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Poemas neste tema

Lya Carvalho Jardim

Lya Carvalho Jardim

A Casa

Uma casa deve ser ampla
com janelas abertas
sem trancas
espaçosa como um coração.
Onde sempre caberá mais um.
Uma casa além de madeira e vidraça
tem que ter a medida certa dos carinhos
Além de concreto e massa
uma casa é feita de riso e graça
A arquitetura fica a cargo da emoção
Tem que ter espaço cativo
para livros
Aconchego para os amigos
Lugar exclusivo para flor
Não poderá faltar varanda
para as redes
Nem teto de vidro
para se mirar a lua
Muitas janelas para o vento entrar
Muitos mirantes para se ver a chuva
Uma casa bonita
se faz com relativa paz
tonelas de alegrias
Com tijolos de antigamente
argamassa de ternura
Uma casa se constrói
como a um filho
É preciso uma fértil imaginação
algumas canções
Sonhos da infância
muitos balões
Uma casa tem que ter brando afeto
gosto de festas
jeito de quem vive eternamente
na primavera
Se constrói uma casa
com fios de sol
com pingos de lua
com chão de estrelas
e muita doçura
Uma casa tem que ter
cheiro de campo
som de pássaro em árvores
ruído de água saindo da fonte
Arco-íris de tintas
Uma casa se constrói
com pedras brutas e alegorias
com vitórias-régias nas banheiras
cachoeiras nas pias
ondas do mar no quintal
tapetes de musgos pelas salas
candelabros de prilampos
Volutas de amor-perfeito
Portal de saudades
colunas de alegrias
Uma casa se constrói
para que caibam nela
discos
amigos
sonhos
filhos
tudo que é carinho
todas as vidas
todos os caminhos
Uma casa se constrói
dentro de um jardim
o jardim dentro da vida
a vida dentro dos sonhos
os sonhos dentro de nós.

793 1
Lisa Lago

Lisa Lago

Beijo

Uma batida rouca
na porta da noite escura
de bares fechados
e mesas vazias

As mesas falam, sabia?
As cadeiras dançam
e os copos se beijam
quando brindam

O seu olhar fala
mudo, discreto e sensível
dentro de minha boca fechada
por medo de sorrir

828 1
Gláucia Lemos

Gláucia Lemos

Poema para um Domingo

Um roupão amarelo, um abajur
um anjo de bronze sustentando a luz.
Um livro aberto e um blues.

A noite de um domingo.
E o show da solidão se repetindo.

Um cobertor de madras escocesas
uma lembrança de um beijo nos lábios
e uma certeza.

Este sempre espetáculo domingueiro
com luzes de néon ferindo o vidro
caindo no travesseiro.

Ao som do vento as esquadrias gemem.
Quando acontoecerá a última cena?

...Se os ponteiros não param essa ciranda.

(07.06.96)

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Leda Costa Lima

Leda Costa Lima

Trabalhando a Terra

Descendo o barranco,
trilhando o caminho
— caminho de barro,
poeira, cascalho,
vou rumo ao trabalho,
ó vale deserto,
ó vale coberto,
por nuvens de fé!
Porei grãos no seio
da terra-promessa,
da terra-esperança!

Meus campos cultivo,
eu planto, semeio,
trabalho cativo!
Enterro a semente
— semente tão frágil
que quer germinar!
Na minha labuta,
meu corpo na luta,
cavando, cavando,
assim vai jorrando,
suor do meu rosto!

Incrível batalha!
Trabalho com gosto,
o arado trabalha
a terra que geme,
a terra que trema,
que quer florescer!
E a máquina ágil
trabalha feroz,
febril, tão veloz!
O solo enobrece
e a planta floresce!

1 090 1
Lauro Leite

Lauro Leite

Ironia Lúcida

Agora é tempo de sorrir
e ser de novo
o garoto das compras e dos recados

Agora é tempo de fingir
que nada valem
os eternos fundilhos remendados,

Agora é tempo de esquecer as lágrimas
— engoli-las de uma vez! —
e voltar à surdez da ignorância,
pois já me afogo em tanta ironia,
pois não suporto ter-me em consciência
e já não quero amar-me em lucidez.

Vinde a mim
as velas coloridas
que aportam às prostitutas
do Desterro.

Abram os caminhos:
quero falar com a Mãe de Deus
e receber a unção
da ansiedade
e da poesia.

Calem, por favor,
as radiolas regueiras;
quero ouvir o boi-bumbá
e o criola,
quero rodopiar o corpo
no balé negreiro.

