Poemas neste tema
Sabedoria
Fernando Pessoa
Flores amo, não busco. Se aparecem
Flores amo, não busco. Se aparecem
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
Não são nossas, mas mortas.
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
Não são nossas, mas mortas.
1 320
Martha Medeiros
simplificar
simplificar
não exagerar os sentimentos
arriscar
não seguir os mandamentos
vivenciar
não mitificar os pensamentos
assimilar
não condecorar os ferimentos
reinventar
não copiar aos sete ventos
amamentar
não aprisionar os seus rebentos
uma mulher adulta
só conhece bons momentos
não exagerar os sentimentos
arriscar
não seguir os mandamentos
vivenciar
não mitificar os pensamentos
assimilar
não condecorar os ferimentos
reinventar
não copiar aos sete ventos
amamentar
não aprisionar os seus rebentos
uma mulher adulta
só conhece bons momentos
667
Fernando Pessoa
Cada um é um mundo; e como em cada fonte
Cada um é um mundo; e como em cada fonte
Uma deidade vela, em cada homem
Porque não há de haver
Um deus só de ele homem?
Na encoberta sucessão das cousas,
Só o sábio sente, que não foi mais nada
Que a vida que deixou.
Uma deidade vela, em cada homem
Porque não há de haver
Um deus só de ele homem?
Na encoberta sucessão das cousas,
Só o sábio sente, que não foi mais nada
Que a vida que deixou.
1 012
Fernando Pessoa
Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)
Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)
1 236
Carlos Felipe Moisés
Meia Palavra Inteira
Carlos Felipe Moisés entrevista José Paulo Paes
Poeta, ensaísta e tradutor, José Paulo Paes goza de alto prestígio entre intelectuais e especialistas, mas não conta ainda com o reconhecimento que merece junto a um público mais amplo. Uma das razões é sua aversão à chamada "vida literária", aquela aura mundana, feita de vaidades exacerbadas, golpes de oportunismo e tráfico de influências, que cerca o objeto propriamente literário que é o livro impresso. Parte por temperamento, parte por princípio, José Paulo sempre se manteve à distância das confrarias do elogio mútuo, responsáveis por tanta glória efêmera, preferindo arcar com o ônus de uma atividade rigorosamente ética. Para ele, a recepção da obra literária deve prescindir da promoção publicitária, sobretudo a autopromoção; o livro deve oferecer-se ao leitor tal como é e não como o estrelismo do autor e as injunções do momento o imponham ao imediatismo do consumo. Tem sido assim ao longo de mais de quatro décadas de dedicação discreta, silenciosa e apaixonada à literatura.
Seus ensaios exibem a curiosidade eclética do leitor privilegiado, autodidata, que, sem metodologias artificiais nem preconceitos, mas munido de severo olhar perscrutador, notável erudição e proficiência, cumpre com a função primordial da crítica: informar, avaliar, sempre no sentido de esclarecer e enriquecer a obra analisada e não de promover o analista e suas idiossincrasias. Suas traduções, impecáveis, têm posto à disposição do leitor de língua portuguesa algumas das mais importantes obras da literatura universal, em textos que não ficam nada a dever aos originais: os Sonetos luxuriosos de Aretino, os Poemas de Kaváfis, o Tristam Shandy de Sterne e tantos outros. Sua poesia, desde O aluno (1947) até Prosas (1992), revela uma voz instigante e original, que a cada livro aprimora aquelas características que lhe são mais peculiares: a concisão epigramática, o horror ao derramamento e ao sentimentalismo, a tendência conceitual mas antidiscursiva e a engenhosidade verbal, que em vez de buscar o malabarismo exibicionista busca a síntese exemplar, o laconismo prenhe de insinuações. Uma das marcas registradas dessa voz poética é o humor, aprendido em parte com Drummond, um humor que trafega ágil entre o trocadilho e o deboche, a acidez ferina e a soltura da gozação lúdica, sempre funcionando como revelação aguda do ridículo e das misérias da condição humana — ceticamente, mas com afeto, à Machado de Assis. Esse conluio de lirismo contido e denúncia amarga está invaria-velmente a serviço da consciência política, sem dogmas: a consciência do homem da Pólis, o homem solidário em sua relação com a comunidade.
José Paulo Paes, em suma, é um escritor a quem se aplica com justeza o epíteto homem de letras, em sua expressão mais digna e elevada. Não é o simples profissional nem o diletante, não é o burocrata e menos ainda o arrivista das letras. É o homem de letras no sentido do denso humanismo que lhe serve de fundamento à atividade literária, por ele exercida com admirável humildade mas com a convicção ainda mais admirável do poder humanizador da literatura. Para ele, a literatura é o último reduto onde ainda é possível ao menos formular, de frente e em regime da mais irrestrita autenticidade, a ingente interrogação pelo sentido da existência.
