Angústia

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

quanto mais palavras saem de minha boca

quanto mais palavras saem de minha boca
mais me dou conta de que não sou eu que falo
pois o que penso não tem nada a ver
e o que faço já é outro papo
e o que pareço já nem sei contar
1 074
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Assassinato de Simonetta Vespucci

Homens
No perfil agudo dos quartos
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.

Vê como as espadas nascem evidentes
Sem que ninguém as erguesse — de repente.

Vê como os gestos se esculpem
Em geometrias exactas do destino.

Vê como os homens se tornam animais
E como os animais se tornam anjos
E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo.

Vê como pairam longamente os olhos
Cheios de liquidez, cheios de mágoa
De uma mulher nos seus cabelos estrangulada.

E todo o quarto jaz abandonado
Cheio de horror e cheio de desordem.
E as portas ficam abertas,
Abertas para os caminhos
Por onde os homens fogem,
No silêncio agudo dos espaços,
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
1 601
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não devia te contar

não devia te contar
mas se você guardar segredo
eu revelo este meu medo
de não saber amar


não devia te amar
mas se você guardar meu medo
eu revelo este segredo
que não sei contar
1 009
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Manhã Estática Parada

Entre o Tejo azul e a Torre branca
Que branca e barroca sobe das águas

Manhã acesa de silêncio e louvor
Na breve primavera violenta
Assim a minha vida que era calma

De repente se tornou ânsia e saudade

Mas a brisa da varanda é doce e suave
Um pássaro canta porque alguém regou
Maio de 2000
1 219
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xv. Inversa Navegação

Inversa navegação
Tédio já sem Tejo
Cinzento hostil dos quartos
Ruas desoladas
Verso a verso
Lisboa anti-pátria da vida
1978
1 134
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dual

Dois cavalos a par eu conduzia
Não me guiava a mim mas meus cavalos

E no país de espanto e de tumulto
Em mim se desuniu o que eu unia
1 157
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Maria Helena Vieira da Silva Ou o Itinerário Inelutável

Minúcia é o labirinto: muro por muro
Pedra contra pedra livro sobre livro
Rua após rua escada após escada
Se faz e se desfaz o labirinto
Palácio é o labirinto e nele
Se multiplicam as salas e cintilam
Os quartos de Babel roucos e vermelhos
Passado é o labirinto: seus jardins afloram
E do fundo da memória sobem as escadas
Encruzilhada é o labirinto e antro e gruta
Biblioteca rede inventário colmeia —
Itinerário é o labirinto
Como o subir dum astro inelutável —
Mas aquele que o percorre não encontra
Toiro nenhum solar nem sol nem lua
Mas só o vidro sucessivo do vazio
E um brilho de azulejos íman frio
Onde os espelhos devoram as imagens

Exauridos pelo labirinto caminhamos
Na minúcia da busca na atenção da busca
Na luz mutável: de quadrado em quadrado
Encontramos desvios redes e castelos
Torres de vidro corredores de espanto

Mas um dia emergiremos e as cidades
Da equidade mostrarão seu branco
Sua cal sua aurora seu prodígio
1 285
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caxias 68

Luz recortada nesta manhã fria
Muros e portões chave após chave
O meu amor por ti é fundo e grave
Confirmado nas grades deste dia
Fevereiro de 1968
1 162
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Exílio

Exilámos os deuses e fomos
Exilados da nossa inteireza
1 137
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vii. de Novo Em Delphos o Python Emerge

De novo em Delphos o Python emerge
Do sono sob os séculos contido
As águias afastaram o seu voo
Só as abelhas zumbem ainda no flanco da montanha seu vozear de bronze
Sob negras nuvens e mórbidos estios o Python emerge
A ordem natural do divino é deslocada
De novo cresce o poder do monstruoso
De novo cresce o poder do «Apodrecido»
De novo o corpo de Python é reunido
Nenhum deus respira no respirar das coisas
As máquinas crescem o Python emerge
Sob o húmido interior da terra movem-se devagar os seus anéis
Ventos da Ásia em sua boca trazem
O estridente clamor da fúria tantra
Tudo vai rolar na violência do instante
Nenhuma coisa é construída em pedra
1 099
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Semi-Rimbaud