Agora, tragam a rede
que o poeta vai dormir
com o sonhar afoito
das gentes maranhenses
e o cor o cansado do viver intenso.

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Horácio Dídimo

Horácio Dídimo

As Doces Meninas de Outrora

as doces meninas de outrora
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores

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Ildásio Tavares

Ildásio Tavares

Canto do Homem Cotidiano

Eu canto o homem vulgar, desconhecido
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O play-boy das mariposas
O imperador da contabilidade.

Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.

Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.

Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.

Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.

Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.

Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.

Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.

Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.

Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.

Esse que joga pelada
E é craque da canelada.

Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.

Esse que agüenta o rojão
Pro filho ter instrução.

Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.

Esse que vejo na rua
Falando da ida a lua.

Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor
(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E, inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,

Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.

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Hemetério Cabrinha

Hemetério Cabrinha

Quem Fui e o Que Serei

Fui húmus, fui cristal, fui pedra bruta,
E nas substâncias da matéria inerme,
Vim desde a vibração ao paquiderme,
Após milhões de séculos de luta.

Monera, larva, lama, lêsma, verme
Fui, (para a expansão da Causa Absoluta
De onde a vida nos corpos se transmuta)
Até sentir calor na minha derme.

Na transcendente hereditariedade,
A minha rude personalidade
Chegou a ser o que é na vida hodierna...

E daqui para além irei seguindo,
Evoluindo sempre, evoluindo
Até chegar à Perfeição Eterna.

785 1
Guimarães Rocha

Guimarães Rocha

Sertanejo

O Sertanejo é cabra forte
Rijo e de bom coração
Não tem sobroço de morte
Nem pede aumento ao patrão.

Vive Calado e tem fé
Os pés descalços no chão
Tem carinhos na mulher
Cuida bem de plantação.

Não sabe falar bonito
Mas faz bela louvação
Reza ao seu São Benedito
Pra chover no seu sertão.

Se chove é homem feliz
Rico de milho e feijão
A ninguém um não não diz
Garante o pão da Nação.

Mesmo assim é desprezado
Sofre troça e mangação
Vive só e abandonado
Curtindo a desilusão.

Sertanejo fala manso
Ninguém lhe dá atenção
Vive apenas de esperança
Pois ninguém lhe estende a mão.

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Capinan

Capinan

Poeta e Realidade

III
(Outra Didática)

Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.

Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.

Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.

Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.

VI
(A viagem lúcida)

De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.

Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.

Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.

Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.

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Florisvaldo Mattos

Florisvaldo Mattos

Galope Amarelo

Quando ele voltou
a moça do portão estava casada
o prefeito era uma cruz e uma placa
as aves mudaram de itinerário
como os ônibus
o irmão mais moço tomava ópio
para esquecer.

Quando ele voltou
o empregado da esquina respondera
a um processo
onde perdera a esperança e os dedos
o pai fuzilara um estudante
a mãe fugira com um mascate.

Quando ele partiu
a primavera galopava nos rosais
os campos de begônias floresciam
o gado esturrava nos currais
a terra desafiada vicejava como
uma égua na véspera do galope.

Quando ele partiu
o alimento dos olhos era a verdura
de paisagem além da cerca
as goiabas enchiam os cestos
as mulheres voltavam com os meninos
os velhos falavam de assombração
a lua espreitava o pátio e o quintal.

Quando ele voltou
o ministro citava o arquiteto
com a pretensão de restaurar
tempo à revelia dos relógios
o muro substituía o horizonte
as autoridades sonolentas distribuíam
o passaporte dos homens para o sanatório
quando ele voltou
as leis se haviam tornado ainda mais fósseis
as oligarquias muito mais poderosas
os poderosos mais astutos
o ministro lembrava a pá sob os escombros,
o menino relia as manchetes da guerra
os preconceitos rimavam com a economia.

Quando ele voltou
havia uma encruzilhada e um alto-falante
a moça do portão estava casada
o irmão caçula era um soldado velho
Quando ele partiu
a primavera galopava nos rosais,
Quando ele voltou
o céu era só um galope amarelo,