Desde o início da carreira, José Paulo vem formulando e reformulando essa interrogação, nos seus mais variados matizes, empenhado em encontrar uma resposta que ele talvez saiba impossível — uma resposta que será, quando muito, parcial e provisória. Mas desistir quem há de?
Poeta, ensaísta e tradutor, José Paulo Paes goza de alto prestígio entre intelectuais e especialistas, mas não conta ainda com o reconhecimento que merece junto a um público mais amplo. Uma das razões é sua aversão à chamada "vida literária", aquela aura mundana, feita de vaidades exacerbadas, golpes de oportunismo e tráfico de influências, que cerca o objeto propriamente literário que é o livro impresso. Parte por temperamento, parte por princípio, José Paulo sempre se manteve à distância das confrarias do elogio mútuo, responsáveis por tanta glória efêmera, preferindo arcar com o ônus de uma atividade rigorosamente ética. Para ele, a recepção da obra literária deve prescindir da promoção publicitária, sobretudo a autopromoção; o livro deve oferecer-se ao leitor tal como é e não como o estrelismo do autor e as injunções do momento o imponham ao imediatismo do consumo. Tem sido assim ao longo de mais de quatro décadas de dedicação discreta, silenciosa e apaixonada à literatura.
Seus ensaios exibem a curiosidade eclética do leitor privilegiado, autodidata, que, sem metodologias artificiais nem preconceitos, mas munido de severo olhar perscrutador, notável erudição e proficiência, cumpre com a função primordial da crítica: informar, avaliar, sempre no sentido de esclarecer e enriquecer a obra analisada e não de promover o analista e suas idiossincrasias. Suas traduções, impecáveis, têm posto à disposição do leitor de língua portuguesa algumas das mais importantes obras da literatura universal, em textos que não ficam nada a dever aos originais: os Sonetos luxuriosos de Aretino, os Poemas de Kaváfis, o Tristam Shandy de Sterne e tantos outros. Sua poesia, desde O aluno (1947) até Prosas (1992), revela uma voz instigante e original, que a cada livro aprimora aquelas características que lhe são mais peculiares: a concisão epigramática, o horror ao derramamento e ao sentimentalismo, a tendência conceitual mas antidiscursiva e a engenhosidade verbal, que em vez de buscar o malabarismo exibicionista busca a síntese exemplar, o laconismo prenhe de insinuações. Uma das marcas registradas dessa voz poética é o humor, aprendido em parte com Drummond, um humor que trafega ágil entre o trocadilho e o deboche, a acidez ferina e a soltura da gozação lúdica, sempre funcionando como revelação aguda do ridículo e das misérias da condição humana — ceticamente, mas com afeto, à Machado de Assis. Esse conluio de lirismo contido e denúncia amarga está invaria-velmente a serviço da consciência política, sem dogmas: a consciência do homem da Pólis, o homem solidário em sua relação com a comunidade.
José Paulo Paes, em suma, é um escritor a quem se aplica com justeza o epíteto homem de letras, em sua expressão mais digna e elevada. Não é o simples profissional nem o diletante, não é o burocrata e menos ainda o arrivista das letras. É o homem de letras no sentido do denso humanismo que lhe serve de fundamento à atividade literária, por ele exercida com admirável humildade mas com a convicção ainda mais admirável do poder humanizador da literatura. Para ele, a literatura é o último reduto onde ainda é possível ao menos formular, de frente e em regime da mais irrestrita autenticidade, a ingente interrogação pelo sentido da existência.
Desde o início da carreira, José Paulo vem formulando e reformulando essa interrogação, nos seus mais variados matizes, empenhado em encontrar uma resposta que ele talvez saiba impossível — uma resposta que será, quando muito, parcial e provisória. Mas desistir quem há de?
895
Fernando Pessoa
TO A MATERIALIST
Thou dost explain by Law the weaving
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
1 355
Fernando Pessoa
Do alto da torre da igreja
Do alto da torre da igreja
Vê-se o campo todo em roda.
Só do alto da esperança
Vemos nós a vida toda.
Vê-se o campo todo em roda.
Só do alto da esperança
Vemos nós a vida toda.
2 924
Pedro Amigo de Sevilha
Pedr'amigo, Quer'ora Ua Rem
- Pedr'Amigo, quer'ora ũa rem
saber de vós, se o saber puder:
do rafeç'home que vai bem querer
mui boa dona, de quem nunca bem
atende já, e [d]o bõo, que quer
outrossi bem mui rafece molher
pero que lh'esta queira fazer bem,
qual destes ambos é de peior sem?
- Joam Baveca, tod'home se tem
com mui bom hom', e quero-m'eu teer
logo com el; mais, por sem conhocer
vos tenh'ora, que nom sabedes quem
há peor sem; e, pois vo-l'eu disser,
vós vos terredes com qual m'eu tever;
e que sab'[r]edes vós que sei eu quem
[é]: o rafeç'hom'é de peior sem.
- Pedr'Amigo, des aqui é tençom,
ca me nom quer'eu convosc'outorgar;
o rafeç'home, a que Deus quer dar
entendiment', em algũa sazom,
de querer bem a mui bõa senhor,
este nom cuida fazer o peor;
e quem molher rafec'a gram sazom
quer bem, nom pode fazer se mal nom.
- Joam Baveca, fora da razom
sodes, que m'ante fostes preguntar;
ca mui bom home nunca pod'errar
de fazer bem, assi Deus me perdom;
e o rafeç'home que vai seu amor
empregar u desasperado for,
este faz mal, assi Deus me perdom,
e est'é sandeu e estoutro nom.
- Pedr'Amigo, rafeç'home nom vi
perder per mui bõa dona servir,
mais vi-lho sempre loar e gracir;
e o mui bom home, pois tem cabo si
molher rafeç'e se nom paga d'al,
e, pois el entende o bem e o mal
e, por esto, nõn'a quita de si,
quant'[el] é melhor, tant'erra mais i.
- Joam Baveca, des quand'eu naci,
esto vi sempr'e oí departir
do mui bom home: de lh'a bem sair
sempr'o que faz; mais creede per mi:
do rafeç'home que sa comunal
nom quer servir e serve senhor tal,
porque o tenham por leve, por mi,
quant'ela é melhor, tant'erra mais i.
- Pedr'Amigo, esso nada nom val,
ca o que ouro serv[e] e nom al,
o a[va]rento semelha des i;
e parta-s'esta tençom per aqui.
- Joam Baveca, nom tenho por mal
de se partir: pois ouro serv'atal
quem nunca pode valer mais per i;
e julguem-nos da tençom per aqui.
saber de vós, se o saber puder:
do rafeç'home que vai bem querer
mui boa dona, de quem nunca bem
atende já, e [d]o bõo, que quer
outrossi bem mui rafece molher
pero que lh'esta queira fazer bem,
qual destes ambos é de peior sem?
- Joam Baveca, tod'home se tem
com mui bom hom', e quero-m'eu teer
logo com el; mais, por sem conhocer
vos tenh'ora, que nom sabedes quem
há peor sem; e, pois vo-l'eu disser,
vós vos terredes com qual m'eu tever;
e que sab'[r]edes vós que sei eu quem
[é]: o rafeç'hom'é de peior sem.
- Pedr'Amigo, des aqui é tençom,
ca me nom quer'eu convosc'outorgar;
o rafeç'home, a que Deus quer dar
entendiment', em algũa sazom,
de querer bem a mui bõa senhor,
este nom cuida fazer o peor;
e quem molher rafec'a gram sazom
quer bem, nom pode fazer se mal nom.
- Joam Baveca, fora da razom
sodes, que m'ante fostes preguntar;
ca mui bom home nunca pod'errar
de fazer bem, assi Deus me perdom;
e o rafeç'home que vai seu amor
empregar u desasperado for,
este faz mal, assi Deus me perdom,
e est'é sandeu e estoutro nom.
- Pedr'Amigo, rafeç'home nom vi
perder per mui bõa dona servir,
mais vi-lho sempre loar e gracir;
e o mui bom home, pois tem cabo si
molher rafeç'e se nom paga d'al,
e, pois el entende o bem e o mal
e, por esto, nõn'a quita de si,
quant'[el] é melhor, tant'erra mais i.
- Joam Baveca, des quand'eu naci,
esto vi sempr'e oí departir
do mui bom home: de lh'a bem sair
sempr'o que faz; mais creede per mi:
do rafeç'home que sa comunal
nom quer servir e serve senhor tal,
porque o tenham por leve, por mi,
quant'ela é melhor, tant'erra mais i.
- Pedr'Amigo, esso nada nom val,
ca o que ouro serv[e] e nom al,
o a[va]rento semelha des i;
e parta-s'esta tençom per aqui.
- Joam Baveca, nom tenho por mal
de se partir: pois ouro serv'atal
quem nunca pode valer mais per i;
e julguem-nos da tençom per aqui.
781
Fernando Pessoa
Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase tudo do sentido a entendê-lo
E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
Impropícia e profunda.
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase tudo do sentido a entendê-lo
E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
Impropícia e profunda.
1 002
Fernando Pessoa
Toda a visão da crença se acompanha,
Toda visão da crença se acompanha,
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
1 297
Fernando Pessoa
Quantos gozam o gozo de gozar
Quantos gozam o gozo de gozar
Sem que gozem o gozo, e o dividem
Entre eles e o verem
Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
Aos outros como prémio
De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
Aprende o que te ensina
Teu corpo, teu limite.
Sem que gozem o gozo, e o dividem
Entre eles e o verem
Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
Aos outros como prémio
De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
Aprende o que te ensina
Teu corpo, teu limite.
2 401
Fernando Pessoa
Pese a sentença igual da ignota morte
Pese a sentença igual da ignota morte
Em cada breve corpo, é entrudo e riem,
Felizes, porque em eles pensa e sente
A vida, que não eles.
De rosas, inda que de falsas, teçam
Capelas veras. Escasso, curto é o espaço
Que lhes é dado, e por bom caso em todos
Breve nem vão sentido.
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouco diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sós! Leixai
Viver os moribundos!
Em cada breve corpo, é entrudo e riem,
Felizes, porque em eles pensa e sente
A vida, que não eles.
De rosas, inda que de falsas, teçam
Capelas veras. Escasso, curto é o espaço
Que lhes é dado, e por bom caso em todos
Breve nem vão sentido.
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouco diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sós! Leixai
Viver os moribundos!
1 275
Fernando Pessoa
Um verso repete
Um verso repete
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
1 538
Fernando Pessoa
Saber? Que sei eu?
Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
1 607
Jorge Luis Borges
Otro fragmento apócrifo
Uno de los discípulos del maestro quería hablar a solas
con él, pero no se atrevía. El maestro le dijo:
-Dime qué pesadumbre te oprime.
El discípulo replicó:
-Me falta valor.
El maestro dijo:
-Yo te doy el valor.
La historia es muy antigua, pero una tradición, que bien
puede no ser apócrifa, ha conservado las palabras que esos hombres dijeron,
en los linderos del desierto y del alba.
Dijo el discípulo:
-He cometido hace tres años un gran pecado. No lo
saben los otros pero yo lo sé, y no puedo mirar sin horror
mi mano derecha.
Dijo el maestro:
-Todos los hombres han pecado. No es de hombres no
pecar. El que mirare a un hombre con odio ya le ha
dado muerte en su corazón.
Dijo el discípulo:
-Hace tres años, en Samaria, yo maté a un hombre.
El maestro guardó silencio, pero su rostro se demudó y el
discípulo pudo temer su ira. Dijo al fin:
-Hace diecinueve años, en Samaria, yo engendré a un
hombre. Ya te has arrepentido de lo que hiciste.
Dijo el discípulo:
-Así es. Mis noches son de plegaria y de llanto. Quiero
que tú me des tu perdón.
Dijo el maestro:
-Nadie puede perdonar, ni siquiera el Señor. Si a un
hombre lo juzgaran por sus actos, no hay quien no fuera
merecedor del infierno y del cielo. ¿Estás seguro de
ser aún aquel hombre que dio muerte a su hermano?
Dijo el discípulo:
-Ya no entiendo la ira que me hizo desnudar el acero.
Dijo el maestro:
-Suelo hablar en parábolas para que la verdad se grabe
en las almas, pero hablaré contigo como un padre habla
con su hijo. Yo no soy aquel hombre que pecó; tú no
eres aquel asesino y no hay razón alguna para que sigas
siendo su esclavo. Te incumben los deberes de todo
hombre: ser justo y ser feliz. Tú mismo tienes que salvarte.
Si algo ha quedado de tu culpa yo cargaré con ella.
Lo demás de aquel diálogo se ha perdido.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 619 e 620 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
con él, pero no se atrevía. El maestro le dijo:
-Dime qué pesadumbre te oprime.
El discípulo replicó:
-Me falta valor.
El maestro dijo:
-Yo te doy el valor.
La historia es muy antigua, pero una tradición, que bien
puede no ser apócrifa, ha conservado las palabras que esos hombres dijeron,
en los linderos del desierto y del alba.
Dijo el discípulo:
-He cometido hace tres años un gran pecado. No lo
saben los otros pero yo lo sé, y no puedo mirar sin horror
mi mano derecha.
