Tempo e Passagem

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.

Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
Quantos, se pensam, não se reconhecem
Os que se conheceram!
A cada hora se muda não só a hora
Mas o que se crê nela, e a vida passa
Entre viver e ser.


26/04/1928
1 924
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ninguém, na vasta selva virgem

Ninguém, na vasta selva virgem
Do mundo inumerável, finalmente
Vê o Deus que conhece.
Só o que a brisa traz se ouve na brisa
O que pensamos, seja amor ou deuses,
Passa, porque passamos.


10/12/1931
2 255
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve

Atrás não torna, nem, como Orfeu, volve
Sua face, Saturno.
Sua severa fronte reconhece
Só o lugar do futuro.
Não temos mais decerto que o instante
Em que o pensamos certo.
Não o pensemos, pois, mas o façamos
Certo sem pensamento.


31/05/1927
2 253
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei de quem recordo meu passado

Não sei de quem recordo meu passado
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.
De dia a outro nos desamparamos.
Nada de verdadeiro a nós nos une –
Somos quem somos, e quem fomos foi
Coisa vista por dentro.


02/07/1930
1 562
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dia após dia a mesma vida é a mesma.

Dia após dia a mesma vida é a mesma.
O que decorre, Lídia,
No que nós somos como em que não somos
Igualmente decorre.
Colhido, o fruto deperece; e cai
Nunca sendo colhido.
Igual é o fado, quer o procuremos,
Quer o 'speremos. Sorte
Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa
Forma alheio e invencível.


02/09/1923
1 985
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já sobre a fronte vã se me acinzenta

Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos,
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.


13/06/1926 (Presença, nº 10, 15 de Março de 1928)
2 291
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não canto a noite porque no meu canto

Não canto a noite porque no meu canto
O sol que canto acabará em noite.
Não ignoro o que esqueço.
Canto por esquecê-lo.

Pudesse eu suspender, inda que em sonho,
O Apolíneo curso, e conhecer-me,
Inda que louco, gémeo
De uma hora imperecível!


02/09/1923
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