Beleza

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

31. É Uma Mulher Inequívoca Oscilante

31
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas

dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.

Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
534
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Semelhante À Dança a Dança Mesma

Semelhante à dança a dança mesma
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas

Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos

nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra

perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
906
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Instante

Som velado. Beijo
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina

irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
983
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Seio Jovem

O seio jovem,
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.

Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.

Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.

Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?

Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?

Mas quem o vê não o vê.
1 058
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Cabelos São Os Teus Cabelos As Tuas Mãos

Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água

Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer
1 012
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fina Nobreza de Ombros Que Persigo

Fina nobreza de ombros que persigo
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura

E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
804
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Somente a Mão No Requinte da Febre

É somente a mão no requinte da febre
em sua verde pausa numa folha,
e agora a escrita encontra o tronco
e detém-se. Quem pode amar um insecto?

O cavalo está suspenso destas linhas, a mão
hesita em avançar,
a saliva da vida procria novos ritos,
o esplendor nasce sob a pata do animal.

O esplendor da luz crua exalta.
E a mulher descalça forte com um cântaro
caminha entre ciprestes, na harmonia final.
1 065
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Por Um Pouco de Sombra Após a Luz do Muro,

Por um pouco de sombra após a luz do muro,
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.

Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.

É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.

E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
1 031
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Já Alguém Viu o Cavalo? Vou Aprendê-Lo

Já alguém viu o cavalo? Vou aprendê-lo
no jogo das palavras musculares.
Alento alto, volume de vontade,
força do ar nas ventas, dia claro.

Aqui a pata pesa só a mancha
do cavalo em liberdade lenta
para que o cavalo perca todo o halo
para que a mão seja fiel ao olhar lento

e o perfil em cinza azul aceso
de clareira de inverno. Bafo, o tempo
do cavalo é terra repisada

e sem véus, de vértebras desenhadas,
lê o cavalo na mancha, alerta,
na solidão da planície E uma montanha.
1 208
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Elemento Único Global

Sem o ofegar da tensão cativa
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa

Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata

Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira

Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
517
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Todas As Possíveis Possibilidades

a Rui-Mário Gonçalves

Todas as possíveis possibilidades de ver
claras e sóbrias
se unem e resultam
determinadas, como uma árvore
sem as folhas.
Porque tendem todas para os dedos do espaço,
porque atingiram o ser do nervo,
a textura única.

Facilidade pura.
Olhá-las é um acto
de nervos límpidos:
estaladas,
cantam.

Chegaram a si mesmas,
hastes e panos,
uma vela
de veias
rectilínea.
Relação liberta, livre.
483
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Movimento Como Um Sopro

Um movimento como um sopro
Um tronco branco transparente
Vejo-o suave sobre a folha
Mais branco ainda e transparente
Não o perco não o quero perder
Fascina-me até ao branco
Mas sempre branco e transparente

Objecto do olhar
irreal porque me absorve
até à fixidez da vertigem

Real se o movimento
donde nasceu me faz mover
as palavras com que o transporto
Cego através dele vejo
o branco donde o tronco surge

a transparência que se move
o chão do sopro
1 027
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Polpa do Sabor

A polpa fresca, lâmina rápida que se crispa e salta viva.

E o dia baço, longo, ao fim do corpo: uma parede morta.

A cada passo, a pequena crista límpida, braço que flui
através das árvores, quase ao longo do céu.

Punho breve, inundado, que escreve o sabor nos dentes
do muro já surdo e frio na noite.
955
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Paixão do Ar

Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre

Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama

Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil

O fogo flexível.
516
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Momento 2

Lentamente inalterada
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)

Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
985
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

De Coincidência Em Incoincidência

É um quadrado quase perfeito
em que a luz incide duramente
— uma sombra aguçada e lisa acompanha
o gesto de escrever. Ausência.

Mais exacta, mais viva
a sombra da mão e do lápis
forma um conjunto menos suspeito,
de uma harmonia subjacente.
*
A coincidência da ponta do lápis
com a ponta da sombra do lápis
convida a uma coincidência de todos os pontos
da incoincidência vasta em que escrevo.

Ilusão de uma perfeita justiça,
ilusão dum amor recto como o mármore,
tentação dum espelho claro, inflexível.
*
Não como um espelho,
mas com a lisura e a tranquilidade do espelho.
Alto ou largo ou baixo, imóvel,
não para passear ao longo duma estrada,
mas fragmento de um turbilhão contido.
592
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Presentificação

O que quer a sombra
— nada sabe —
movimentos próximos,
surto que começa
alarga… Eis um muro

bem firme.
Eis a terra ou sua sombra,
o moinho arbitrário: alguém que espera.
Eis a firmeza operária:
o que me quer, este abraço
que vos chega,
ou esta nuvem espaçada, este intervalo:
onde nada sussurra.
*
Como se o mapa limpo,
ouvido agora aberto,
onde o mar se espelha para um olhar que o absorva,
afirma-se no vago:
o horizonte de sempre,
luz de múltiplos dedos,
pedras solares.
*
Nada me separa
neste vau, nada me distingue:
a luminosa fome,
a gula dum sol sedoso,
passear neste silêncio,
acordar de leve
uma luz preciosa e lenta
que se escuta.
*
Como quem desce, pára e são ossos,
é uma presença inerte de pedra,
um grande campo de dejectos, latas,
e o sol brilha cruamente,
um galo súbito maravilhoso.
*
Descer à inércia de uma sombra,
de um hausto reparador,
onde se propaga lenta, obscura, qualquer claridade,
um sinal se forma de fome e suavidade,
o barro desenhado, a mão no bojo:
olhar assim, comer, pousar, romper.
518
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Pedra

