Lista de Poemas
Café de cais
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.
Acordes gastos
De velhos cantos
Doutras deidades,
Riem, nefastos
Das novidades.
Zombam?... Quem sabe
Qual o sentido,
Oculto ou expresso,
Que tem a Esfinge?
Ai quantas vezes
O riso rido
É dor que finge
Ter-se sorrido;
Ou azedume
De ser excedido.
Talvez apenas
Serenidade;
Olhos que fitem,
Desnecessários,
A eternidade.
Nós é que, toscos
De ter sentido
Sua atentatória
Supremacia,
Nos esquecemos
Que os Deuses mortos
Não têm memória
Nem simpatia.
Conferência à Imprensa
- O que importa é virá-lo do avesso,
Mudar as intenções,
Interpretar,
Sofismar -
Deve ser rápido e sumário.
Termos, preceitos, norma,
É tudo forma,
Matéria de processo e convenção.
Ao cabo, é o Calvário
Que é preciso atingir.
Alguém tem de subir.
Eu não quis, sou juiz.
Aos senhores,
Mais propagadores
De tudo o que acontece
- De todo o que parece
Que acontece
E passa a acontecer -
E disto e daquilo
- E da Verdade, às vezes -
.......................
Um sossego mais largo
Que o esquecimento dos homens
Me seja a morte
Como um veleiro abandonado
No silêncio do mar;
Como, antes do Tempo,
Como, depois do Tempo,
O não haver ninguém para o contar
Como não ter existido
Me seja a morte!
Mas não já
Feliz do que é levado a enterrar
Tão indiferente como quem nasceu!
Feliz do que não soube desejar,
Feliz, bem mais feliz do que sou eu!
Feliz do que não riu para não chorar,
Feliz do que não teve e não perdeu!
Feliz do que não sofre se ficar,
Feliz do que partiu e não sofreu!
Feliz do que acha bela e vasta a terra!
Feliz do que acredita a fome, a guerra,
Terrores imaginários de crianças!
Feliz do que não ouve o mundo aos gritos,
Feliz! Felizes todos e benditos
Os que Deus fez iguais às pombas mansas
D Bailador-Bailarino
Esmorece a luz
Sobre o tablado.
Amolecido
E vencido,
D. Bailador-Bailarino
Devagar
Morre, também...
E o que resta da angústia do baile
É o corpo morto e tombado
Que lutou com a própria alma.
Lesta, desprende-se a cortina
Sobre a cruel pantomina.
Um silêncio geral...
Nem uma fala !...
No entanto, uma emoção sem par
Penetra os corações
E cada olhar
Revive as derradeiras comoções
Da dança singular.
Súbito, um frenesi
Percorre a multidão paralisada.
Uma flama irrompeu,
Deixou a sala incendiada,
E cada um reclama
E chama
E quer, inquisidor,
Que à ribalta apareça
D. Bailarino-Bailador !
D. Bailador-Bailarino !
D. Bailarino-Bailador !
II
Emocionante,
A pantomina
Termina.
Alado e áptero impulso
Atrai-lhe o corpo delgado
Para o reino da vertigem,
Pondo susto e maravilha
Em cada olhar deslumbrado.
Após
Com lento aprumo, sem pressa,
Regressa,
Pisa de novo o tablado
E dança.
Com segurança e majestade dança,
Como se no ar em que dança
Houvesse mais densidade,
De um verde vagar aquático.
Quem dirá que não tem asas
D. Bailarino-Bailador ?
Embalsamado - de fixo ! -,
Mumificado - de quieto ! -,
D. Bailarino
Comenta, do violino,
Gelado choro sem fim.
Mas no fim,
Com manso e dormente jeito,
As duas mãos voadoras
Cruza, pendentes, no peito.
Sob as pálpebras cerradas
É diferente o rosto moço;
Tomba-lhe então a cabeça,
Como se ao cabo e aos poucos
Se derretesse o pescoço.
Longínqua serenidade
Como que dimana e escorre
Da melancolia que morre,
Toda horizonte e além.
III
Ele é fauno, é flora amorável,
Ele é mito, ele é loiro, ele é palma,
É palavra carnal duma alma,
É o fixo, é o instável.
Ele é tarde de cinzas, é poente fantástico,
Ele é lívido Gólgota, paisagem lunar,
Ele é triste balaústre cismático
Em marmórea varanda, ao luar.
Ele é fútil ficção, Pierrot
Suspirante, cintilante Arlequim,
Ele é tal artifício, mas tão gracioso
Que, se vivo inda fora, gostoso
O pintara Watteau.
Ele é renda, ele é asa, ele é pluma
E transcende o autor de que dança um adágio;
Mas também é tormenta, também é naufrágio;
É visão de afogado trazido na espuma;
Ele é amoroso de murcha coragem
Sorvendo, de longe, seus longos martírios;
Ele é D. Juan do sangue selvagem
A cuja passagem fenecem os lírios.
