Poemas neste tema

Nação e Patriotismo

Menotti del Picchia

Menotti del Picchia

Língua Brasileira

O povo menino
no seu presepe de palmeiras
aguardou as oferendas de Natal.

A nau primeira
trouxe o Rei do Ocidente
que lhe deu o tesouro sem-par
do Cantar de Amigo,
dos Autos de Gil Vicente
e, depois, a epopéia de Camões.

No navio negreiro
veio o Melchior do mocambo
talhado em azeviche como um ídolo benguela,
com a oferta abracadabrante e gutural
dos monossílabos de cabala.

Nos transatlânticos e cargueiros,
o Rei Cosmopolita,
que tem as cores do arco-íris
e os ritmos de todos os idiomas,
trouxe-lhe o régio presente
das articulações universais.

Os três reis fizeram um acampamento das raças
e ensinaram o povo menino
a falar a língua misturada
de Babel e da América.

E assim nasceste,
ágil, acrobática, sonora, rica e fidalga,
ó minha língua brasileira!


Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série História.

In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.135-136. (Obras de Menotti del Picchia
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Gilka Machado

Gilka Machado

Aos Heróis do Futebol Brasileiro

Eu vos saúdo
heróis do dia
que vos fizestes compreender
numa linguagem muda,
escrevendo com os pés
magnéticos e alados
uma epopéia internacional!

As almas dos brasileiros
distantes
vencem os espaços,
misturam-se com as vossas,
caminham nos vossos passos
para o arremesso da pelota
para o chute decisivo
da glória da Pátria.

Que obra de arte ou de ciência,
de sentimento ou de imaginação
teve a penetração
dos gols de Leônidas
que, transpondo balizas
e antipatias,
souberam se insinuar
no coração
do Mundo!

Que obra de arte ou de ciência
conteve a idéia e a emotividade
de vossos improvisos
em vôos e saltos,
ó bailarinos espontâneos
ó poetas repentistas
que sorrindo oferecestes vosso sangue
à sede de glória
de um povo
novo?

Ha milhões de pensamentos
impulsionando vossos movimentos.

Na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza
os Leônidas e os Domingos
fixaram na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil.

Eia
atletas franzinos
gigantes débeis
que com astúcia e audácia,
tenacidade e energia
transfigurai-vos,
traçando aos olhos surpresos
da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido país.


Publicado no livro Sublimação (1938).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 199
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

À MEMÓRIA DO PRESIDENTE-REI SIDÓNIO PAIS

À MEMÓRIA DO PRESIDENTE-REI SIDÓNIO PAIS

Longe da fama e das espadas
Alheio às turbas ele dorme.
Em torno há claustros ou arcadas?
Só a noite enorme.

Porque para ele, já virado
Para o lado onde está só Deus,
São mais que Sombra e que Passado
A terra e os céus.

Ali o gesto, a astúcia, a lida,
São para ele, sem as ver,
Vácuo de acção sombra perdida,
Sopro sem ser.

Só com sua alma e com a treva,
A alma gentil que nos amou
Inda esse amor e ardor conserva?
Tudo acabou?

No mistério onde a Morte some
Aquilo a que a alma chama a vida.
Que resta dele a nós – só o nome
E a fé perdida?

Se Deus o havia de levar,
Para que foi que no-lo trouxe –
Cavaleiro leal, do olhar
Altivo e doce?

Soldado-rei que oculta sorte
Como em braços da Pátria ergueu,
E passou como o vento norte
Sob o ermo céu.

Mas a alma acesa não aceita
Essa morte absoluta, o nada
De quem foi Pátria, e fé eleita,
E ungida espada.

Se o amor crê que a Morte mente
Quando a quem quer leva de novo
Quão mais crê o Rei ainda existente
O amor de um povo!

Quem ele foi sabe-o a Sorte.
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A Vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei!

Não é com fé que nós não cremos
Que ele não morra inteiramente.
Ah, sobrevive! Inda o teremos
Em nossa frente.

No oculto para o nosso olhar,
No visível à nossa alma,
Inda sorri com o antigo ar
De força calma.

Ainda de longe nos anima,
Indo na alma nos conduz –
Gládio de fé erguido acima
Da nossa cruz!

