Morte
Poemas neste tema
William Blake
A MOSCA
Pequena Mosca,
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.
Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?
Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.
Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,
Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.
(Tradução
José Paulo Paes)
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.
Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?
Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.
Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,
Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.
(Tradução
José Paulo Paes)
4 442
1
Heinrich Heine
DER TOD
A Morte é a gélida noite,
A Vida o dia opressivo.
Escurece, tenho sono,
O dia cansou-me muito.
Onde me deito há uma árvore
Em que canta um rouxinol.
Só canta de puro amor.
Até em sonhos o escuto.
A Vida o dia opressivo.
Escurece, tenho sono,
O dia cansou-me muito.
Onde me deito há uma árvore
Em que canta um rouxinol.
Só canta de puro amor.
Até em sonhos o escuto.
2 521
1
Mario Pirata
Calma e lentamente
Calma e lentamente
Como a morte de uma borboleta
Quero entrar na tua alma
Como a morte de uma borboleta
Quero entrar na tua alma
2 127
1
Eugénio de Andrade
Deixa a mão
Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.
Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.
Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.
A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.
De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.
Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.
A boca sobre a boca nevava.
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.
Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.
Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.
A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.
De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.
Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.
A boca sobre a boca nevava.
6 751
1
José Tolentino Mendonça
Uma Coisa A Menos Para Adorar
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
2 361
1
Daniel Faria
Homens que trabalham sob a lâmpada
Homens que trabalham sob a lâmpada
Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias
Homens muito dobrados pelo pensamento
Que vêm devagar como quem corre
As persianas
Para ver no escuro a primeira nascente
Homens que escavam dia após dias o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas
Homens todos brancos que abrem a cabeça
À procura dessa pedra definida
Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento
Livre.Que vêm devagar abrir
Um lugar onde amanheça.
Homens que se sentam para ver uma manhã
Que escavam um lugar
Para a saída.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias
Homens muito dobrados pelo pensamento
Que vêm devagar como quem corre
As persianas
Para ver no escuro a primeira nascente
Homens que escavam dia após dias o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas
Homens todos brancos que abrem a cabeça
À procura dessa pedra definida
Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento
Livre.Que vêm devagar abrir
Um lugar onde amanheça.
Homens que se sentam para ver uma manhã
Que escavam um lugar
Para a saída.
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
2 112
1
Alexei Bueno
Transmutação
Transmutação
Nascemos carne. E a cada dia
Nos vamos transformando em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.
Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.
Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.
O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.
Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.
Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida
E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.
Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.
Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.
Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.
Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.
Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.
Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.
Nascemos carne. E a cada dia
Nos vamos transformando em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.
Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.
Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.
O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.
Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.
Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida
E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.
Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.
Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.
Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.
Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.
Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.
Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.
1 960
1
Ingeborg Bachmann
Dizer Trevas
Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
1 363
1
Fernando Assis Pacheco
Mas agora que vai descer a noite na minha vida
Mas agora que vai descer a noite na minha vida
Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como o cão manco
deixado na estrada pelos caçadores
triste como a sopa entretanto azeda
mais triste que a idiotia congénita
ou que a palavra ampola
triste de mim triste e perdido
entre duas ruas
uma que vai para o Norte outra para o Sul
e ambas cortadas aos peões
que não cooperam devidamente
(com este governo de merda é claro)
triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona
a tarde triste os anos tristes
a grande costura da tristeza
do esterno ao baixo ventre
triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura do córtex cerebral
Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como o cão manco
deixado na estrada pelos caçadores
triste como a sopa entretanto azeda
mais triste que a idiotia congénita
ou que a palavra ampola
triste de mim triste e perdido
entre duas ruas
uma que vai para o Norte outra para o Sul
e ambas cortadas aos peões
que não cooperam devidamente
(com este governo de merda é claro)
triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona
a tarde triste os anos tristes
a grande costura da tristeza
do esterno ao baixo ventre
triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura do córtex cerebral
1 330
1
Vittoria Colonna
ASSAI LUNGE A PROVAR
Assaz longe do gelo em peito meu
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.
Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.
Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!
Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.
dos tristes pensamentos. de ano em ano,
estava eu então, que em trevas e que em dano
tu me deixaste, ó sol, tornando ao céu.
Indigna fui do ardente zelo teu
e das tuas asas, com que aceso e ufano
tu me inflamavas a esquivar o engano
e a desprezar contigo o mortal véu.
Ligeiro tu voaste: e quando abrias
as grandes asas, ah, como foi triste
eu não subir contigo onde subias!
