Propósito e Sentido da Vida
Poemas neste tema
Charles Bukowski
Cão
um cão apenas
caminhando sozinho numa calçada quente em pleno
verão
parece ter mais poder
do que dez mil deuses.
por que isso?
caminhando sozinho numa calçada quente em pleno
verão
parece ter mais poder
do que dez mil deuses.
por que isso?
1 287
Marina Colasanti
É nesse
Há sempre um ponto
fora
um ponto além da tela
da moldura
da armação dos óculos
um ponto além da linha de horizonte
na quina alheia ao campo visual.
E é nesse ponto
nesse ponto ausente
se atam os nós
e traçam rumos das
coisas por nascer
ditas
destino.
fora
um ponto além da tela
da moldura
da armação dos óculos
um ponto além da linha de horizonte
na quina alheia ao campo visual.
E é nesse ponto
nesse ponto ausente
se atam os nós
e traçam rumos das
coisas por nascer
ditas
destino.
1 314
Marina Colasanti
OU APENAS
Às vezes
como as ovelhas
vou de cabeça baixa
pelos pastos
procurando entre gramas
uma esmeralda
um ovo
ou apenas uma idéia.
como as ovelhas
vou de cabeça baixa
pelos pastos
procurando entre gramas
uma esmeralda
um ovo
ou apenas uma idéia.
987
Affonso Romano de Sant'Anna
Batismo No Jordão
Numa tarde banhei-me no rio Jordão.
Para quem vinha dos açudes de Minas
podeis imaginar minha santa satisfação.
Eu nadava. Nadava submergia nadava
e olhava atentamente o céu.
No entanto,
nenhuma pomba
nenhuma voz paterna
dizia ser eu um escolhido
embora me aguardasse em algum lugar
a inevitável crucificação.
Para quem vinha dos açudes de Minas
podeis imaginar minha santa satisfação.
Eu nadava. Nadava submergia nadava
e olhava atentamente o céu.
No entanto,
nenhuma pomba
nenhuma voz paterna
dizia ser eu um escolhido
embora me aguardasse em algum lugar
a inevitável crucificação.
1 087
Affonso Romano de Sant'Anna
Significados
Comprava dicionários para compreender-me
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
1 048
Pablo Neruda
XXXIII
E por que o sol é tão mau amigo
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
do caminhante do deserto?
E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?
São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?
Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
530
Pablo Neruda
XXXV
Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
1 037
Pablo Neruda
XXV
Por que para esperar a neve
se desnudou o arvoredo?
E como saber qual é Deus
entre os deuses de Calcutá?
Por que vivem tão esfarrapados
todos os bichos-da-seda?
Por que é tão dura a doçura
do coração da cereja?
É por que se tem de morrer
ou por que se tem de continuar?
se desnudou o arvoredo?
E como saber qual é Deus
entre os deuses de Calcutá?
Por que vivem tão esfarrapados
todos os bichos-da-seda?
Por que é tão dura a doçura
do coração da cereja?
É por que se tem de morrer
ou por que se tem de continuar?
1 018
Pablo Neruda
LXII
Que significa persistir
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
no beco da morte?
No deserto do sal
como se pode florescer?
No mar do não ocorre nada
há vestido para morrer?
Quando já se foram os ossos
quem vive no pó final?
953
Pablo Neruda
VIII
O que é que irrita os vulcões
que cospem fogo, frio e fúria?
Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?
Quantas perguntas tem um gato?
As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?
Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?
que cospem fogo, frio e fúria?
Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?
Quantas perguntas tem um gato?
As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?
Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?
549
Pablo Neruda
XXXVIII
Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
dentro do sol de uma cereja?
Não pode também matar-te
um beijo da primavera?
Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?
E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
981
Pablo Neruda
LX
E que importância tenho eu
no tribunal do olvido?
Qual é a representação
do resultado vindouro?
É a semente cereal
com sua multidão amarela?
Ou é o coração ossudo
o incumbido do pêssego?
no tribunal do olvido?
Qual é a representação
do resultado vindouro?
É a semente cereal
com sua multidão amarela?
Ou é o coração ossudo
o incumbido do pêssego?
1 009
Pablo Neruda
XXXI
A quem posso perguntar
o que fazer neste mundo?
Por que me movo sem querer,
por que não posso estar imóvel?
