Escritas

Há um frio e um vácuo no ar.

Fernando Pessoa Ano: 605
Há um frio e um vácuo no ar.
Stá sobre tudo a pairar,
Cinzento-preto, o luar.

Luar triste de antemanhã
De outro dia e sua vã
Sperança e inútil afã.

É como a morte de alguém
Que era tudo que a alma tem
E que não era ninguém.

Absurdo erro disperso
No spaço, água onde é imerso
O cadáver do universo.

É como o meu coração
Frio da vaga opressão
Da antemanhã da visão.


23/02/1932
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