Quotidiano
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Nome
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Casa
A morte caminha no sossego do jardim
A vida sussurrada na folhagem
Subitamente quebrou-se não é minha
Sophia de Mello Breyner Andresen
Manhã
Em vão busquei meu pranto e minha sombra
*
O perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente da seda e da serpente
*
No meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas de água mãos de areia pura
*
A luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem a linha das águas me divide
*
Mergulho até meu coração de gruta
Rouco de silêncio e roxa treva
*
O promontório sagra a claridade
A luz deserta e limpa me reúne
Manuel António Pina
Uma sombra
Quando eu bater à porta
não me reconheceremos.
Voltarei de um dia de trabalho,
subirei as escadas
e perder-me-ei para sempre
em qualquer sítio fora de qualquer sítio.
Não foi o caminho de casa que eu perdi?
Não ficou alguém em qualquer sítio,
uma sombra passando diante de nós,
e principalmente fora de nós?
Agora quem sente
isto fora de mim,
quem é este Ausente?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 108 | Assirio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Os lugares
Os lugares são
a geografia da solidão.
São lugares comuns a casa a cama.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 43 | Assírio & Alvim, 2012
Sophia de Mello Breyner Andresen
Revolução
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
27 de Abril de 1974
Manuel António Pina
Na biblioteca
guarda um silêncio feito
de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiado tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,
as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 181 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Imagem do mundo
Vejo o mundo. E ao ver as coisas do mundo,
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural.
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento de outro. É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quiserem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho, e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
Nuno Júdice | "Geometria variável", 2005
Manuel António Pina
O caminho de casa
Volto de noite para casa.
Tudo é memória fora de mim
ou onde em mim alguém conduz
fisicamente o automóvel.
Como não estarei
nem não estarei
em nenhum sítio, voltando
absolutamente para casa?
Subindo as escadas grave e inocente
como quem volta para casa inteiramente
e adormecendo em mim como em casa.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 150 (escrito em 9 Fevereiro 1985) | Assirio & Alvim, 2012
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lutaram Corpo a Corpo Com o Frio
Das casas onde nunca ninguém passa,
Sós, em quartos imensos de vazio,
Com um poente em chamas na vidraça.
Manuel António Pina
Relatório
habitado por animais pequenos
- a dúvida, a possibilidade da morte -
e iluminado pela luz hesitante de
pequenos astros - o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato perseguindo pela sala
o último raio de sol da tarde.
Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra casa; não fulge.
Em certas noites, porém
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.
Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 352 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Confissão
De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.
Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.
Nuno Júdice
Poema de amor com imagens naturais
para os teus cabelos, os teus seios, a linha
exacta dos teus olhos, onde o destino se fixa
como o centro das águas que nascem em todos os pontos da terra.
De súbito, todos os rios deixaram de correr:
para os teus lábios, quando te ris, e esse riso
desce como a mais alta das cascatas para o vale
obscuro onde procuro, sem ver mais do que as sombras do céu.
De súbito, as montanhas parecem pálidas,
as árvores sem um abraço de ramagens, os
lagos sem uma profundidade de abismo, o mar
sem o brilho azul de cada dia: quando te olho,
e os teus lábios sugam toda a luz do mundo.
Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento", pág. 23 | Quetzal Editores, 1999
Fernando Pessoa
Dá-me um sorriso ao domingo.
Para à segunda eu lembrar.
Bem sabes: sempre te sigo
E não é preciso andar.
Fernando Pessoa
No dia de S. João
Há fogueiras e folias
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.
Florbela Espanca
No Dia D’anos
Não quero que te faltem meus parabéns
Que sejas muito feliz
E que todos te estimem bem.
Só te peço meu papa
Que sejas muito meu amigo
Igualmente de meu mano
Por que em tu morrendo,
Ficamos sem um abrigo
Amo-te estimo-te como Deus
E como os anjos também
E como a flor da vida
Amo-te meu querido bem
Tenho a minha mamã
Que nos tem ao seu cuidado
Mas se tu nos morreres
Somos três desgraçados
Já não queres a [...]
O que havemos de fazer
Pensa na batota
E Não penses em morrer
ofereço estes versos o meu querido papá da minha alma
Pier Paolo Pasolini
O sonho da razão
Paulo Colina
Corpo a corpo
de sentimentos
as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários
o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues
o papel branco vive me jogando
desafios na cara
ser marginal todavia
só interessa à paixão
bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?
Jaime Gil de Biedma
Não Voltarei a Ser Jovem
Emily Dickinson
335
Adão Ventura
Poemas da morte de um pai
- Que cesse o barulho das enxadas,
das cantigas de eito
- que a madrinha da tropa
interrompa o curso
de seus passos
em territórios do Serro,
Santo Antônio do Itambé,
Baguari, Folha Larga,
Itapanhoacanga
e São Miguel & Almas de Guanhães.
E José,
novamente menino,
descalço, chapeuzinho de palha,
aguilhada na mão
a se encontrar
com seu Teodoro da Fazenda.
Henry David Thoreau
Se você construiu castelos no
Ana Paula Ribeiro Tavares
Quantas coisas do amor
P"ra ti guardei
Coisas simples como estar à espera
Manter o pão quente
Deixar o vinho abrir-se
Em mil sabores
Guardei-me das tentações
das sombras do desejo
das vozes
dos segredos
seria muito pedir-te
que me veles o sono
só mais uma vez.
Ada Ciocci
Minha casa
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.
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