Por que vou rodando sem rodas,
voando sem asas nem plumas,
e que me deu de transmigrar
se vivem no Chile meus ossos?
o que fazer neste mundo?
Por que me movo sem querer,
por que não posso estar imóvel?
Por que vou rodando sem rodas,
voando sem asas nem plumas,
e que me deu de transmigrar
se vivem no Chile meus ossos?
972
Pablo Neruda
Aí Está o Mar?
Aí está o mar? Muito bem, que passe.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora,
nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.
Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora,
nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.
Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.
1 542
Pablo Neruda
LXIX
Caem pensamentos de amor
dentro dos vulcões extintos?
A cratera é uma vingança
ou um castigo da terra?
Com que estrelas seguem falando
os rios que não desembocam?
dentro dos vulcões extintos?
A cratera é uma vingança
ou um castigo da terra?
Com que estrelas seguem falando
os rios que não desembocam?
972
Pablo Neruda
XLII
Sofre mais o que espera sempre
que aquele que nunca esperou ninguém?
Onde termina o arco-íris,
em tua alma ou no horizonte?
Talvez uma estrela invisível
será o céu dos suicidas?
Onde estão as vinhas de ferro
de onde cai o meteoro?
que aquele que nunca esperou ninguém?
Onde termina o arco-íris,
em tua alma ou no horizonte?
Talvez uma estrela invisível
será o céu dos suicidas?
Onde estão as vinhas de ferro
de onde cai o meteoro?
1 064
José Saramago
Compensação
Caminho de palavras vou abrindo,
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Puder ainda, com os ecos deste canto,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Puder ainda, com os ecos deste canto,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.
1 063
José Saramago
Espaço Curvo E Finito
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
1 283
José Saramago
Criação
Deus não existe ainda, nem sei quando
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.
Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.
Sequer o esboço, a cor se afirmará
No desenho confuso da passagem
De gerações inúmeras nesta esfera.
Nenhum gesto se perde, nenhum traço,
Que o sentido da vida é este só:
Fazer da Terra um Deus que nos mereça,
E dar ao Universo o Deus que espera.
1 197
José Saramago
Adivinha
Quem se dá quem se recusa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa
Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita
Quem afirma quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração.
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa
Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita
Quem afirma quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração.
1 494
José Saramago
Não Das Águas do Mar
Não das águas do mar, mas destas outras,
Dos lentos remoinhos, onde as folhas
Desprendidas e mortas se balouçam;
Do irisado gás gorgolejante,
Que o respirar do lodo vai soltando,
É que a vida dos homens se formou
De sombra e de mistério amalgamada.
Na vastidão do mar nasceram deuses:
Somos frutos da lama, a água turvada.
Dos lentos remoinhos, onde as folhas
Desprendidas e mortas se balouçam;
Do irisado gás gorgolejante,
Que o respirar do lodo vai soltando,
É que a vida dos homens se formou
De sombra e de mistério amalgamada.
Na vastidão do mar nasceram deuses:
Somos frutos da lama, a água turvada.
1 155
José Saramago
Quando Os Homens Morrerem
Sinal de Deus não foi, que Deus não há
(Ou se há, vive longe e nos engana),
Mas a gaivota que sobre mim voou,
E o grito que lançou,
Foi um sinal de vida não humana.
Recordação seria doutras eras
Em que homem não ainda,
Só promessa?
Ou presságio seria?
(Ou se há, vive longe e nos engana),
Mas a gaivota que sobre mim voou,
E o grito que lançou,
Foi um sinal de vida não humana.
Recordação seria doutras eras
Em que homem não ainda,
Só promessa?
Ou presságio seria?
997
José Saramago
Regra
Tão pouco damos quando apenas muito
De nós na cama ou na mesa pomos:
Há que dar sem medida, como o sol,
Imagem rigorosa do que somos.
De nós na cama ou na mesa pomos:
Há que dar sem medida, como o sol,
Imagem rigorosa do que somos.
913
José Saramago
Obstinação
Diante desta pedra me concentro:
Nascerá uma luz se o meu querer,
De si mesmo puxado, resolver
O dilema de estar aqui ou dentro.
Nascerá uma luz se o meu querer,
De si mesmo puxado, resolver
O dilema de estar aqui ou dentro.
968
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