Nada sabemos do que oculta
O véu igual de noite e dia.
Mesmo ante a Morte a Fé exulta:
Chora e confia.

Apraz no que em nós quer que seja
Qual Deus quis nosso querer tosco.
Crer que ele vela, benfazeja
Sombra connosco.

Não sai da nossa alma a fé
De que, alhures que o mundo e o fado,
Ele inda pensa em nós e é
O bem-amado.

Tenhamos fé, porque ele foi.
Deus não quer mal a quem o deu.
Não passa como o vento o herói
Sob o ermo céu.

E amanhã, quando queira a Sorte,
Quando findar a expiação,
Ressurrecto da falsa morte,
Ele já não.

Mas a ânsia nossa que encarnara,
A alma de nós de que foi braço,
Tornará, nova forma clara,
Ao tempo e ao espaço.

Tornará feito qualquer outro,
Qualquer coisa de nós com ele;
Porque o nome do herói morto
Inda compele;

Inda comanda, e a armada ida
Para os campos da Redenção,
Às vezes leva à frente, erguida
Spada, a Ilusão.

E um raio só do ardente amor,
Que emana só do nome seu,
Dê sangue a um braço vingador,
Se esmoreceu.

Com mais armas que com Verdade
Combate a alma por quem amo.
É lenha só a Realidade:
A fé é a chama.

Mas ai, que a fé já não tem forma
Na matéria e na cor da Vida.
E, pensada, em dor se transforma
A fé perdida!

Pra que deu Deus a confiança
A quem não ia dar o bem?
Morgado da nossa esperança,
A Morte o tem!

Mas basta o nome e basta a glória
Para ele estar connosco, e ser
Carnal presença de memória
A amanhecer;

Spectro real feito de nós,
Da nossa saudade e ânsia,
Que fala com oculta voz
Na alma, a distância;

E a nossa própria dor se torna
Uma vaga ânsia, um sperar vago,
Como a erma brisa que transtorna
Um ermo lago.

Não mente a alma ao coração.
Se Deus o deu, Deus nos amou.
Porque ele pôde ser, Deus não
Nos desprezou.

Rei-nato, a sua realeza,
Por não podê-la herdar dos seus
Avós, com mística inteireza
A herdou de Deus;

E, por directa consonância
Com a divina intervenção,
Uma hora ergueu-nos alta a ânsia
De salvação.

Toldou-o a Sorte que o trouxera
Outra vez com nocturno véu.
Deus pra que no-lo deu, se era
Pra o tornar seu?

Ah, tenhamos mais fé que a esp'rança!
Mais vivo que nós somos, fita
Do Abismo onde não há mudança
A terra aflita.

E se assim é, se, desde o Assombro
Aonde a Morte as vidas leva,
Vê esta pátria, escombro a escombro,
Cair na treva;

Se algum poder do que tivera
Sua alma, que não vemos, tem,
De longe ou perto – por que espera?
Por que não vem?

Em nova forma ou novo alento,
Que alheio pulso ou alma tome,
Regresse como um pensamento,
Alma de um nome!

Regresse sem que a gente o veja,
Regresse só que a gente o sinta –
Impulso, luz, visão que reja
E a alma pressinta!

E qualquer gládio adormecido,
Servo do oculto impulso, acorde,
E um novo herói se sinta erguido
Porque o recorde!

Governa o servo e o jogral.
O que íamos a ser morreu.
Não teve aurora a matinal
Strela do céu.

Vivemos só de recordar.
Na nossa alma entristecida
Há um som de reza a invocar
A morta vida;

E um místico vislumbre chama
O que, no plaino trespassado,
Vive ainda em nós, longínqua chama –
O DESEJADO.

Sim, só há a esp'rança, como aquela
– E quem sabe se a mesma? – quando
Se foi de Avis a última estrela
No campo infando.

Novo Alcácer Quibir na noite!
Novo castigo e mal do Fado!
Por que pecado novo o açoite
Assim é dado?

Só resta a fé, que a sua memória
Nos nossos corações gravou,
Que Deus não dá paga ilusória
A quem amou.

Flor alta do paul da grei,
Antemanhã da Redenção,
Nele uma hora encarnou El-Rei
Dom Sebastião.

O sopro de ânsia que nos leva
A querer ser o que já fomos,
E em nós vem como em uma treva,
Em vãos assomos,

Bater à porta ao nosso gesto,
Fazer apelo no nosso braço,
Lembrar ao sangue nosso o doesto
E o vil cansaço,

Nele um momento clareou,
A noite antiga se seguiu,
Mas que segredo é que ficou
No escuro frio?

Que memória, que luz passada
Projecta, sombra, no futuro,
Dá no alma? Que longínqua espada
Brilha no escuro?

Que nova luz virá raiar
Da noite em que jazemos vis?
Ó sombra amada, vem tornar
A ânsia feliz.

Quem quer que sejas, lá no abismo
Onde a morte a vida conduz,
Sê para nós um misticismo
A vaga luz

Com que a noite erma inda vazia
No frio alvor da antemanhã
Sente, da esp'rança que há no dia,
Que não é vã.

E amanhã, quando houver a Hora,
Sendo Deus pago, Deus dirá
Nova palavra redentora
Ao mal que há.

E um novo verbo ocidental
Encarnado em heroísmo e glória,
Traga por seu broquel real
Tua memória!

Precursor do que não sabemos,
Passado de um futuro a abrir
No assombro de portais extremos
Por descobrir,

Sê estrada, gládio, fé, fanal,
Pendão de glória em glória erguido!
Tornas possível Portugal
Por teres sido!

Não era extinta a antiga chama
Se tu e o amor puderam ser.
Entre clarins te a glória aclama,
Morto a vencer!

E, porque foste, confiando
EM QUEM SERÁ porque tu foste,
Ergamos a alma, e com o infando
Sorrindo arroste,

Até que Deus o laço solte
Que<
4 346
Martha Medeiros

Martha Medeiros

minh’alma portuguesa

minh’alma portuguesa
pois pois
não tem nada de Portugal
sou Inglaterra descarada
seca e civilizada
performance o dia inteiro
no peito
um coração underground
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Versiprosa

Soyez le bienvenu, mon général!
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
1 001
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XIV - De novo traz as aparentes novas

De novo traz as aparentes novas
Flores o Verão novo, e novamente
Verdesce a cor antiga
Das folhas redivivas.
Não mais, não mais dele o infecundo abismo,
Que mudo sorve o que mal somos, torna
À clara luz superna
A presença vivida.
Não mais; e a prole a que, pensando, dera
A vida da razão, em vão o chama,
Que as nove chaves fecham
Da Estige irreversível.
O que foi como um deus entre os que cantam,
O que do Olimpo as vozes, que chamavam,
Scutando ouviu, e, ouvindo,
Entendeu, hoje é nada.
Tecei embora as, que teceis, grinaldas.
Quem coroais, não coroando a ele?
Votivas as deponde,
Fúnebres sem ter culto.
Fique, porém, livre da leiva e do Orco,
A fama; e tu, que Ulisses erigira,
Tu, em teus sete montes,
Orgulha-te materna,
Igual, desde ele, às sete que contendem
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou heptápila Tebas,
Ogígia mãe de Píndaro.


22/10/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
2 161
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Resposta possível à pergunta anterior

Os amigos, a família mais próxima,
esta língua que nos coube, a timidez
alcandorada em cerimónia, o SG,
o vinho bom, a francesinha, os varandins
da burguesia duriense, o Alentejo,
a tradição arquitectónica da pedra,
da modéstia, do adobe, a cortesia
de ser pobre. A quietude remissiva
dos lugares frequentados p'la renúncia.
1 287
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IRONIA

Faz um a casa onde outro pôs a pedra.
O galego Colón, de Pontevedra,
Seguiu-nos para onde nós não fomos.
Não vimos da nossa árvore esses pomos.
Um império ganhou para Castela,
Para si glória merecida – aquela
De um grande longe aos mares conquistado.
Mas não ganhou o tê-lo começado.


(integrado no conjunto de poemas Mar Português e publicado na revista Contemporânea, nº 4, vol. II, 1922).
4 428
Ruy Belo

Ruy Belo

Na praia

Raça de marinheiros que outra coisa vos chamar
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 177 | Editorial Presença Lda., 1984
1 916
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um País, Um Poema

Um país se delimita nas mudanças do vento.
Labirinto ou fábrica de espumas sempre aberta.
Sinuosas continuidades, dunas de pensamento,
por vezes um abrigo, ninho de primavera,
por vezes um polvo ardendo nas areias.

