Mar, Rios e Oceanos

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Rio

Rio, múltipla forma fugidia
De gestos infinitos e perdidos
E no seu próprio ritmo diluídos
Contínua aparição brilhante e fria.

Nos teus límpidos olhos de vidente
As paisagens reflectem-se mais fundas
Imóveis entre os gestos da corrente.

E o país em redor verde e silvestre
Alargou-se e abriu-se modulado
No silêncio brilhante que lhe deste.
1 407
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Minha Esperança Mora

No vento e nas sereias —
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
1 474
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Dezembro

Oiti: a cigarra zine:
convite à praia. Tine
o sol no quadril, e o míni
véu dissolve, do biquíni.
1 533
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Reino Está Aqui

O reino está aqui
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
517
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Agilmente

Agilmente
imprevisível
a onda branca desnuda o campo obscuro.
Na trama descoberta o árido esplendor.
1 091
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Mar E Sombra a Delícia

Entre mar e sombra a delícia
de um vento que abre um espaço original.
461
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Superfície da Água Móvel

A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca

O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 056
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Furor de Espuma Entre As Algas

Um furor de espuma entre as algas
e o abandono de qualquer coisa escura
A violência extrema     a extremidade
desejável
Que verde a violência e que brancura
Neste outro branco agora balbucio
pássaro branco
insecto
espuma
1 039
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Água E o Vento

A água e o vento

palavras vivas

a água     o vento
499
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Onda

A onda

como se a onda

o ar sem nome

detenho o pulso

sem a palavra
1 146
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão

A mão

prolonga

o pulso

quando

a água ondula
1 057
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Mar Furtivo Entre Dois Ventos

Um mar furtivo entre dois ventos

no limite

das árvores         as vagas

no papel áridas asas

uma cabeça oca     branca entre algas     dedos

transparência da luz alta

sobre as pálpebras

ávida morte         nua lápide da sombra
991
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Corpo Solto Instantâneo…

Corpo solto instantâneo entre as árvores e o mar, margem de uma claridade de lâmina deserta, corpo devastado pela usura última, caminhando como na primeira página do deserto e já pressentindo e perdendo a primeira palavra do mar.
1 032
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Inesperada Margem Nua

Na inesperada margem nua
confuso chega o som e o verde
A terra é negra no limiar da pedra
E ouve-se o som do mar Um som sem sombra

Suspenderam-se os limites Quem
sustenta a proposição do mundo claro?

É então que se ouve o côncavo de um
caminho fresco que propaga o corpo

e as margens unem-se num só ouvido verde
1 047
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Avanço No Silêncio Como Um Sopro

Um avanço no silêncio como um sopro
frígido da avidez do ar
um caminhar no horizonte do mar
um corpo com novos lábios dentes frescos
a inocência de um silêncio de água
o olhar ao nível só do ar
a língua saboreando o sol e o ar
um fulgor ávido entre o corpo e o espaço
969
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Com a Cabeça Vibrante Ao Largo

Com a cabeça vibrante ao largo
com a cabeça tocando os limites largos
com o vento soprando no vazio da cabeça
com a língua ávida respirando o sol do ar
antes ainda do depois
aqui na avidez perene do ar do mar
o eterno efémero a respirar
sem mais com todo o mais
sulcado todo pelo ar
901
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Alto Campo o Dia

Alto campo o dia, para as mãos do rosto.
Sala aberta ao céu.
No extremo da linha o sol
para o cimo declina.
Um sóbrio caminho que trepida.
Motor suave, o sol, à beira de água.
994
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Face do Ar

O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.
985
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Órbita de Verão — 1

As duas vertentes — mar e terra
numa só folha lúcida.
Respiro a larga oval,
sólida lâmpada
de pedra
e ar.
Seguro a corda
nova e nua
deste campo.
1 044
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Momento 2

Lentamente inalterada
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)

Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
979
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Se o Mar Entrar

Se o mar entrar em casa
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó

O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo
504
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Barcos

Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua

E a curva do seu bico
Rói a solidão.
2 423
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gráfico

I

Curva dos espaços, curva das baías,
Vida que não é vida com os gestos inúteis,
Quem me consolará do meu corpo sepultado?
II

Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.
III

A mulher branca que a noite traz no ventre
Veio à tona das águas e morreu.
IV

Chego à praia e vejo que sou eu
O dia branco.
2 288
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Grutas

O esplendor poisava solene sobre o mar. E — entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido — quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente. Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes. Porém a beleza não é só solene mas também inumerável. De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado. Um grande rascasso vermelho passa em frente de mim que nunca antes o imaginara. Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias.
Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia de gruta em gruta. Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetrar na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto paira roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.
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