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Fahed Daher

Fahed Daher

Mulher

Você surgiu
do fundo dos tempos,
obra prima de Deus.
Não sei se da costela de um Adão,
ou da sublimidade de uma estrela,
ou a primata em plena evolução...
Mas em você o mundo se revela.
Foi o fogão, foi o tanque,
a lenha, o tacho...
Foi o filho, a cama, o riso
para o macho...
Ombros estreitos,
longos cabelos,
traz nos seus peitos
tantos desvelos.
O século passou
e o homem não ergueu
o templo da bonança
que um dia prometeu.
A máquina chamou você,
você atendeu,
entrou na produção, tambem,
e ali cresceu.
Lá no banco é o seu sorriso,
no escritório a sua graça,
no volante o seu juizo,
que linda você na praça.
Arquiteta, enfermeira,
empresária, motorista,
doméstica, lavadeira...
Você tem alma de artista.
Mulher do mundo moderno,
seja lá você o que for,
não há nada mais eterno
que o fogo do seu amor.
Não deixe que se perca no serviço
o frescor deste amor, sublime viço;
buscando nessa luta a nova trilha,
não esqueça que é a base da família.
Unindo a máquina ao beijo,
a pá unida à doçura,
o ideal ao desejo,
a garra unida à ternura...
Será tão belo, por certo,
o mundo que está por vir.
Se nesse mundo eu desperto,
eu só quero lhe servir.

Apucarana,CP

794 1
Guilhermino César

Guilhermino César

Campeiro de Minas Gerais

Campeiro mulato de sol
Você que dormiu
sem medo de bruxos, sacís-pererês
botando a cabeça fervendo de amores
no couro estendido...
Você não ouve ali perto
de dia de noite
a barulheira da boca da mina?

São filhos da nossa terra também.
Largaram a boiada no morro
serenatas nas ruas familiares
e foram pra noite de ferros tinindo
procurar a lua de metal
escondida nas montanhas duras
saltando depois nos cadinhos...

Você não está ouvindo o ruído dos pilões na baixada
triturando a pedra que vem do fundo
nos vagonetes ligeiros ?

E aquele suor que os companheiros estão suando...
A gente pensa que é sangue
mineiro campeiro!
Eles deixaram a casa sonhando riqueza
e agora estão magros e feios.

Como você dorme bem
cansado das lidas campeiras.
Eles nem podem dormir sossegados:
a mina não fica sozinha um momento.
Mineiros que saem
mineiros que vêm
as máquinas sempre rodando.

Campeiro queimado de sol
vai ver o trabalho dos seus companheiros
nas galerias de ar frio
na noite constante!
Mineiro das minhas Gerais
você não acorda?
Vai ver o trabalho dos outros mineiros
dos mineiros-mineiros enterrados na mina
ouvindo os patrões em fala estrangeira.

919 1
Domingos Carvalho da Silva

Domingos Carvalho da Silva

Na Despedida de Ignez

Estão mudos os poemas,
não tenho mais tua voz para cantá-los.
O som corre vazio nas palavras
sem que teus ouvidos possam dar-lhes vida.
A luz se extingue,
pois tuas pálpebras estão cerradas para o sol
e em teus olhos
cresceu a longa treva sem a espera
do alvorecer.

Os rios não mais são necessários,
pois já não corre tua memória em suas águas.
Já não são necessários os caminhos,
que não mais poderão seguir-te os passos.
O livro que lias não chegou
a abrir a última folha,
as teclas do piano esperam esquecidas
o afago vibrante de tuas mãos,
que libertavam das pautas a harmonia.

Perdeu nossa casa a presença grácil
da castelã medieva,
o perfil de virtude
da senhoril esposa
romana.

Na face e nos lábios de pétalas dobradas
vi-te partir mais bela
que as rosas da manhã:
as últimas que te ornaram
foram cumprir contigo o teu silêncio.

1 140 1
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Terraplanagem

A máquina amarela
range-range, sobe o morro,
trabalhando a terra
que se esfarela.

A terra é chão e solo,
estrada, poeira e pó.
A terra é campo
de verdes verduras,
árvores, troncos, cipó.
A terra é barro, argila
para tijolos e esculturas.

Penso na terra
que se esfarela
ao peso da máquina amarela:
— A terra trabalha também
para alimentar as raízes,
produzir minérios,
sustentar os montes,
as flores, os frutos
e a água das fontes.

1 516 1
Cora Coralina

Cora Coralina

A gleba me transfigura

Sinto que sou abelha no seu artesanato.
Meus versos tem cheiro de mato, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
(...)
Minha identificação profunda e amorosa
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros.
O roncar e focinhar dos porcos o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir do cães,
eu me identifico.
Sou arvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto sou mato, sou paiol
e sou a velha tulha de barro.

pela minha voz cantam todos os pássaros,
piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que
vão pelas estradas.
Sou espiga e o grão que retornam a terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos tem relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
(...)
Amo aterra de um velho amor consagrado.
Através de gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
(...)
Em mim a planta renasce e flosrece, sementeia e sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retorna à terra.
Minha pena é enxada do plantador, é o arado que vai sulcando.
Para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada
e fecundada no ventre escuro da terra.

