Lista de Poemas
Biografia de uma Idéia
só iguala o da víbora pela sua presa
as idéias são/não são o forte dos poetas
idéias-dentes que mordem e se remordem:
os poemas são o remorso dos códigos e/ou
a poesia é o perfeito vazio absoluto
os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou
erupções sem lava e ejaculações sem esperma
ou canhões que detonam em silêncio:
as palavras são denotações do nada ou
serpentes que mordem a sua própria cauda
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
Cortes-Toques
O Pequeno Hans tinha pânico de cavalos
Landru queimava mulheres
Manson & Família
Riscaram Pig com o sangue das vítimas
No subúrbio do Rio acharam
Mulher tapada numa cisterna
Papéis jornais recortes
Grandes entulhos e um canal
É difícil entender a desordem
Há um ano ela olhava o mar desta janela
Nefesh Nafs Atman
Que quer dizer alma?
Bombons envenenados no Japão
Parece a corcunda de Kierkegaard
Um toque de dedos rápido
O prazer de alfinetes
Aqui é o limite: atenção
Como o punctum de uma foto
A orelha cortada é uma sinédoque.
1984
Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
Depois de Borges Filológico
yellow
As flores amarelas
Os amores amarelos
Os sorrisos amarelos
As desculpas amarelas
Inveja
Ciúmes
Melancolia
Bílis
O pó das coisas
Que amarelecem com o tempo:
Papéis
Folhas
Líquidos
Humores
O próprio pó do tempo.
1984
Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
Ouvivendo Stockhausen
Para o solo de clarinete
Iniciado com ecos do fauno
O olhouvido se petrifica
Suzanne Stephens
Colante multicolor
Contorce-se em curvas
A música também se contorce
A sombra se reflete no fundo
Uma sombra nua
O solo se reflete no espaço
Música-espelho
O clarinete é um símbolo
Arlequim
É o mensageiro do diabo
Ela dialoga com o símbolo
Dançando com o clarinete
Até o sopro final
Até o último suspiro
1988
Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
Pequenas Idéias Fixas
de ar condicionado sem pesadelos
escritos rasos
le mot juste
objetos diretos colocados
precisões
do ostinato rigore
lancetas bisturis agulhas
conceitos vermes
"la consciencia me sirve de gusano"
grafitti críticos
"somos o carnaval das multinacionais"
observações ao acaso
"um leão
é feito de carneiros devorados"
do poeta da idéia fixa
coisas secas
escritos de gravetos
greves
inscrições de w.c.
"uma coisa é certa
poeta de privada
vive inspirado na merda"
Publicado no livro Isso Não É Aquilo (1982).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
A Morte dos Símbolos
serpentes enforcados corvos
espelhos labirintos mandalas
livros caixas relógios mapas
chaves números mágicos
duplos metamorfoses monstros
vamos destruir a máquina das metáforas?
Publicado no livro Isso Não É Aquilo (1982).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
Un Giorno nella Vita: Abril 78
com mentol americano
tomo o café multisuíço
e abro o jornal nacional
com sorriso de jimmy carter
pra variar os novos filósofos
hoje são franceses
puxam as orelhas de karl marx
afinal tudo é nacional
inclusive o colesterol
e exceto o know-how
todos os modelos são relativos
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
Noten zur Dichtung 2
As palavras são como cobras
Nada ilumina nem descobre
Tudo morde: é veneno e sono
O poético é como a lesma
E a melódia é como o visgo
Nada muda: é a mesma receita
Tudo é concreto e tudo é símbolo
Os conceitos são escorpiônicos
Que se ferram porque letais
Os poetas meros espiões
Preocupados com as chaves
As idéias são morcegos cegos
As palavras são caramujos
Nada é claro nem se revela
Pois tudo é nada e nada é tudo
1988
Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
Poemontagem para Augusto dos Anjos
ossos destroços se carcomem o homem
úmeros números negros de homem húmus
um grande verme passeia essa epiderme
agregado abstrato abstrações abstrusas
criptógama cápsula e ventres podres
dentre as tênebras de obscuro orbe
qual minha origem? pergunto na vertigem
sonda hedionda assombra a minha sombra
essa futura ossatura e agras vísceras
incógnitas criptas do ovo primitivo
plasma do cosmo treva do nirvana
homem engrenagem da língua paralítica
no orbe oval de gosmas amarelas
eu perdido no cosmos corpo inerme
de mim diverso um coveiro do verso
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
Jean-Jacques Rousseau às Avessas
ou a lógica do contrato social
é o papo furado triunfal
dos que seguem as lutas sindicais
pelos jornais
os amorosos nada morosos
na hora da comilança
sabem muito bem
como encher a pança
Publicado no livro Isso Não É Aquilo (1982).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
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