Poemas neste tema
Angústia
Fernando Pessoa
O soslaio do operário estúpido para o engenheiro doido —
O soslaio do operário estúpido para o engenheiro doido —
O engenheiro doido fora da engenharia —
O sorriso trocado que sinto nas costas quando passo entre os normais...
(Quando me olham cara a cara não os sinto sorrir).
O engenheiro doido fora da engenharia —
O sorriso trocado que sinto nas costas quando passo entre os normais...
(Quando me olham cara a cara não os sinto sorrir).
1 477
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Cidade Dos Outros
Túnica de tortura era a cidade
Que tecida pelos outros nos vestia
Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia
Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia
E a cidade como cães nos perseguia
Que tecida pelos outros nos vestia
Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia
Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia
E a cidade como cães nos perseguia
1 238
Fernando Pessoa
CANÇÃO À INGLESA
CANÇÃO À INGLESA
Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p'ro fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.
Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p'ro fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.
1 397
Fernando Pessoa
O Chiado sabe-me a açorda.
O Chiado sabe-me a açorda.
Corro ao fluir do Tejo lá em baixo.
Mas nem ali há universo.
E o tédio persiste como uma mão regando no escuro.
Corro ao fluir do Tejo lá em baixo.
Mas nem ali há universo.
E o tédio persiste como uma mão regando no escuro.
1 439
Fernando Pessoa
Ouvi-te cantar de dia.
Ouvi-te cantar de dia.
De noite te ouvi cantar.
Ai de mim, se é de alegria!
Ai de mim, se é de penar!
De noite te ouvi cantar.
Ai de mim, se é de alegria!
Ai de mim, se é de penar!
1 443
Fernando Pessoa
Tens o leque desdobrado
Tens o leque desdobrado
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.
1 291
Edmir Domingues
À cadelinha navegante do espaço
Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
702
Fernando Pessoa
IV - As minhas ansiedades caem
IV
As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo
Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.
Na Múmia a posição é absolutamente exacta.
Música longínqua,
Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos.
As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo
Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.
Na Múmia a posição é absolutamente exacta.
Música longínqua,
Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos.
991
Marina Colasanti
HORA DO EMBARQUE
Respirou fundo
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
1 024
Fernando Pessoa
V - Porque abrem as coisas alas para eu passar?
V
Porque abrem as coisas alas para eu passar?
Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes.
Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara.
Mas há sempre coisas atrás de mim.
Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço.
Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido.
Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras.
Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo.
Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis
A porta abrindo-se conscientemente
Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se.
De onde é que estão olhando para mim?
Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim?
Quem espreita de tudo?
As arestas fitam-me.
Sorriem realmente as paredes lisas.
Sensação de ser só a minha espinha.
As espadas.
Porque abrem as coisas alas para eu passar?
Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes.
Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara.
Mas há sempre coisas atrás de mim.
Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço.
Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido.
Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras.
Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo.
Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis
A porta abrindo-se conscientemente
Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se.
De onde é que estão olhando para mim?
Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim?
Quem espreita de tudo?
As arestas fitam-me.
Sorriem realmente as paredes lisas.
Sensação de ser só a minha espinha.
As espadas.
1 406
Edmir Domingues
Coroa de sete sonetos
I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
273
José Saramago
Cantiga de Sapo
Já mastiguei solidão
E tinha gosto de cobre
Ficou-me o travo na língua
Mais amargo que o azebre
Já cantei com voz de sapo
As rosas do céu mais perto
Coseram-me a fio a boca
Espetaram-me em vara torta
Voei com penas de cinza
Por sobre as águas abertas
Sonho de asa mal firmada
Numa aparência de vento
Voltei ao sapo que era
À minha boca calada
À triaga à mordedura
À vara que me espetava
Debaixo de mim a terra
Por cima de mim o céu
A noite que vai passando
O silêncio a solidão
A manhã que vem tão longe
As rosas que vão murchando
E tinha gosto de cobre
Ficou-me o travo na língua
Mais amargo que o azebre
Já cantei com voz de sapo
As rosas do céu mais perto
Coseram-me a fio a boca
Espetaram-me em vara torta
Voei com penas de cinza
Por sobre as águas abertas
Sonho de asa mal firmada
Numa aparência de vento
Voltei ao sapo que era
À minha boca calada
À triaga à mordedura
À vara que me espetava
Debaixo de mim a terra
Por cima de mim o céu
A noite que vai passando
O silêncio a solidão
A manhã que vem tão longe
As rosas que vão murchando
1 208
Antidio Cabal
Epitáfio de Ramón Ramonense
vulgo O Igual
Sinto falta de não ter nascido.