4 470 1
Alexandre Dáskalos

Alexandre Dáskalos

Carta

Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo pra sofrer
Boca Para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica jeito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois ... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum ...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pai da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.

1 963 1
Carlos Dantas

Carlos Dantas

Ofertório

DAR-TE-EI
o sol vermelho pulsante
que em meu cerne habita,
qual riacho de luz
a procura de um mar-de-prata !

908 1
António Cardoso

António Cardoso

Autocrítica

Aqui, a sós.
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...

Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)
A certeza da vitória
Nesta rota...

Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!

Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
– ah! minhas palavras minhas!

1 014 1
Castro Alves

Castro Alves

Lucas

QUEM FOSSE naquela hora,
Sobre algum tronco lascado
Sentar-se no descampado
Da solitária ladeira,
Veria descer da serra,
Onde o incêndio vai sangrento,
A passo tardio e lento,
Um belo escravo da terra
Cheio de viço e valor...
Era o filho das florestas!
Era o escravo lenhador !
Que bela testa espaçosa,
Que olhar franco e triunfante!
E sob o chapéu de couro
Que cabeleira abundante!
De marchetada jibóia
Pende-lhe a rasto o facão...
E assim... erguendo o machado
Na larga e robusta mão...
Aquele vulto soberbo,
— Vivamente alumiado, —
Atravessa o descampado
Como uma estátua de bronze
Do incêndio ao fulvo clarão.

Desceu a encosta do monte,
Tomou do rio o caminho...
E foi cantando baixinho
Como quem canta pra si.

Era uma dessas cantigas
Que ele um dia improvisara,
Quando junto da coivara
Faz-se o Escravo — trovador.

Era um canto languoroso,
Selvagem, belo, vivace,
Como o caniço que nasce
Sob os raios do Equador.

Eu gosto dessas cantigas,
Que me vem lembrar a infância,
São minhas velhas amigas,
Por elas morro de amor...

Deixai ouvir a toada
Do — cativo lenhador —

E o sertanejo assim solta a tirana,
Descendo lento pra a servil cabana...

4 017 1
Castro Alves

Castro Alves

O Vidente

Virá o dia da felicidade
para todos.
(Isaías)
Às vezes quando à tarde, nas tardes brasileiras,
A cisma e a sombra descem das altas cordilheiras;
Quando a viola acorda na choça o sertanejo
E a linda lavadeira cantando deixa o brejo,
E a noite - a freira santa - no órgão das florestas
Um salmo preludia nos troncos, nas giestas;
Se acaso solitário passo pelas picadas,
Que torcem-se escamosas nas lapas escarpadas,
Encosto sobre as pedras a minha carabina,
Junto a meu cão, que dorme nas sarças da colina,
E, como uma harpa eólia entregue ao tom dos ventos
- Estranhas melodias, estranhos pensamentos,
Vibram-me as cordas dalma enquanto absorto cismo,
Senhor! vendo tua sombra curvada sobre o abismo,
Colher a prece alada, o canto que esvoaça
E a lágrima que orvalha o lírio da desgraça,
Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus.
E o vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!

Ouço o cantar dos astros no mar do firmamento;
No mar das matas virgens ouço o cantar do vento,
Aromas que selevam, raios de luz que descem,
Estrelas que despontam, gritos que se esvaecem,
Tudo me traz um canto de imensa poesia,
Como a primícia augusta da grande profecia;
Tudo me diz que o Eterno, na idade prometida,
Há de beijar na face a terra arrependida.
E, desse beijo santo, desse ósculo sublime
Que lava a iniqüidade, a escravidão e o crime,
Hão de nascer virentes nos campos das idades,
Amores, esperanças, glórias e liberdades!
Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus,
O vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!

E, ouvindo nos espaços as louras utopias
Do futuro cantarem as doses melodias,
Dos povos, das idades, a nova promissão...
Me arrasta ao infinito a águia da inspiração ...
Então me arrojo ousado das eras através,
Deixando estrelas, séculos, volverem-se a meus pés...
Porque em minhalma sinto ferver enorme grito,
Ante o estupendo quadro das telas do infinito...
Que faz que, em santo êxtase, eu veja a terra e os céus,
E o vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!

