Escritas

Ironia Lúcida

Lauro Leite
Agora é tempo de sorrir
e ser de novo
o garoto das compras e dos recados

Agora é tempo de fingir
que nada valem
os eternos fundilhos remendados,

Agora é tempo de esquecer as lágrimas
— engoli-las de uma vez! —
e voltar à surdez da ignorância,
pois já me afogo em tanta ironia,
pois não suporto ter-me em consciência
e já não quero amar-me em lucidez.

Vinde a mim
as velas coloridas
que aportam às prostitutas
do Desterro.

Abram os caminhos:
quero falar com a Mãe de Deus
e receber a unção
da ansiedade
e da poesia.

Calem, por favor,
as radiolas regueiras;
quero ouvir o boi-bumbá
e o criola,
quero rodopiar o corpo
no balé negreiro.

Agora, tragam a rede
que o poeta vai dormir
com o sonhar afoito
das gentes maranhenses
e o cor o cansado do viver intenso.

358 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment