Corpo

Poemas neste tema

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pedra Plana,…

Pedra plana, quase escrita e indelével, e a pulsação plana aflora o corpo e a frase estala, pedra e toalha, sinal vivo do caminho que não espera, que avança como se o mar aflorasse e o corpo vivo chegasse ao cimo da água, à frase sem memória, fonte de desejo.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Os Primeiros Sinais Diferentes…

Os primeiros sinais diferentes no caminho, as sombras que afloram nas pedras escritas, nomes de nenhuma boca mas que aliciam a boca, a aligeiram até à saliva salva como a água do encontro entre boca e boca, palavra e palavra, pulso e terra.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

16. Tecida a Paciência do Tecido

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Tecida a paciência do tecido
se escrevo o tempo exíguo
e ela dança sem lâmpada sem véus.

Vermelha a lança a nascer da perna
volumosa e dura sem face
figura de alta árvore
e obscena sóbria sem folhagem.

Ela dupla na marcha sobre
a pedra e pedra bem de pedra
o taco do tacão negro
tornando a perna incorruptível
pedra branca.
935
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

14. Este (Aqui Formulado) Sobre Os Cílios

14
Este (aqui formulado) sobre os cílios
ou as pestanas pretas pretas mesmo
sob o deserto dele, a casa nuvem.

Terra (designação que nega) areia
do grito das pestanas, cílios sérios,
adormecendo a noite da folhagem.

Arranca à aragem o perfume sóbrio
desses cílios negros cílios
e colhe aí a perfumada imagem.
989
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

8. E Boca Ou Acidente de Palavra

8
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.

Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.

Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Não Ardente

O corpo não ardente
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada

No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar

A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Eis a Primeira Proposição Clara

Eis a primeira proposição clara
a que trouxe o vinho e o cristal da terra

Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva

Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
923
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aqui Se Abre Um Parêntese

Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas

Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou

Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
915
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vem de Noite É Um Murmúrio

Vem de noite é um murmúrio
na mão sobre a areia

Vem não um volume aceso
mas quem o lê na folha quem
o transforma
nos sinais que buscam a imagem
que a outra boca
muda
modela
no próprio corpo diverso e semelhante
à sua imagem

Vem com a lâmpada da terra
e o sabor às raízes e aos dentes no deserto
na aridez que inflama os seus sinais
938
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Se Existe Uma Figura Ela É Volátil

Se existe uma figura ela é volátil
feita do próprio ar
e da lacuna
que é o centro do vácuo do estar
e se a figura dança ainda é
uma figura de ar
que enlaça o ar do corpo
o corpo todo ar
945
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fina Nobreza de Ombros Que Persigo

Fina nobreza de ombros que persigo
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura

E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
800
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Cabelos São Os Teus Cabelos As Tuas Mãos

Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água

Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer
1 009
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Avanço No Silêncio Como Um Sopro

Um avanço no silêncio como um sopro
frígido da avidez do ar
um caminhar no horizonte do mar
um corpo com novos lábios dentes frescos
a inocência de um silêncio de água
o olhar ao nível só do ar
a língua saboreando o sol e o ar
um fulgor ávido entre o corpo e o espaço
970
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Conduz a Mão

Conduz a mão
a negro
vela plástica
rugosa e larga grave
ó boca que
te entreabres
devagar e sobre a perna
silenciosa Soberba linha que
se fez trave
e torno
e dói de ser
torso da latitude pura e alta

lâmina quente
gume cume gomo
coxas para envolver cabeças braços
um arranque total
o ser no vértice
do chão
892
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Refaz a Pequena Chama da Montanha

Refaz a pequena chama da montanha
refaz a ardente fuga dos flancos
chama os joelhos e as nádegas sob as ondas

Chama e refaz o rosto sob as máscaras
na nudez sem perdão no perdão da nudez
reclama outro nome outra música outras pedras
Deita-te sobre os seios e o sexo da terra
1 210
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Alta No Chão

Alta no chão,
ainda há pouco erguida.
Agora lâmina,
lenha penetrável,
ardente, cega.

Rastejante boca
que a língua me inunda.
985
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Paixão do Ar

Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre

Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama

Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil

O fogo flexível.
514
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Face do Ar

O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.
985
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para Vir Aqui

Para vir aqui, de longe, a este sol da casa.

Para esta casa do corpo — tão de longe.

Chegar à casa onde estou,
olhos da face, ver à beira
da casa o sol da casa
tão perto     e longo
o sol da face, o corpo
tão perto — e de tão longe.
996
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Velocidade

a manhã     a moeda crespa
o princípio duma torre     o peito rude
um boi na estrada
os pés     as mãos     um tronco     a ponte
o corpo     a terra
a mulher atravessada     a raiva
a parede     a sombra     o peito
o corpo
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Coexistência No Muro

A boca inerte na parede,
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.

A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.

Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
982
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Objecto

Nascer com ele,
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.

Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.

Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.

Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.

Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
967
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho de Ti, Em Ti

Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente.

A alta fenda do ar que se me abre.

A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.

Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.

Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sugaï

Conter-te, corpo liso,
que o vento dê na face,
que os dedos tenham olhos,
que a boca sopre: folha.

Abraçar-te sem braços,
ó poço aberto e liso,
ó olho perfumado,
tapete e alga e prado.

Três traços verticais.
Um gesto feito em pele.
Uma certeza de osso
(sem sombra nem desgosto).
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