Eu vejo a erra livre... como outra Madalena,
Banhando a fronte pura na viração serena,
Da urna do crepúsculo, verter nos céus azuis
Perfumes, luzes, preces, curvada aos pés da cruz...
No mundo - tenda imensa da humanidade inteira
Que o espaço tem por teto, o sol tem por lareira,
Feliz se aquece unida a universal família.
Oh! dia sacrossanto em que a justiça brilha,
Eu vejo em ti das ruínas vetustas do passado,
O velho sacerdote augusto e venerado
Colher a parasita - a santa flor - o culto,
Como o coral brilhante do mar na vasa oculto...
Não mais inunda o templo a vil superstição;
A fé - a pomba mística - e a águia da razão,
Unidas se levantam do vale escuro dalma,
Ao ninho do infinito voando em noite calma.
Mudou-se o férreo cetro, esse aguilhão dos povos,
Na virga do profeta coberta de renovos.
E o velho cadafalso horrendo e corcovado,
Ao poste das idades por irrisão ligado
Parece embalde tenta cobrir com as mãos a fronte,
- Abutre que esqueceu que o sol vem no horizonte.
Vede: as crianças louras aprendem no Evangelho
A letra que comenta algum sublime velho,
Em toda a fronte há luzes, em todo o peito amores,
Em todo o céu estrelas, em todo o campo flores ...
E, enquanto, sob as vinhas, a ingênua camponesa
Enlaça às negras tranças a rosa da deveza;
Dos saaras africanos, dos gelos da Sibéria,

Do Cáucaso, dos campos dessa infeliz lbéria,
Dos mármores lascados da terra santa homérica,
Dos pampas, das savanas desta soberba América
Prorrompe o hino livre, o hino do trabalho!
E, ao canto dos obreiros, na orquestra audaz do malho,
O ruído se mistura da imprensa, das idéias,
Todos da liberdade forjando as epopéias,
Todos coas mãos calosas, todos banhando a fronte
Ao sol da independência que irrompe no horizonte.

Oh! escutai! ao longe vago rumor se eleva
Como o trovão que ouviu-se quando na escura treva,
O braço onipotente rolou Satã maldito.
É outro condenado ao raio do infinito,
É o retumbar por terra desses impuros paços,
Desses serralhos negros, desses Egeus devassos,
Saturnos de granito, feitos de sangue e ossos...
Que bebem a existência do povo nos destroços ...

..........................................................................

Enfim a terra é livre! Enfim lá do Calvário
A águia da liberdade, no imenso itinerário,
Voa do Calpe brusco às cordilheiras grandes,
Das cristas do Himalaia aos píncaros dos Andes!
Quebraram-se as cadeias, é livre a terra inteira,
A humanidade marcha com a Bíblia por bandeira-.
São livres os escravos... quero empunhar a lira,
Quero que estalma ardente um canto audaz desfira,
Quero enlaçar meu hino aos murmúrios dos ventos,
Às harpas das estrelas, ao mar, aos elementos!

.............................................................

Mas, ai! longos gemidos de míseros cativos,
Tinidos de mil ferros, soluços convulsivos,
Vêm-me bradar nas sombras, como fatal vedeta:
"Que pensas, moço triste? Que sonhas tu, poeta?"
Então curvo a cabeça de raios carregada,
E, atando brônzea corda à lira amargurada,
O canto de agonia arrojo à terra, aos céus,
E ao vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!

4 476 1
Bento Prado Júnior

Bento Prado Júnior

A Lua-Cheia

Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...

Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...

A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!

A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!

Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...

Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...

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Bento Prado Júnior

Bento Prado Júnior

Casa Destelhada

A casa é um templo humilde, em cujo tecto
há goteiras que choram, noite e dia;
o seu recinto todo está repleto
do verde musgo, que a humanidade cria.

Oculta um monge de sereno aspecto
na solidão do templo, a luz sombria.
Vota-lhe o monge singular afeto,
que lhe aviventa a fonte da poesia.

Nunca lhe entre os humbrais alma profana!
Lugar tão venerando dessa forma,
ofendê-lo-á, por certo, a vista humana!

Pois se procede, nesse ambiente sério,
ao milagre da dor, que se transforma,
no cadinho do amor, em refrigério...

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António Arnaut

António Arnaut

Portucale

As montanhas abrem alas. Vai passar
o rio douro da lusa madrugada.
Ansias em socalcos sobre o vale
a saudar
o começo da vida:
Portucale
não é porto de chegada,
é o sal
e a fome aventurosa da partida.

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