Serenidade e Paz Interior

Poemas neste tema

Maurício Uzêda

Maurício Uzêda

Torrente

E quando ao turbulento rio desse meu desejo
Você abriu seus braços
Tornou-se minha paixão remanso
E a corrente que até então revolta
Carregava as minhas margens
E tristemente se fechava em charcos
Vi tornar-se água clara
Transparente e viva
Fecundando os campos
Serenamente
Se dirigindo ao mar.

704
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Simples Cerejas

Eram apenas cerejas na cesta

ao sorvê-las senti

algo dentro de mim.

Um sino libertando os olhos

do velho telhado.

986
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Chuva de Outono

Olhos centrados na tarde
reponho crenças
perdidas na multidão.

Vigília que se parte e se fragmenta
ostentando espelhos onde me guardo
entre rosários e perdas
entre salmos e buscas.

O que importa no momento
é sustentar o ouro da fantasia
e escutar o canto leve da chuva.

Do outono que lava a alma e eterniza.

1 023
Marco Antônio de Souza

Marco Antônio de Souza

Intuição ou Esperança

Refugiar-me contigo
à beira da paz;
subir da neurose ao nirvana
e em êxtase pacífico,
saborear teus lábios e teu corpo:
esta é a minha ventura,
esperança-perdição de todas as horas !!!

816
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Vigília

Quietude repensa abrigos
e acorda o coração velejando
rumos da memória.

De porosidade a vida filtra
o tempo
desertando a saga de abrolhos.

E estira canções de efervescência
nos meandros da paz.

868
Maria do Carmo Verza Sartori

Maria do Carmo Verza Sartori

Céu

Tenho a
impressão

que o céu
fica aqui
perto

o caminho
é interior

a paz é o
indicador

do
encontro

783
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Haicai

Noite de Domingo

Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.

O Lago Habitado

Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.

1 846
Eleonora Marsiaj

Eleonora Marsiaj

Haicai

agitação da mente

Na água turva
movimento incessante
Limpidez enfim

primavera

Pingos cantantes
Tapete azulado
Flor d’ipê-roxo

1 122
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Na Praia

Meus pés na areia
os olhos no ar.

Vasto e imenso,
lindo e livre,
mar-espaço
— uma paisagem só.

Marulho das ondas,
voz do mar,
azul da manhã,
alegria do céu.
No meu coração
— um canto só.

934
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Angorás

Coelhinhos brancos,
no parque,
correm e brincam.

Ágeis patas,
orelhas alertas,
pontilhando o ar.

Alvíssimos, fofos,
olhos de contas,
sutilizam-se
no verde, veja-os:
Dois coelhinhos
de carícia
e Paz.

975
Birão Santana

Birão Santana

Ri Dentes

Assim como as plantas
a borboleta sorria.
Eu sorria
e o vento sorria.

Simples,
o quadro.

Profundo,
o momento.

Intraduzível
o que se passou.

Com as plantas,

a borboleta,

eu

e o vento,

ridentes.

1 082
Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

QUIETUDE

A uva é madura, o campo lavrado,

destaca-se o monte das nuvens

Nos empoeirados espelhos do estio
caída é a sombra.

Entre os dedos incertos
a luz deles é clara
e longínqua.

Com andorinhas foge
o último tormento.

1 717
Ricardo Kelmer

Ricardo Kelmer

Remanso

Espreguiçar meus olhos lentos
Pelo teu jeito manso
E se deixar assim sossegando de repente
Sem ranço a gente se chegando
Feito gato dengoso nas pernas da gente

Bocejar meus olhos sonolentos
Pelo teu corpo manso
E adormecer de descanso o meu corpo dormente
Feito remanso na gente se aninhando
Feito gato dengoso no teu colo quente

883
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Vermeer de Delft

É manhã no copo:
Tempo de decifrar o mapa
Com seus amarelos e azuis,
De abrir as cortinas – o sol frio nasce
Nos ladrilhos silenciosos –,
De ler uma carta perturbadora
Que veio pela galera da China:
Até que a lição do cravo
Através de seus cristais
Restitui a inocência.
1 072
João José Cochofel

João José Cochofel

Os Dias Íntimos

Mói música um realejo,
poético de convenção.
Mas é hoje o que agrada
ao meu coração.

Com castanhas assadas,
chuva na imaginação,
e luzes molhadas
no asfalto do chão,

Egoísmo de bicho,
simulado ou não,
mas que bem me sabe
esta solidão.

Ó comedida felicidade,
com teu ópio vão
sobre tanta náusea
passa a tua mão.

1 370
Alonso Álvares Lopes

Alonso Álvares Lopes

Haicai

Silêncio.
O passeio das nuvens
E mais nenhum pio

A noite sorri.
Lua crescente
Nos olhos do guri

1 051
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lá fora onde árvores são

Lá fora onde árvores são
O que se mexe a parar
Não vejo nada senão,
Depois das árvores, o mar.

É azul intensamente
Salpicado de luzir,
E tem na onda indolente
Um suspirar de dormir.

Mas nem durmo eu nem o mar,
Ambos nós, no dia brando,
E ele sossega a avançar
E eu não penso e estou pensando.


14/08/1932
5 338
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando já nada nos resta

Quando já nada nos resta
É que o mudo sol é bom.
O silêncio da floresta
É de muitos sons sem som.

Basta a brisa pra sorriso.
Entardecer é quem esquece.
Dá nas folhas o impreciso,
E mais que o ramo estremece.

Ter tido sperança fala
Como quem conta a cantar.
Quando a floresta se cala
Fica a floresta a falar.


09/08/1932
4 359
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No magno dia até os sons são claros.

No magno dia até os sons são claros.
Pelo repouso do amplo campo tardam.
Múrmura, a brisa cala.
Quisera, como os sons, viver das coisas
Mas não ser delas, consequência alada
Com o real em baixo.
2 040
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sob a leve tutela

Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.

Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.

Da verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.
2 068
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero ignorado, e calmo

Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.


02/03/1933
3 541
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ténue, como se de Éolo a esquecessem,

Ténue, como se de Éolo a esquecessem,
A brisa da manhã titila o campo,
E há começo do sol.
Não desejemos, Lídia, nesta hora
Mais sol do que ela, nem mais alta brisa
Que a que é pequena e existe.


13/06/1930 (Presença, nº 31/32, Março-Junho de 1931)
2 371
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aguardo, equânime, o que não conheço —

Aguardo, equânime, o que não conheço –
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.


13/12/1933
2 222
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Domina ou cala. Não te percas, dando

Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.


27/09/1931
2 867