Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

1922–1959 · viveu 37 anos PT PT

Reinaldo Ferreira foi um poeta brasileiro, considerado um dos precursores do Modernismo no Brasil. Sua obra é marcada pela experimentação formal e temática, explorando a vida urbana e a subjetividade de forma inovadora para a época. Foi também jornalista e crítico literário, contribuindo significativamente para o debate cultural de seu tempo.

n. 1922-03-20, Barcelona · m. 1959-06-30, Maputo

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O Futuro

Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários
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Poemas

101

Na tarde erramos

Na tarde erramos,
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.

Discreto calo,
Pra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.

Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Sòmente em mim
Pensasses.

1 832

Oh! tarde de sábado britânica

Oh! tarde de sábado britânica,
Poema da rotina,
Prodígio do bem-estar...
Eu, que donde vou, latino e desgrenhado,
Intenso, irregular,
Apenas sei a vibração e o desânimo
(O sol excessivo e a sombra opaca),
Olho-te no deslumbramento
De quem se banha
E se deslumbra
Em penumbra.

1 896

No amplo e ermo degredo

No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.

Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.

É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.

1 919

Na vida somos iguais

Na vida somos iguais
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que a fez.

Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.

Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.
1 822

Meu quase sexto sentido

Por detrás da névoa incerta,
Da bruma desconcertante,
Há uma verdade encoberta,
Que é, por trás da névoa incerta,
Intemporal e constante.

Oh névoa! Oh tempo sem horas!
Oh baça visão instável!
Que mal meus olhos afloras,
Em vão transmutas, descoras...
Meu olhar é infatigável.

Quero saber-me quem sou
Para além do que pareço
Enquanto não sei e sou!
Nuvem que a mim me ocultou,
Ai! Meramente aconteço.

Com menos finalidade
De que uma folha caída
Na boca da tempestade,
Porque ele é, na verdade,
Morte a caminho da Vida;

E eu não sei donde venho
Nem sei, sequer, pra aonde vou.

Rompa-se a névoa encoberta!
Quero saber-me quem sou!

1 975

Deus que me fez e fizera

Deus que me fez e fizera
O pecado antes de mim,
Junto de Si não me espera,
Sabe o destino a que vim.

Pode tudo; e não altera
O pecador que há em mim,
Nem nunca tanto pudera:
Pecarei até ao fim.

Pois que tudo em mim venera
O pecador que há em mim.
Deus já não pode nem espera:
Fez o destino a que vim.

2 046

Que domingo solene, ocioso e lasso

Que domingo solene, ocioso e lasso!
Tão triste; o sol inunda a tarde toda,
Festivo como um guizo numa boda
Onde a noiva morreu, desfeita em espaço...

Medeia a eternidade, em cada passo
Que, sem intuito, dá quem passa; à roda
Parece dormir tudo; e incomoda,
Ponderável, no ar, um embaraço...

Toda a tristeza do domingo à tarde.
Sobe dos homens para o céu, que arde,
O apego à vida dum olhar que morre.

Sombras sugerem aflições incertas...
E das janelas sôfregas, abertas,
Morno, o silêncio como num pranto escorre...

1 905

Nasci poeta abstruso

Nasci poeta abstruso.
Amo as palavras que estão
Entre o arcaico e o difuso
No cerne da indecisão.

Prefiro adrede e gomil.
Digo delíquo e fanal.
E só descrevo um funil
Em termos-vaso-de-graal.

Mas nesta minha importância,
Neste sol que me irradia,
Nem Deus preenche a distância
Que vai de mim à Poesia.

1 862

Olhos iguais, outro olhar

Olhos iguais, outro olhar,
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do sol que fôssemos nós...

Assim erramos incertos,
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó nos desertos
Onde houve relvas e prados.

E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo, alheio à vontade,
Deslisa, remoto pranto
Duma tranquila orfandade.

1 810

Regresso de parte alguma

Regresso de parte alguma
Rico mais do que partira,
Pois trago coisa nenhuma
Sem desespero e sem ira.

Agora vivo contente
No meu exílio sereno;
Tomei tamanho de gente
E não me dói ser pequeno.

Pedra parada na calma
Tranquilidade dos charcos,
Deixem dormir minha alma,
Como apodrecem os barcos

2 425

Comentários (3)

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João Matela
João Matela

O poema "Dos Prazeres dno Céu" foi musicado pela Cova da Moura, uma banda de Portalegre, em 1988. A música é de Jorge Serra (falecido em 2018) e os arranjos de Domingos Redondo (também guitarra eléctrica). Facebook: https://www.facebook.com/Joao.Biko/videos/1968890136468642

Joao Matela
Joao Matela

O poema foi musicado pela Cova da Moura, uma banda de Portalegre, em 1988. A música é de Jorge Serra (falecido em 2018) e os arranjos de Domingos Redondo (também guitarra eléctrica). Facebook: https://www.facebook.com/Joao.Biko/videos/1968890136468642

Luis Franco
Luis Franco

...reinaldo Ferreira um cometa que irradia luz Para ETERNIDADE ....único que estejas com os Deuses.