Dijo el maestro:
-Todos los hombres han pecado. No es de hombres no
pecar. El que mirare a un hombre con odio ya le ha
dado muerte en su corazón.
Dijo el discípulo:
-Hace tres años, en Samaria, yo maté a un hombre.
El maestro guardó silencio, pero su rostro se demudó y el
discípulo pudo temer su ira. Dijo al fin:
-Hace diecinueve años, en Samaria, yo engendré a un
hombre. Ya te has arrepentido de lo que hiciste.
Dijo el discípulo:
-Así es. Mis noches son de plegaria y de llanto. Quiero
que tú me des tu perdón.
Dijo el maestro:
-Nadie puede perdonar, ni siquiera el Señor. Si a un
hombre lo juzgaran por sus actos, no hay quien no fuera
merecedor del infierno y del cielo. ¿Estás seguro de
ser aún aquel hombre que dio muerte a su hermano?
Dijo el discípulo:
-Ya no entiendo la ira que me hizo desnudar el acero.
Dijo el maestro:
-Suelo hablar en parábolas para que la verdad se grabe
en las almas, pero hablaré contigo como un padre habla
con su hijo. Yo no soy aquel hombre que pecó; tú no
eres aquel asesino y no hay razón alguna para que sigas
siendo su esclavo. Te incumben los deberes de todo
hombre: ser justo y ser feliz. Tú mismo tienes que salvarte.
Si algo ha quedado de tu culpa yo cargaré con ella.
Lo demás de aquel diálogo se ha perdido.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 619 e 620 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 140
Fernando Pessoa
Não digas mal de ninguém,
Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
1 824
Fernando Pessoa
Não, não vos disse... A essência inatingível
Não, não vos disse... A essência inatingível
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e (...) do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e (...) do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
889
Domingos Lourenço de Castro
Soneto
Quem no trato Civil só quer Verdade,
quem dos Povos não quer mais que respeito,
só pretende subir ao mais perfeito,
só procura viver na Eternidade.
Quem de justo não falta à integridade,
quem de todos quer só ser bem aceito,
um Padrão se levanta em cada feito,
uma Estátua se erige a toda a Idade.
Vos sois este, Senhor; pois de tal modo
sois Afável, sois justo, e Verdadeiro,
entre os Grandes Heróis de todo o mundo:
que a Vós mesmo erigis no mundo todo,
primorosas Estátuas de Primeiro,
generosos Padrões de sem segundo.
quem dos Povos não quer mais que respeito,
só pretende subir ao mais perfeito,
só procura viver na Eternidade.
Quem de justo não falta à integridade,
quem de todos quer só ser bem aceito,
um Padrão se levanta em cada feito,
uma Estátua se erige a toda a Idade.
Vos sois este, Senhor; pois de tal modo
sois Afável, sois justo, e Verdadeiro,
entre os Grandes Heróis de todo o mundo:
que a Vós mesmo erigis no mundo todo,
primorosas Estátuas de Primeiro,
generosos Padrões de sem segundo.
1 081
Fernando Pessoa
Para quê complicar inutilmente,
Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
1 463
Fernando Pessoa
TRIFLES
They wear no real greatness who have faith
In God: or Matter, in Life's In or Out.
Only perpetual doubt is truly great,
And the pain of perpetual doubt.
In God: or Matter, in Life's In or Out.
Only perpetual doubt is truly great,
And the pain of perpetual doubt.
1 343
Fernando Pessoa
Hora a hora não dura a face antiga
Hora a hora não dura a face antiga
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
909
Donizete Galvão
Almanaque da Pedra
Roupa branca no quarador:
enxágue-a com pedra anil.
Afta no canto da boca:
mate-a com pedra-ume.
Água de bica na talha:
jogue-lhe pedra de enxofre.
Faca com corte cego:
amole-a com pedra branca.
Dedo de prosa com craca:
raspe-o com pedra-pomes.
enxágue-a com pedra anil.
Afta no canto da boca:
mate-a com pedra-ume.
Água de bica na talha:
jogue-lhe pedra de enxofre.
Faca com corte cego:
amole-a com pedra branca.
Dedo de prosa com craca:
raspe-o com pedra-pomes.
1 284
Fernando Pessoa
Se há uma nuvem que pass
Se há uma nuvem que passa
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.
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Deborah Brennand
Sem Preconceito
Senta no primeiro degrau
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.
Ambas têm veios negros.
E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem
o que ela diz calada.
Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.
Sem preconceito, são inocentes?
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