Condição Humana
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Para o Ernesto Veiga de Oliveira No Dia da Sua Morte
Fiel a cada hora do vivido
Trago o poema desse tempo antigo:
Irisado cintilar dos areais
Na breve eternidade desse instante
Que não pode jamais ser repetido
Foi nesse tempo o tempo:
Longas tardes conversas demoradas
No extático fervor adolescente
Das grandes descobertas deslumbradas
Versos dança música pintura
Um mundo vivo em canto e em figura
Que a vida inteira ficará comigo
Agradecendo a graça do ter sido
Assim pudesse o tempo regressar
Recomeçarmos sempre como o mar
1992
Sophia de Mello Breyner Andresen
Chamei Por Mim Quando Cantava o Mar
Chamei por mim quando os heróis morriam
E cada ser me deu sinal de mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tristão E Isolda
O sol velado desce
Impregnando de oiro a espuma
Onde a mais vasta aventura floresce.
Tristão e Isolda que eu sempre vi passar
Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.
Tristão e Isolda que como o Outono,
Rolando de abandono em abandono,
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.
Sophia de Mello Breyner Andresen
«Fernando Pessoa» Ou «Poeta Em Lisboa»
A tua sombra cruza o ângulo da praça
(Trémula incerta impossessiva alheia
E como escrita de lápis leve e baça)
E sob o voo das gaivotas passa
Atropelada por tudo quanto passa
Em sinal de sorte ou de desgraça
Lisboa, 1972
Sophia de Mello Breyner Andresen
Kassandra
Não sei quem, não sei onde, delirava.
E o futuro vermelho transbordava
Através das pupilas transparentes.
Ó dia de oiro sobre as coisas quentes,
Os rostos tinham almas que mudavam,
E as aves estrangeiras trespassavam
As minhas mãos abertas e presentes.
Houve instantes de força e de verdade —
Era o cantar de um deus que me embalava
Enchendo o céu de sol e de saudade.
Mas não deteve a lei que me levava,
Perdida sem saber se caminhava
Entre os deuses ou entre a humanidade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Deuses
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
Sophia de Mello Breyner Andresen
As mortas
Um halo em redor do seu sorriso
E tudo no seu ser era indeciso
Tocando de infinito o tempo breve.
Tudo quanto floresce delas vem,
Pois ficaram dispersas na paisagem.
Esquecidas de si não são ninguém,
Mas vagabundas são em cada imagem.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", pág. 88 | Edições Ática, 1974
Sophia de Mello Breyner Andresen
Luminosos Os Dias Abolidos
Quando o meio-dia inclinava a sombra das colunas
E o azul do céu tomava em si a terra
Apaziguada no murmúrio
Das folhagens e dos deuses.
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Poema
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nunca Mais Te Darei o Tempo Puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Jardim Perdido
Pela qual eternamente em mim
A tua face se ergue e brilha
Foi esse teu poder de não ter fim,
Nem tempo, nem lugar e não ter nome.
Sempre me abandonaste à beira duma fome.
As coisas nas tuas linhas oferecidas
Sempre ao meu encontro vieram já perdidas.
Em cada um dos teus gestos sonhava
Um caminho de estranhas perspectivas,
E cada flor no vento desdobrava
Um tumulto de danças fugitivas.
Os sons, os gestos, os motivos humanos
Passaram em redor sem te tocar,
E só os deuses vieram habitar
No vazio infinito dos teus planos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Anémona dos Dias
Aquele que profanou o mar
E que traiu o arco azul do tempo
Falou da sua vitória
Disse que tinha ultrapassado a lei
Falou da sua liberdade
Falou de si próprio como de um Messias
Porém eu vi no chão suja e calcada
A transparente anémona dos dias.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Evadir-Me, Esquecer-Me, Regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A ti eu canto
A ti eu canto e a mais ninguém,
Principe estranho por quem
Chamam as horas obscuras de delírio.
Senhor dos bailados, negro lírio
A ti eu canto e a mais ninguém.
Misto de ideal e lixo,
Semideus e semebicho
Fabuloso, mágico e lendário
E mais real do que as vozes da rua,
Em tudo a ti próprio contrário.
A tua luz é um sol escuro
E a tua sombra sempre da luz ao lado
Éo céu mais negro e mais sem lua
Mas o mais constelado.
E a ti eu canto e a mais ninguém,
Príncipe estranho, senhor dos bailados,
À luz dos lumes apagados.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", pág. 30 | Edições Ática, 1974
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ó Noite, Flor Acesa, Quem Te Colhe?
Sou eu que em ti me deixo anoitecer,
Ou o gesto preciso que te escolhe
Na flor dum outro ser?
Sophia de Mello Breyner Andresen
Manhã
Em vão busquei meu pranto e minha sombra
*
O perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente da seda e da serpente
*
No meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas de água mãos de areia pura
*
A luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem a linha das águas me divide
*
Mergulho até meu coração de gruta
Rouco de silêncio e roxa treva
*
O promontório sagra a claridade
A luz deserta e limpa me reúne
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lua
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptível em gestos quietos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Corpo
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro vivido
Contra a pureza inteira dos teus ombros.
Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.
Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.
Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Jardim
Sobre as ervas, entre as folhagens,
O vento passa, sonhador e distraído,
Peregrino de mil romagens.
É Maio ácido e multicolor,
Devorado pelo próprio ardor,
Que nesta clara tarde de cristal
Avança pelos caminhos
Até os fantásticos desalinhos
Do meu bem e do meu mal.
E no seu bailado levada
Pelo jardim deliro e divago,
Ora espreitando debruçada
Os jardins do fundo do lago,
Ora perdendo o meu olhar
Na indizível verdura
Das folhas novas e tenras
Onde eu queria saciar
A minha longa sede de frescura.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Há Jardins Invadidos de Luar
Que vibram no silêncio como liras.
Segura o teu amor entre os teus dedos
Neste jardim de Abril em que respiras.
A vida não virá — as tuas mãos
Não podem colher noutras a doçura
Das flores baloiçando ao vento leve.
Fosse o teu corpo feito de luar,
Fosses tu o jardim cheio de lagos,
As árvores em flor, a profusão
Da sua sombra negra nos caminhos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quem Como Eu Em Silêncio Tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nos Últimos Terraços Dos Espaços
Sobre os ventos imóveis e calados
Dorme.
Nem a Primavera derramada
Nem o terror e o caos que a terra gera
Nem a sombra vermelha dos corpos mutilados
Atravessam
As barreiras de silêncio que o separam.
Tem o rosto voltado ao infinito
Um rosto perfeito de traços imutáveis.
Nem frio, nem calor, nem ar, nem água
O alimentam.
Respiram unicamente o seu segredo
O seu segredo secreto para sempre
E duas fontes correm dos seus olhos fechados.
Manuel António Pina
O intruso
diante do meu rosto,
não suportarei
o meu puro olhar.
Quem me procurará
entre os homens?
Um intruso grita
dentro de mim, oiço-o no coração
como um irmão medonho
sonhando a minha vida
por outro vivida
em mim, também um sonho.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 109 | Assirio & Alvim, 2012
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