Propósito e Sentido da Vida

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Silêncio

Onde o incandescente
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?

Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.

Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.

Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
933
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Igualando-Me Ao Fundo Sem Saber

Igualando-me ao fundo sem saber
num acorde último, insondável,
vejo um muro e o nada em que ele se ergue
no excesso de uma evidência inicial.
1 060
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sem Desígnios Sem Pedir Transparências

Sem desígnios sem pedir transparências
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
1 004
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Saborear a Lenta Emanação

Saborear a lenta emanação
do limiar. Sorver a alteridade.
Abrir a luz com deslumbradas mãos.
Traçar a fugidia figura da origem.
1 015
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Um Rumor Apagado Talvez

É um rumor apagado talvez
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
552
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Tu Existes Na Lentidão de Um Círculo

Tu existes na lentidão de um círculo
numa latência imóvel. És uma
lâmpada que ilumina o início.
O ar rodeia-te e sulcas o inominado.
1 016
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Interrompendo o Vazio

Interrompendo o vazio
busca os seus limites
negros

Divide-se no sol
cintila ou não no espaço
busca a nudez que é ele próprio
uma dança quase
e estes resíduos
em que se reproduz e se desfaz
914
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

86. Desobstruindo o Espaço Só Esta Mancha

86
Desobstruindo o espaço só esta mancha
e esta casa sem fogo é apenas uma marca
e esta pedra o sinal da busca
e esta pedra e esta pedra.

Uma pergunta: que espaço
ou casa
para a alegria para a livre força?

Dando lugar ao espaço    à luz
e estas pedras sem cinza
esta mas não esta marca
quase feroz tão inútil ou tão certa?
812
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Caminho Sem Saída…

Caminho sem saída porque é a incessante saída e a perda, o inesperado intervalo que se abre a outro intervalo que se abre, a sucessiva vida simultânea de uma parede de água, página respirada pela boca na árvore ou na mão da terra.
1 135
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Se Avançar Num Caminho…

Se avançar num caminho na cegueira, com os próprios sinais do opaco no extremo, um quase e um nunca mais, entre o rumor e o silêncio, e a palavra, a incerta testemunha que oscila na aridez da busca, na deserta sede da interrogação.
1 001
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

11. o Desenlace a Marca o Timbre

11
O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.

Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.

Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
497
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Sulco a Apagar-Se

Um sulco a apagar-se
lâmina ou ferida ao sol
o vento devagar
e a mão que lê o espaço

E porque não um sim
o sim de todo o espaço
numa cabeça vã
de uma formiga fácil

Nada mais do que sim
onde um porquê se extingue
e num talvez acorde
daqui a pouco — ou não.
901
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Outro Sol, Um Outro Pão

Em vão acumulo. Em vão se acumula.
Abri-me ao sol e disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o sol das veias.

Árvore! gritaste.

Nunca se te abriu o pão da mesa
um pão limpo
uns olhos de mulher de água tranquila?
695
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Coração da Neve

No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
1 035
Francisco Mallmann

Francisco Mallmann

VI

não serei bonita
há tantas coisas por fazer
824
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Há Cidades Acesas Na Distância

Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades acesas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.
2 862
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Canção

Clara uma canção
Rente à noite calada
Cismo sem atenção
Com a alma velada

A vida encontrei-a
Tão desencontrada
Embora a lua cheia
E a noite extasiada

A vida mostrou-se
Caminho de nada
Embora brilhasse
Lua sobre a estrada

Como se a beleza
Da lua ou do mar
Nada mais quisesse
Que o próprio brilhar

Por esta razão
Sem riso nem pranto
Neste sem sentido
Se rompe o encanto
2 206
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Homens À Beira-Mar

Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo.
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.

Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.

Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala pra escutar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.

É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua a noite e a sua fome,
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço
Que deixam pela areia, passo a passo.

Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.

Nenhum jardim, nenhum olhar os prende.
Intactos nas paisagens onde chegam

Só encontram o longe que se afasta,
O apelo do silêncio que os arrasta,
As aves estrangeiras que os trespassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.
2 994
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O País Sem Mal

Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal —
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado
1 972
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Paráfrase

«Antes ser na terra escravo de um escravo
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras»
Homero, Odisseia

Antes ser sob a terra abolição e cinza
Do que ser neste mundo rei de todas as sombras
2 573
Bruno Kampel

Bruno Kampel

Dizer

Dizer
Sem Palavras
Amar
sem vírgulas
Sofrer
sem sintaxe
Viver
sem Parêntese
Sublinhando
o gesto
Acentuando
o tempo.
Conjugando
o resto.
807
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O horror de me sentir viver,

O horror de me sentir viver,
De me sentir um sonho ante outros sonhos...
Horroroso sonhar, o horror de ver-me
Mais que ignorante do que é isto tudo.
1 387
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não combati: ninguém mo mereceu.

Não combati: ninguém mo mereceu.
A natureza e depois a arte, amei.
As mãos à chama que me a vida deu
Aqueci. Ela cessa. Cessarei.
1 298
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fazes renda de manhã

Fazes renda de manhã
E fazes renda ao serão.
Se não fazes senão renda,
Que fazes do coração?
2 368