Mas se eu não estava, quando tu partiste!
E minhas forças são sem ti tão frias,
que já não sei se vida ou morte existe.
1 410
1
Fernando Pessoa
Se penso mais que um momento
Se penso mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.
Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,
Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,
E, ou desfeito e insensível,
Ou ébrio de outro arrebol,
Terei perdido, suponho,
O contacto quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês a mês e ano a ano.
Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lambra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo.
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.
Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,
Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,
E, ou desfeito e insensível,
Ou ébrio de outro arrebol,
Terei perdido, suponho,
O contacto quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês a mês e ano a ano.
Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lambra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo.
4 979
1
Júlio Salusse
Cisne
Cisne
A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.
Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,
Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!
A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.
Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,
Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!
1 476
1
Augusto Massi
CEMITÉRIO DO ARAÇÁ
Quando ainda era menino,
voltava calado pra casa,
margeando teu muro alto.
Era o melhor dos vizinhos.
Habituado a jogar futebol
na rua que dava pros fundos,
estranhava: por que as bolas
não voltavam do teu mundo?
Quantas vezes fui comprar
flores na Doutor Arnaldo,
paradoxo confinado à data:
os aniversários da morte.
Você resistiu ao cerco
da cidade que cresceu
(eu também cresci)
sempre à tua volta.
Repisando nosso passado,
hoje, afinal, te visito.
busco meu pai enterrado
dentro do teu labirinto.
voltava calado pra casa,
margeando teu muro alto.
Era o melhor dos vizinhos.
Habituado a jogar futebol
na rua que dava pros fundos,
estranhava: por que as bolas
não voltavam do teu mundo?
Quantas vezes fui comprar
flores na Doutor Arnaldo,
paradoxo confinado à data:
os aniversários da morte.
Você resistiu ao cerco
da cidade que cresceu
(eu também cresci)
sempre à tua volta.
Repisando nosso passado,
hoje, afinal, te visito.
busco meu pai enterrado
dentro do teu labirinto.
2 174
1
Vida
Penso agora,
ha um minuto,
nada pensarei,
sentirei qual poeta,
que experimenta o inferno sem morrer,
e a vida,
sonha sem viver.
E quando nada mais sentir,
e for vazio, frio, escuridão,
quando for deserto,
pensarei em você,
morte que transforma a vida,
mórbida porém vida.
Vida que te ama,
vida que te quer,
vida consumida,
vida por você.
ha um minuto,
nada pensarei,
sentirei qual poeta,
que experimenta o inferno sem morrer,
e a vida,
sonha sem viver.
E quando nada mais sentir,
e for vazio, frio, escuridão,
quando for deserto,
pensarei em você,
morte que transforma a vida,
mórbida porém vida.
Vida que te ama,
vida que te quer,
vida consumida,
vida por você.
400
1
Fernando Pessoa
O Fausto Negro (Prólogo no Inferno)
ACTO V
O FAUSTO NEGRO
(Prólogo no Inferno)
Tecedeiras a tecer:
Teçamos, teçamos
O pano da vida.
Teçamos, teçamos
Com louca lida.
De negro, de negro
Com pontos dourados,
De negro, de negro
Com breves bordados.
Teçamos a rede
Da vida em tear
Que a morte tem sede
Da rede rasgar.
Teçamos, teçamos
Pra cedo acabar.
Uma voz
Eu sou o Spírito de Alegria,
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.
Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer pra não pensar, já não
Por duvidar – mas – oh, maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
O animal teme a morte porque vive,
O homem também, e porque a desconhece.
Só a mim me é dado com horror
Temê-la por lhe conhecer a inteira
Extensão e mistério, por medir
O infinito seu de escuridão.
Não que a conheça, não, nem compreenda
Mas que como ninguém meço e compreendo
Toda a extensão do seu mistério negro.
Para esta minha dor não foram feitas
Palavras que expressem e nem mesmo
Sentimento que a sinta como tal.
Dor que transcende o verbo e o sentimento
Criando um sentimento para si
Do qual o Horror é apenas a aparência
Pensável e sensível do exterior.
Indefinível sentimento fundo
Que me foge quando eu a analisá-lo
Me preparo e só deixa como um rasto
Da fantásmica luz de escuridão
À qual cerrar os olhos d'alma tenho.
