Morte e Luto

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aqui, dizeis, na cova a que me abeiro,

Aqui, dizeis, na cava a que me abeiro,
Não está quem eu amei. Olhar nem riso
Se escondem nesta leira.
Ah, mas olhos e boca aqui se escondem!
Mãos apertei, na alma, e aqui jazem.
Homem, um corpo choro!


06/07/1927
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O que sentimos, não o que é sentido,

O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.


08/07/1930
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XVII - Não queiras, Lídia, edificar no espaço [1]

Não queiras, Lídia, edificar no espaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não esperando.
Tu mesma és tua vida.
Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?


(Athena, nº 1, Outubro de 1924)
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aguardo, equânime, o que não conheço —

Aguardo, equânime, o que não conheço –
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.


13/12/1933
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensando, me de a mente absorve
Todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que, inda que mágoa, é vida.


27/09/1931
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Flores que colho, ou deixo,

Flores que colho, ou deixo,
Vosso destino é o mesmo.

Via que sigo, chegas
Não sei aonde eu chego.

Nada somos que valha,
Somo-lo mais que em vão.


02/09/1923
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados

Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados
O esplendor do sentido nenhum da vida...

Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No fim de tudo dormir.

No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.

Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
Falem pouco, devagar.
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
O que quis? Tenho as mãos vazias,
Crispadas flebilmente sobre o colcha longínqua.
O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
O que vivi? Era tão bom dormir!
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,

Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
Seja esse o sinal para me esquecerem de todo.
A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
E se tiverem a necessidade doentia de «interpretar» a erva verde sobre a minha sepultura,
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.


08/11/1915
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