A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.
1 342
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Fruto Verde-Amarelo

Um fruto verde-amarelo,
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
559
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Imagens

O fogo que aparece
por cima do horizonte

A vela deslizando sobre a terra

papéis que estalam brancos

um punhado de sol no ar
998
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Corpos

Como um calhau ao sol ao fim da praia
lisa, polida pela água e pelo vento,
corpo unido, firme e novo
na sua fronteira de dentes contra a morte.

Corpos, gritos, rolados, unidos, curvos. Corpos de veias onduladas, sangue e pedra, água e cal, corpos navegantes, velas enfunadas, fomes vermelhas, sedes de paz, matéria viva nocturna, simplicidade nova e isenta, revolta marulhante, bandeira de cabelos, brusquidão óssea, temperatura amarga, soluços ardentes, vazios plenos, sinceridade mole, invasão da morte, garganta sorrindo aberta ao sol.

Na ondulação dos fios, em pleno ar, cabeleira exausta, tumultuosa e suave, como um fogo único, dedos e cabelos num só desfiar de fios, numa só cabeleira de ar.
1 125
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Aparelho Estranho

O aparelho estranho, delgada aranha
deitada e vertical harmoniosa
o mar e o sol no mesmo mar
e entre os arames o espaço ainda mais vivo
quase aereamente radica-se e penetra-nos
e são raios e raízes voos feridos
que nos libertam num trabalho claro.
1 021
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mulher a Casa

A casa é viva
(A mulher dorme)
Dorme na espuma
nas cores puras
Dorme na espuma do silêncio

Planos brancos
e cores lisas

Dorme no vidro
tranquilo

Dorme viva
*
A casa é branca
É mais branca no silêncio
É mais branca entre as árvores

A própria cidade é branca
*
A cabra
cheirou a casa
cheirou o branco

O puro nó
do silêncio
*
Chego em silêncio
à mulher viva
dormindo

A casa é ela
em espiral
rodando
branca
*
É fino o ar
quase sem pó
Uma árvore dá
uma curta sombra

Uma brisa lava
a casa fresca

A varanda nua
é seca e branca
com sede de mar
*
A varanda é nua
A mulher é nua
*
Da casa branca
vê-se o mar
o fulvo dorso
da praia
nu

mulher de areia
deitada e panda
na frescura azul
*
Uma vela branca
de minúcia fresca

dá ao olhar a brisa
dá ao silêncio o mar
*
A mulher dorme
viva
na espuma
do silêncio
1 192
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Visão Ausência Presença Encontro

No vento inteira
No vento nua
Plena e branca

À beira d’água
verga suavemente ou é presença grave
cabeleira compacta
pernas harmoniosas justas

Demasiado duras
Demasiado inteiras
No vento ainda
esta presença obcecante branca
à beira d’água
*
A sua mão diz o amor das folhas
as suas ancas chamam os cavalos
Que inquietação te move, incorporada
ao vento, à água, ao sol?

Se me ignoras, porque não te despes
e não procuras confundir-te na água
ou não te deitas na erva, preciosa?

Sou livre e só, procuro-te, compacta.
Neste silêncio do sol e da água lisa
declino-te os braços que me inundam.
*
Se nos teus seios as chamas me queimassem
a água lavaria o duro fogo
o vento o corpo inteiro gravar-te-ia.

Se nos teus olhos os olhos se me perdessem
nova água, sol e vento se fariam
através de um só corpo de alegria.
*
Ausente nas folhagens
no rumor do vento,
o vestido branco
ou um cavalo?
*
Ela
entre as árvores
precipitada
ou o vento apenas
dizendo a crueldade clara?

Ela, a vida
banhando-se na água
pleno odor de fêmea
corpo grave?
*
Se ela é plena na água
e se os meus olhos a vêem
se pleno me confundo
na própria água que a rodeia
na delícia infinita que ela vive?

Se todo o corpo entre o ar e a água
é um tronco que vibra
na verdura plenitude?

Se todo eu sou a água
deliciada em extensão perfeita?
*
Na água
deitada ou levantada!
*
Erguida como um jorro
ou plena plana sobre a água como um barco

Ao sabor da água
ao gosto do ar
cabeleira desatada sobre os ombros
árvore culminada.
*
Regressar a terra
vir aos braços do vento
e às carícias da folhagem
abraçar o tronco
cabeleira exausta

Caminhar sobre a terra
ou sobre a água
ou nos braços do vento?
*
No ombro côncavo
meu rosto encontra
plena inserção

puro abandono
mas não do sono
de vida encontrada
*
Vitória propagada pela sombra
cabeleira compacta, firmes membros,
uma respiração feliz ombro a ombro
um caminhar sem solidão na noite.
1 054