Sinto falta de não ter nascido.
742
Edmir Domingues
Rota de colisão
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
618
Edmir Domingues
É fortuna do mar o que nós somos
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
687
José Saramago
Amanhecer
Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
1 123
Edmir Domingues
Canção amarga II
Acender o cigarro que não fumo
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
675
Antidio Cabal
Epitáfio de Seremo Cruz, vulgo O Norte
A nós deveriam fazer-nos natimortos.
Antidio Cabal (1925-2012)
inEpitafios, Barcelona: Kriller71 Ediciones, 2014.
Traduções de Ricardo Domeneck.
489
José Saramago
Programa
No esforço do nascer está o final,
Na raiva de crescer se continua,
Na prova de viver azeda o sal,
Na cava do amor sua e tressua.
Remédio, só morrendo: bom sinal.
Na raiva de crescer se continua,
Na prova de viver azeda o sal,
Na cava do amor sua e tressua.
Remédio, só morrendo: bom sinal.
1 100
José Saramago
No Coração, Talvez
No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta,
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta,
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.
996
Charles Bukowski
Jovem Em Nova Orleans
morrendo de fome por ali, percorrendo os bares,
e à noite caminhando pelas ruas por
horas,
a luz do luar sempre me parecia
falsa, talvez fosse mesmo,
e no Bairro Francês eu via
passar os cavalos e as carroças,
todos sentados muito eretos nos carros
abertos, o motorista negro, e na
traseira o homem e a mulher,
frequentemente jovens e sempre brancos.
e eu estava sempre branco.
e muito pouco encantado com o
mundo.
Nova Orleans era um lugar onde se
esconder.
eu podia jogar fora a minha vida,
sem ser molestado.
exceto pelos ratos.
os ratos no meu quarto acanhado e escuro
profundamente ressentidos por terem de dividi-lo
comigo.
eles eram grandes e destemidos
e me encaravam com olhos
que comunicavam
sem pestanejar
uma ideia de morte.
as mulheres estavam fora do meu alcance.
viam em mim algo de
depravado.
havia uma garçonete
um pouco mais velha do que
eu, que esboçava um sorriso,
demorando-se ao me
trazer o
café.
aquilo me bastava,
era o
suficiente.
havia alguma coisa, porém,
naquela cidade:
ela não me deixava sentir culpa
por não ter sentimentos em relação às
coisas que tantos outros
precisavam.
ela me deixava em paz.
sentado em minha cama
as luzes apagadas,
ouvindo os sons que vinham
de fora,
erguendo a minha garrafa
de vinho barato,
deixando o calor
da uva
entrar
em mim
enquanto eu escutava os ratos
movendo-se ao redor do
quarto,
eu os preferia
aos
humanos.
estar perdido
quem sabe louco
não era tão mau
se você pudesse
ficar assim:
quieto no seu canto.
foi algo que Nova Orleans me
deu.
ninguém jamais chamou
meu nome.
nada de telefonemas,
nem carro,
nem emprego,
nada de
nada.
apenas eu e os
ratos
e minha juventude,
naquele tempo,
aquele tempo
eu sabia
mesmo através do
vazio,
era uma
celebração
não de algo a ser
feito
mas apenas
conhecido.
e à noite caminhando pelas ruas por
horas,
a luz do luar sempre me parecia
falsa, talvez fosse mesmo,
e no Bairro Francês eu via
passar os cavalos e as carroças,
todos sentados muito eretos nos carros
abertos, o motorista negro, e na
traseira o homem e a mulher,
frequentemente jovens e sempre brancos.
e eu estava sempre branco.
e muito pouco encantado com o
mundo.