Ele é confluência das dúvidas todas
Hamleticamente dançando dilemas
Da jovem de Atenas, em véspera de bodas,
Tecendo, com rosas, fragrantes diademas.
Ele é fauno, mais fauno que o fauno
Ressuscitado
Por santo milagre de S. Debussy !
... E logo, converso, em outro bailado,
Pureza sem mancha seu gesto sorri.
Ele é sopro, ele é fumo na aragem,
Ele é fluido, ele é nimbo, é paisagem
No leito dormente de um rio
Em sonâmbulo estio.
Ele é aço, ele é mola, ele é pincho,
Ele é som de metal, ele é guincho,
Explosão e tambor,
O Bailador-Bailarino !
O Bailarino-Bailador !
IV
Ah ! bailador !
Ah ! bailarino !
A tua arte durou
Os olhos de quem te viu...
E tudo o mais é rescaldo
Do fogo que se extinguiu.
.......................
Ninguém teve
Mais efémero brilho
Nem triunfo mais breve...
Cabriola de chama
Na lenha que arde
E se extingue...
Relevos de nimbos,
Fantásticas formas
Fugazes, da tarde...
Corisco maluco !...
.......................
Ah ! florilégio do gesto,
Carne da música,
Antologia da atitude !...
V
Quando, entre as campas das puídas flores,
Que um outono qualquer arrebatou
A lascivos amores,
Passa, alta noite, um silvo aflito a cio,
E dos burgueses mausoléus, o frio, a prumo, orgulho vão,
Escorre, inda vivo, uma gordura à Lua,
Do Bailarino, desconjuntada,
A ossada
Acorda para o tormento
De não ter movimento...
IV
Que fantástica cena, a Eternidade !...
Vejo-te a dançar, Bailarino,
Vejo-te a dançar
Sem tréguas nem esperanças
À busca dum corpo
Não se incorpora a tua suavidade...
Busca-se um peso para a queda do fim...
.......................
Sem corpo, a Eternidade é bem cruel,
Se Deus nos deu uma alma que é pretexto,
Um mero cordel
Para o gesto...
Flor de lapela
Que deu prazer,
E ao cabo, num ocaso descorado,
Jaz no passeio, abandonado,
Sem mágoa e sem memória.
Não é diversa a trajectória
Das flores maiores que somos nós
Exibe-nos a Vida na lapela; a glória
Dura o que dura uma manhã de sol. Após,
Esgotada a cor, extinto o perfume,
A mão que nos colheu lança-nos fora,
Pra que nos leve a carroça do estrume
Que vem na madrugada,
Ou, se chover, nos leve a enxurrada
Flor ou bicho
Ou criatura,
Tudo é lixo
Na sepultura.
Carvoeiro
E das ciladas da areia!
Foge arteiro,
Oh carvoeiro!
Segue sempre o teu roteiro,
Que só a terra é sereia
Singra, soprano, o veleiro,
Tu passas, quente e contralto
Vai, banzeiro,
Oh Carvoeiro!
Vai, que o teu casco é romeiro
Da romagem do mar alto
Teu manso ir, carvoeiro,
É todo feito de brasas
Se és ronceiro
Oh Carvoeiro!
O teu fumo aventureiro
Tem um destino com asas
Vê com que aprumo cimeiro
Transcende a altura dos mastros
Vai, cordeiro,
Oh Carvoeiro!
E escuta a voz do gajeiro
Que sobe à cesta dos astros
Vai para o mar, carvoeiro,
Terra é mulher, é má sorte.
Vai ligeiro,
Oh Carvoeiro!
Não veja a onda, primeiro,
Brilhar a Estrela do Norte
Negro, negro carvoeiro,
Não voltes nunca do mar!
Vai, trigueiro,
Oh Carvoeiro!
Que eu não nasci marinheiro
E o meu destino é ficar
Duma outra infância, inventada
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.
Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.
Assim, mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.
No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
Comentários (3)
O poema "Dos Prazeres dno Céu" foi musicado pela Cova da Moura, uma banda de Portalegre, em 1988. A música é de Jorge Serra (falecido em 2018) e os arranjos de Domingos Redondo (também guitarra eléctrica). Facebook: https://www.facebook.com/Joao.Biko/videos/1968890136468642<br />
O poema foi musicado pela Cova da Moura, uma banda de Portalegre, em 1988. A música é de Jorge Serra (falecido em 2018) e os arranjos de Domingos Redondo (também guitarra eléctrica). Facebook: https://www.facebook.com/Joao.Biko/videos/1968890136468642
...reinaldo Ferreira um cometa que irradia luz Para ETERNIDADE ....único que estejas com os Deuses.
Ternura | Poema de Reinaldo Ferreira com narração de Mundo Dos Poemas
Receita Para Fazer Um Herói | Poema de Reinaldo Ferreira com narração de Mundo Dos Poemas
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O caminho que devo seguir (Salmo 142) | Intimidade com Deus (142) #391
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