fica para os filhos da pátria
nem francisco de assis nem santa teresinha
amai-vos uns sobre os outros
nada de temores e tremores
nem de noite escura da alma
a prosa é preferível
"sei de um estilo penetrante
como a ponta de um estilete". flaubert
é só isso


Publicado no livro Antilogia (1979).

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
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