O horror cabe bem n'alma, mas aqui
Não me cabe uma alma neste horror. Além
Do vulgar medo à extinção suprema
Há a épica aceitação da morte
E além d'ambas este perder d'alma
Num escurecido e lúcido terror.
Já ouço o impetuoso
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja – que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir – ah, dormir! – num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra coisa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem dosséis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Dosséis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
Monólogo à Noite
Tenha eu a dimensão e a forma informe
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido (...)
E anuladamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu pra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ser infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
Vejo que delirei.
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esp'rança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh, Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh, Fausto!
(Expira)
O FAUSTO NEGRO
(Prólogo no Inferno)
Tecedeiras a tecer:
Teçamos, teçamos
O pano da vida.
Teçamos, teçamos
Com louca lida.
De negro, de negro
Com pontos dourados,
De negro, de negro
Com breves bordados.
Teçamos a rede
Da vida em tear
Que a morte tem sede
Da rede rasgar.
Teçamos, teçamos
Pra cedo acabar.
Uma voz
Eu sou o Spírito de Alegria,
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.
Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.
É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer pra não pensar, já não
Por duvidar – mas – oh, maior horror!
Por ver, por ver, por ver!
O animal teme a morte porque vive,
O homem também, e porque a desconhece.
Só a mim me é dado com horror
Temê-la por lhe conhecer a inteira
Extensão e mistério, por medir
O infinito seu de escuridão.
Não que a conheça, não, nem compreenda
Mas que como ninguém meço e compreendo
Toda a extensão do seu mistério negro.
Para esta minha dor não foram feitas
Palavras que expressem e nem mesmo
Sentimento que a sinta como tal.
Dor que transcende o verbo e o sentimento
Criando um sentimento para si
Do qual o Horror é apenas a aparência
Pensável e sensível do exterior.
Indefinível sentimento fundo
Que me foge quando eu a analisá-lo
Me preparo e só deixa como um rasto
Da fantásmica luz de escuridão
À qual cerrar os olhos d'alma tenho.
O horror cabe bem n'alma, mas aqui
Não me cabe uma alma neste horror. Além
Do vulgar medo à extinção suprema
Há a épica aceitação da morte
E além d'ambas este perder d'alma
Num escurecido e lúcido terror.
Já ouço o impetuoso
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja – que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir – ah, dormir! – num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra coisa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem dosséis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Dosséis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
Monólogo à Noite
Tenha eu a dimensão e a forma informe
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido (...)
E anuladamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu pra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ser infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...
Vejo que delirei.
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esp'rança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh, Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh, Fausto!
(Expira)
5 130
1
Bocage
Se é doce
Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
4 206
1
Fernando Pessoa
Quero dormir. Não sei se quero a morte,
Quero dormir. Não sei se quero a morte,
Nem sei o que ela é.
O que quero é não ser submisso à sorte,
Seja ela lei ou fé.
Quero poder nos campos prolongados
Meu ser abandonar
Aos seus verdes silêncios afastados,
Que amo só de os olhar.
Quero poder imaginar a vida
Como ela nunca foi,
E assim vivê-la, vívida e perdida,
Num sonho que nem dói.
Quero poder mudar o universo
De um para outro lado,
Como quem junta o seu viver disperso
E o ata com o fado.
Quero, por fim, ser coroado rei
Do nada a que enfim vou.
Será minha coroa o que serei,
E o ceptro o que sou.
26/08/1934
Nem sei o que ela é.
O que quero é não ser submisso à sorte,
Seja ela lei ou fé.
Quero poder nos campos prolongados
Meu ser abandonar
Aos seus verdes silêncios afastados,
Que amo só de os olhar.
Quero poder imaginar a vida
Como ela nunca foi,
E assim vivê-la, vívida e perdida,
Num sonho que nem dói.
Quero poder mudar o universo
De um para outro lado,
Como quem junta o seu viver disperso
E o ata com o fado.
Quero, por fim, ser coroado rei
Do nada a que enfim vou.
Será minha coroa o que serei,
E o ceptro o que sou.
26/08/1934
4 473
1
Fernando Pessoa
Ah, verdadeiramente a deusa! —
Ah, verdadeiramente a deusa! –
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com somente a adivinhar.
Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.
Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonha, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.
03/09/1934
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com somente a adivinhar.
Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.
Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonha, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.
03/09/1934
4 825
1
Vitorino Nemésio
Semântica Electrónica
Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!