Nova Orleans era um lugar onde se
esconder.
eu podia jogar fora a minha vida,
sem ser molestado.
exceto pelos ratos.
os ratos no meu quarto acanhado e escuro
profundamente ressentidos por terem de dividi-lo
comigo.
eles eram grandes e destemidos
e me encaravam com olhos
que comunicavam
sem pestanejar
uma ideia de morte.
as mulheres estavam fora do meu alcance.
viam em mim algo de
depravado.
havia uma garçonete
um pouco mais velha do que
eu, que esboçava um sorriso,
demorando-se ao me
trazer o
café.
aquilo me bastava,
era o
suficiente.
havia alguma coisa, porém,
naquela cidade:
ela não me deixava sentir culpa
por não ter sentimentos em relação às
coisas que tantos outros
precisavam.
ela me deixava em paz.
sentado em minha cama
as luzes apagadas,
ouvindo os sons que vinham
de fora,
erguendo a minha garrafa
de vinho barato,
deixando o calor
da uva
entrar
em mim
enquanto eu escutava os ratos
movendo-se ao redor do
quarto,
eu os preferia
aos
humanos.
estar perdido
quem sabe louco
não era tão mau
se você pudesse
ficar assim:
quieto no seu canto.
foi algo que Nova Orleans me
deu.
ninguém jamais chamou
meu nome.
nada de telefonemas,
nem carro,
nem emprego,
nada de
nada.
apenas eu e os
ratos
e minha juventude,
naquele tempo,
aquele tempo
eu sabia
mesmo através do
vazio,
era uma
celebração
não de algo a ser
feito
mas apenas
conhecido.
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Kōtarō Takamura
Poema do louco (Kyôsha no shi)
Venha e sopre, venha e sopre
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
O mundo está no final dos tempos, venha e sopre
Sopre contra minhas costas
Dentro da minha cabeça um gato melancólico mia
Em algum lugar, alguém se aproveita de Rodin
Coca-Cola, thank you very much
Nichô-me, sanchô-me, depois Owari-chô, em Ginza
Bonde elétrico, luz elétrica, fio elétrico, telefone
Triiim! triiim!
Até o galho do salgueiro, na neblina da noite
Cruza os braços pálidos e
Busca me aconselhar com carinho
Mais uma Coca-Cola
Sanatogen, Higiyama, balas para tosse
Acordo é proibido
Perfeição e paz são coisas secundárias
Eu persisto até o fim, persisto e realizo
Portanto, venha e sopre, venha e sopre
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
Da minha pele jorrou sangue
Ah! Agora ficou divertido! Venha e sopre
Qual o critério para estimar uma pessoa?
Sério? Frívolo? Idiota? Sensato?
thank you very much, very very much
Ohana, Oume, jovens e notórias cortesãs da casa Kôchi
Sou o único que me conhece
Se há algo mais, é a alma, superior ao ser humano que me concebeu
Dentro da minha cabeça um gato melancólico mia
Teatro de macacos com figurinos ocidentais
Quando Kôichibee morde Teikurô
A platéia ovaciona
O mundo está no final dos tempos, venha e sopre
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
Prólogo
Epílogo
“london bridge is broken down!”
Eu, afinal, estou em vias de enlouquecer
Ah! O perfume do cabelo!
Vem daquela mulher com grampo de chifre de cabra montês
Mais uma Coca-Cola
Louco, o que um louco pode fazer?
Eu, em todo caso, caminho
Nichô-me, sanchô-me, depois Owari-chô, em Ginza
A lua aparece sobre o telhado do teatro Kabuki
Sopre contra minhas costas
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
816
Luís Miguel Nava
O corpo espacejado
Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. Ia-se de dia para dia espacejando. As várias partes de que só por abstracção se chegava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via-láctea principiasse a abrir caminho. A sua carne exercia aliás uma enigmática atracção sobre as estrelas, que em breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes cujo brilho, transmutado em sangue, lentamente se esvaía. Ele mais não era, nessas ocasiões, do que um morrão, nas cinzas do qual, quase imperceptível, se podia no entanto detectar ainda a palpitação das vísceras, que a mais pequena alteração na direcção do vento era capaz de pôr de novo a funcionar. Resolveu então plastificar-se. Principiou pelas extremidades, pelos dedos das mãos e pelos pés, mas passado pouco tempo eram já os pulmões, os intestinos e o coração o que minuciosamente ele embrulhava em celofane, contra o qual as ondas produziam um ruído aterrador.
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José Saramago
Vertigem
Não vai o pensamento aonde o corpo
Não vai. Emparedado entre penedos,
Até o próprio grito se contrai.
E se o eco arremeda uma resposta,
São coisas da montanha, são segredos
Guardados entre as patas duma aranha
Que tece a sua teia de miséria
Sobre a pedra suspensa da encosta.
Não vai. Emparedado entre penedos,
Até o próprio grito se contrai.
E se o eco arremeda uma resposta,
São coisas da montanha, são segredos
Guardados entre as patas duma aranha
Que tece a sua teia de miséria
Sobre a pedra suspensa da encosta.
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