Seu rosto é uma caverna
Onde frios ventos cantam

Passa rasgando o luar
E desesperando a noite

Pelas ruas oblíquas da cidade
Em madrugadas duvidosas
Constrói o mal com gestos cautelosos
E sonha a inversão total das coisas

Constrói o mal com gestos rigorosos
Lúcido de vício e de noitada
Íntegro como um poema
Completo lógico sem falha

A aurora desenha o seu rosto com os dedos
As suas órbitas iguais às das caveiras
Seu rosto voluntário e inventado
Magro de solidão verde de intensa
Vontade de negar e não ceder

De caminhar de mão dada com o nojo
De ser um espectro para terror dos vivos
E uma acusação escrita nas paredes.
1 215
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Néon

Luz descerrada e crua
Que não rodeia as coisas
Mas as desventra
De fora para dentro

Espaço de uma insónia sem refúgio

Tudo é como um interior violado
Como um quarto saqueado

Luz de máquina e fantasma
1 413
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esquemáticos Caminhos

De múltiplas esperas.
Que abandono divide
A minha alma em dois?

Dois que se combatem
Irmãos e diversos
Tão alheios que
Sem amor se conhecem.

Intacto rosto
Mas tão perdido agora
Na infinita noite
Do tempo que pára.

Esperança e demora
Entre duas luas
Caminhei suspensa.

No rosto dos barcos
Perdi os meus gestos
E o vento cortou
A minha face em dois
Rostos vãos e dispersos.

Ó náufragos azuis enrolados
Em colunas de sal e de corais
E algas verdes e mastros quebrados
Que gemem como pinhais.

Ó quanto vos vejo porque estais
Onde se vive sem memória alguma
E todo o pensamento e toda a posse
São desfeita espuma.
1 027
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidade

As ameaças quase visíveis surgem
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
1 452
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quadro

Indeciso ressurge do poente
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido

Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos

Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.
1 198
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. Inverno

Parece que eternamente sobre a terra
Choverá desolação e frio
A mesma neve de horror desencarnada
A mesma solidão dentro das casas
1 326
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senhor

Senhor se eu me engano e minto,
Se aquilo a que chamei a vossa verdade
É apenas um novo caminho da vaidade,
Se a plenitude imensa que em mim sinto,
Se a harmonia de tudo a transbordar,
Se a sensação de força e de pureza
São a literatura alheia e o meu bem-estar,
Se me enganei na minha única certeza,
Mandai os vossos anjos rasgar
Em pedaços o meu ser
E que eu vá abandonada
Pelos caminhos a sofrer.
816
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Às Vezes Julgo Ver Nos Meus Olhos

A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
1 112
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Tempo Dividido

E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.
1 802
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nevoeiro

Quem poderá saber que estranha bruma
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.

Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.

Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
1 650
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. Na Minha Vida Há Sempre Um Silêncio Morto

Na minha vida há sempre um silêncio morto
Uma parte de mim que não se pode
Nem desligar nem partir nem regressar
Aonde as coisas eram uma intimamente
Como no seio morno de uma noite
1 306
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ir Beber-Te Num Navio de Altos Mastros

No mar alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.

Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
1 137
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. As Paredes São Brancas E Suam de Terror

As paredes são brancas e suam de terror
A sombra devagar suga o meu sangue
Tudo é como eu fechado e interior
Não sei por onde o vento possa entrar

Toda esta verdura é um segredo
Um murmúrio em voz baixa para os mortos
A lamentação húmida da terra
Numa sombra sem dias e sem noites
1 312
Adélia Prado

Adélia Prado

Humano

A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.
1 165