2 015
1
Fernando Pessoa
Passa entre as sombras de arvoredo
Passa entre as sombras de arvoredo
Um vago vento que parece
Que não passou, que passa a medo,
Ou que há porque desaparece.
O ouvido escuta o não-ouvir,
A alma, no ouvido debruçada,
Sente uma angústia a não sentir
E quer melhor ou pior que nada.
É como quando a alma não tem
Quem ame, quem spere ou quem sinta,
Quando considera um bem
O próprio mal, desde que não minta.
E entre onde as sombras do arvoredo
Sequestram sons e brisas prendem,
Este não passar passa a medo
E certas folhas se desprendem.
Então porque há folhas que caem,
Volta a ilusão de haver o vento,
Mas elas, caindo hirtas, traem,
Que não há brisa no momento.
Oh, som sozinho dessa queda
Das folhas secas no ermo chão,
Oh, som de nunca usada seda
Apertada na inútil mão,
Com que terrível semelhança
A qualquer voz feita em bruxedo,
Lembrais a morte e a desesp'rança,
E o que não passa passa a medo.
18/10/1930
Um vago vento que parece
Que não passou, que passa a medo,
Ou que há porque desaparece.
O ouvido escuta o não-ouvir,
A alma, no ouvido debruçada,
Sente uma angústia a não sentir
E quer melhor ou pior que nada.
É como quando a alma não tem
Quem ame, quem spere ou quem sinta,
Quando considera um bem
O próprio mal, desde que não minta.
E entre onde as sombras do arvoredo
Sequestram sons e brisas prendem,
Este não passar passa a medo
E certas folhas se desprendem.
Então porque há folhas que caem,
Volta a ilusão de haver o vento,
Mas elas, caindo hirtas, traem,
Que não há brisa no momento.
Oh, som sozinho dessa queda
Das folhas secas no ermo chão,
Oh, som de nunca usada seda
Apertada na inútil mão,
Com que terrível semelhança
A qualquer voz feita em bruxedo,
Lembrais a morte e a desesp'rança,
E o que não passa passa a medo.
18/10/1930
4 764
1
Fernando Pessoa
O que é vida e o que é morte
O que é vida e o que é morte
Ninguém sabe ou saberá
Aqui onde a vida e a sorte
Movem as coisas que há.
Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer coisa aqui,
Terá de mim próprio o estigma
Da sombra em que eu o vivi.
10/04/1934
Ninguém sabe ou saberá
Aqui onde a vida e a sorte
Movem as coisas que há.
Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer coisa aqui,
Terá de mim próprio o estigma
Da sombra em que eu o vivi.
10/04/1934
4 681
1
Fernando Pessoa
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.
Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
07/07/1930
Que há entre a vida e a morte me perdi.
E o que, na vaga viagem, eu senti
Com exacta memória não o sinto.
Se quero achar-me em mim dizendo-o, minto.
A vasta teia, estive-a e não a vi.
Obscuramente me desconcebi.
07/07/1930
4 100
1
Fernando Pessoa
Parece que estou sossegando
Parece que estou sossegando
Estarei talvez para morrer.
Há um cansaço novo e brando
De tudo quanto quis querer.
Há uma surpresa de me achar
Tão conformado com sentir.
Súbito vejo um rio
Entre arvoredo a luzir.
17/03/1929
Estarei talvez para morrer.
Há um cansaço novo e brando
De tudo quanto quis querer.
Há uma surpresa de me achar
Tão conformado com sentir.
Súbito vejo um rio
Entre arvoredo a luzir.
17/03/1929
4 673
1
Fernando Pessoa
Há um frio e um vácuo no ar.
Há um frio e um vácuo no ar.
Stá sobre tudo a pairar,
Cinzento-preto, o luar.
Luar triste de antemanhã
De outro dia e sua vã
Sperança e inútil afã.
É como a morte de alguém
Que era tudo que a alma tem
E que não era ninguém.
Absurdo erro disperso
No spaço, água onde é imerso
O cadáver do universo.
É como o meu coração
Frio da vaga opressão
Da antemanhã da visão.
23/02/1932
Stá sobre tudo a pairar,
Cinzento-preto, o luar.
Luar triste de antemanhã
De outro dia e sua vã
Sperança e inútil afã.
É como a morte de alguém
Que era tudo que a alma tem
E que não era ninguém.
Absurdo erro disperso
No spaço, água onde é imerso
O cadáver do universo.
É como o meu coração
Frio da vaga opressão
Da antemanhã da visão.
23/02/1932
5 190
1
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