Morte e Luto

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O sino dobra a finados.

O sino dobra a finados.
Faz tanta pena a dobrar!
Não é pelos teus pecados
Que estão vivos a saltar.
1 527
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,

Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
        A arte, com que todos,
—  Ora sem saber  virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
        Chegada a morte, despi-la.
1 329
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IX - Coroai-me de rosas, [1]

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
        De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
        Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
        E basta.
1 364
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quê? Eu morrer?

Quê? Eu morrer?
Morrer? (...) onde centralizar
Sensação (...) e pensamento,
Suprema realidade, único Ser
Passar, deixar de ser! A consciência
Tornar-se inconsciente? E como? O Ser
Passar a Não-Ser? É impensável.
E contudo é impensável o Real.
— Vida (...) inconsciente —
E ela é o Real.
1 225
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tão linda e finda a memoro!

Tão linda e finda a memoro!
        Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
        Nas goelas do coração?
1 292
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém

Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém
Neste universo atomicamente falso?
1 474
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, o horror de morrer!

Ah, o horror de morrer!
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
1 389
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A terra é sem vida, e nada

A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
2 396
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Morto, hei-de estar a teu lado

Morto, hei-de estar a teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
1 340
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei se a alma no Além vive...

Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.
1 366
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Todos julgamos que seremos vivos depois de mortos.

Todos julgamos que seremos vivos depois de mortos.
Nosso medo da morte é o de sermos enterrados vivos.
Queremos ao pé de nós os cadáveres dos que amámos
Como se aquilo ainda fosse eles
E não o grande maillot interior que a nascença nos deu.
1 482
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E quando o leito estiver quase ao pé do tecto

E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
1 097
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olho os campos, Neera, [2]

Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.

Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
1 332
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

a morte, a incompreendida

a morte, a incompreendida
Revelação do mais que incompreendido
1 179
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Amanhã estas letras em que te amo

Amanhã estas letras em que te amo.
        Serão vistas, tu morta.
Corpo, eras vida para que o não foras,
        Tão bela! Versos restam.
Quem o (...)
1 326
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vou dormir, dormir, dormir,

Nirvana

Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.

Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.

Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
1 829
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Floresce em ti, ó magna terra, em cores

Floresce em ti, ó magna terra, em cores
A vária primavera, e o verão vasto,
        E os campos são de alegres.
Mas dorme em cada campo o outono dele
O inverno cresce com as folhas verdes
        Tudo será esquecido.
1 266
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cantos, risos e flores alumiem

Cantos, risos e flores alumiem
        Nosso mortal destino,
Para o ermo ocultar fundo, nocturno
        De nosso pensamento,
Curvado, já em vida, sob a ideia
        Do plutónico gozo,
Cônscio já da lívida esperança
        Do caos redivivo.
1 445
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Como este infante que alourado dorme

Como este infante que alourado dorme
        Fui. Hoje sei que há morte.
Lídia, há largas taças por encher
        Nosso amor que nos tarda.
        Qualquer que seja o amor ou as taças, breve
          Ajamos. Teme e desfruta.
1 210
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Amo o que vejo porque deixarei

Amo o que vejo porque deixarei
        Qualquer dia de o ver.
        Amo-o também porque é.

No plácido intervalo em que me sinto,
        Do amar, mais que ser,
        Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
        Os primitivos deuses,
        Que também, nada sabem.
1 696
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O relógio de sol partido marca

O relógio de sol partido marca
Do mesmo modo que o inteiro o lapso
        Da mesma hora perdida…
O mesmo gozo com que esqueço, ou o creio,
A vida, finda, me a mim mesmo mostra
        Mais fatal e mortal,
Para onde quer que siga a certa noite
        Quer ou não a vejamos.
1 493
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nada fica de nada. Nada somos. [1]

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
        Da húmida terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
        Poente, porque não elas?
Somos contos contando contos, nada.
967
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O FUTURO

O FUTURO

Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.

Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
Não é uma presença; é um frio e um medo.
O mistério da morte a mim o liga.

Ao [...] fim do meu poema.
3 376
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tudo transcende tudo

Tudo transcende tudo
E é mais real e menor do que é.

Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.

Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
1 438