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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nos vastos céus estrelados

Nos vastos céus estrelados
Que além de espaços estão,
Sob a regência de fados
Que ninguém sabe o que são,
Há sistemas infinitos,
Sóis centros de mundos seus,

E cada sol é um Deus.

Eternamente excluídos
Uns dos outros, cada um
É universo.
Mundo dentro de mundos
Infinidades variadas,
Abismos muitos, sem fundo
(...)
1 770
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Para quê te falar? Ninguém me irmana

Para quê te falar? Ninguém me irmana
Os pensamentos na compreensão.
Sou só por ser supremo, e tudo em mim
É maior.
1 204
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, não poder dormir (eu não sei como,

Ah, não poder dormir (eu não sei como,
Não na verdade o quero) eternamente,
Acabar não comigo, nem com isto,
Mas com tudo, causa, efeito, ser...
Ideias vãs que a imaginação
Vazia dum momento em quietude
Gera sem ilusão, como criança
Embriagando-se indolentemente
Do cheiro transitório duma flor.
1 344
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Diferentemente o mesmo

Diferentemente o mesmo
Ligado a um meu passado estranho e vago
Por um negrume e continuar de dor.
1 243
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olho os campos, Neera, [2]

Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.

Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
1 321
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teus brincos dançam se voltas

Teus brincos dançam se voltas
A cabeça a perguntar.
São como andorinhas soltas
Que inda não sabem voar.
1 298
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olho os campos, Neera [4]

Olho os campos, Neera
Verdes campos, e sinto
Como virá um dia
Em que não mais os veja.

Par de árvores cobre
O céu aqui sem nuvens
E faz correr mais triste
A viva e alegre linfa.

Mas por um só momento
Fugaz e passageiro
Esta ideia eu emprego
Para o seu uso triste.

Cedo me volve a calma
Com que me faço o espelho
Do céu imperturbado
E da fonte insciente.

Deixa o futuro, — porque
Não está aqui, não é nada;
Só o fugaz presente
Enquanto dura existe.

Vive a imperfeita hora
Sem olhar além dela
E sem nada esperares
Dos homens, nem dos deuses.
1 383
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Andorinha que passaste,

Andorinha que passaste,
Quem é que te esperaria?
Só quem te visse passar
E esperasse no outro dia.
1 584
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

V - Ténue, roçando sedas pelas horas,

V

Ténue, roçando sedas pelas horas,
Teu vulto ciciante passa e esquece,
E dia a dia adias para prece
O rito cujo ritmo só decoras...

Um mar longínquo e próximo humedece
Teus lábios onde, mais que em ti, descoras...
E, alada, leve, sobre a dor que choras,
Sem querer saber de ti a tarde desce...

Erra no anteluar a voz dos tanques...
Na quinta imensa gorgolejam águas,
Na treva vaga ao meu ter dor estanques...

Meu império é das horas desiguais,
E dei meu gesto lasso às algas mágoas
Que há para além de sermos outonais...
1 286
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teu xaile de seda escura

Teu xaile de seda escura
É posto de tal feição
Que alegre se dependura
Dentro do meu coração.
1 307
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há grandes sombras na horta

Há grandes sombras na horta
Quando a amiga lá vai ter...
Ser feliz é o que importa,
Não importa como o ser!
1 433
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tens vontade de comprar

Tens vontade de comprar
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.
1 144
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pensa quantos, no ardor da jovem ida,

Pensa quantos, no ardor da jovem ida,
Um destino parou; quantos, obtendo
        Da meta inesperada
        (...)

Não esperes nem consigas; enche a taça
E abdica: tudo é natural e estranho.
        Nem justos nem injustos
        São os Deuses, senão outros.

O conseguido é dado; tudo é imposto.
Prazer ou mágoa, são qual sol ou chuva,
        Dados, ora são desejos
        Ora ao (...)

(...)
(...) esperanças breves;
        Quantos, que à meta imposta
A só esperança lembrada antequiseram.

Tal porque morre cai, tal porque vive.
O que se cumpre nunca se quisera,
        Salvo se a morte é cega
        Do pó do (...)
995
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Toda a noite, toda a noite,

Toda a noite, toda a noite,
Toda a noite sem pensar...
Toda a noite sem dormir
E sem tudo isso acabar.
759
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quantos gozam o gozo de gozar

Quantos gozam o gozo de gozar
Sem que gozem o gozo, e o dividem
        Entre eles e o verem
        Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
        Aos outros como prémio
        De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
        Aprende o que te ensina
        Teu corpo, teu limite.
2 317
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vou dormir, dormir, dormir,

Nirvana

Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.

Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.

Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
1 809
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não morreram, Neera, os velhos deuses.

Não morreram, Neera, os velhos deuses.
Sempre que a humana alegria
        Renasce, eles se voltam
        Para a nossa saudade.
1 273
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu vi ao longe um navio

Eu vi ao longe um navio
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.
1 176
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teus olhos querem dizer

Teus olhos querem dizer
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!
814
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Linda noite a desta lua,

Linda noite a desta lua,
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua,
Por onde ela não virá.
1 596
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quantas vezes a memória

Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
1 211
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ó loura dos olhos tristes

Ó loura dos olhos tristes
Que me não quis escutar...
Quero só saber se existes
Para ver se te hei-de amar.
1 253
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

«Ribeirinho, ribeirinho,/Que vais a correr ao léu

«Ribeirinho, ribeirinho,
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.»
1 577
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nem vã esperança vem, não anos vão,

Nem vã esperança vem, não anos vão,
Desesperança, Lídia, nos governa
        A consumanda vida.
Só espera ou desespera quem conhece
Que há que esperar. Nós, no labento curso
        Do ser, só ignoramos.
Breves no triste gozo desfolhamos
Rosas. Mais breves que nós fingem legar
        A comparada vida.
1 381