Sobre uma espádua escrevo e no tremor de um corpo
cintilam os animais. Este é o âmbito destinado
em inteira nudez de forma e vida.
Desperto estou em ti movido pela luz
numa terra imóvel, liso como uma folha leve.

Um país se delimita e são vocábulos e pedras,
maciços obscuros, pátria de tantos rumores,
lenta germinação de lâmpadas de terra.
Um poema oculta a metáfora de si mesmo
no seu sopro e em nenhum saber culmina.
1 139
Ruy Belo

Ruy Belo

Sexta-feira sol dourado

Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984

1 450
Ruy Belo

Ruy Belo

O Portugal futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
1 562
Ruy Belo

Ruy Belo

No aniversário da libertação de Paris

O dissídio das trevas começara
Se figuras reais o tempo a sombras reduziu
não menos marca em faces vivas imprimiu
esparsas nas prisões entre a floresta negra e o mar báltico
A noite ao recuar como pela vazante o mar
deixou de pé impávidas na fímbria do dia
hirtas nas respectivas estaturas
as mulheres obscuras e escuras de corrèze
senhoras absolutas do silêncio
sobre os sombrios túmulos dos seus concidadãos
despertos na alsácia para a vida ali bebida
por esse chão francês onde nascemos todos nós
Se somos homens é porque temos voz
e através dos campos somos conduzidos
pelos cães que na noite erguem os seus latidos
Os maquis portadores de simbólicas bandeiras
arrastam-se debaixo de árvores rasteiras
pois a gestapo só nas gigantescas árvores
se digna demorar a principesca vista
A mais altiva divisão do fúhrer
blindada e couraçada numa espessa muralha de ferro
vê o caminho para a normandia
cerrar-se nas calosas mãos dos camponeses
mãos feitas para o pão e para a paz
mãos medida do homem não da máquina
Devassa a névoa dos vosges e o muro vegetal da alsácia
o canto cúmplice daqueles renitentes resistentes
talvez dali a nada forte mensageiro de morte
Porém já a ninguém a morte importa
mas sim o cativeiro vida mitigada
morte maior miúda e adiada
E a lágrima londrina de moulin
amigo da república espanhola
prefeito expulso pelos homens de vichy
proprietário apenas da palavra liberdade
a lágrima daquele a quem malraux chamou carnot da resistência
e o nazi barbie boliviano naturalizado
cobardemente acaba de dizer que hardy atraiçoou
essa lágrima nasce na incisiva e seca fala de de gaulle
e traz consigo a altivez e decisão
de um povo inteiro em pé por trás daquela face
sulcada pela lágrima caudal dos rios de um país
O inveterado laico que do sótão de um ignoto presbitério
fez chegar até londres sua voz sacramental
o pobre rei das sombras massacrado
condecorado já com uma cicatriz
incisa por si próprio uns três anos antes
junto às cordas vocais onde podia a sua voz
vibrar sob a tortura silencia para sempre
os sons articulados o único ferro
capaz de assinalar um homem livre
É no forte montluc de lião
que já sem fala imprime no papel que lhe apresentam a
fisionomia do verdugo que há-de executá-lo
O seu silêncio vela essas mulheres que velam pelos mortos
os maquis que rastejam sob os ramos de carrasco
as oito mil mulheres mortas nas masmorras alemãs
a última francesa assassinada em ravensbriick
por haver albergado um resistente
A ele chefe sem rosto desse exército da noite
desse povo de sombras que só ele iluminou
só a morte lhe deu um nome verdadeiramente seu
Mais do que libertar paris a resistência
restitui ao país a sua consciência
e as pétalas de flor que a multidão espargia
nos carros apagavam logo o pó da normandia
E os que por heróis em escravos se encontravam transformados
chegados mesmo ao cúmulo das dores
a própria morte olharam como vencedores
Sobre a luz da cidade tanto tempo extinta
sobre a cidade tanto tempo muda
os sinos são a voz da liberdade
difundida através do céu do verão e da cidade
E tu ó homem livre de qualquer país
podes ainda hoje ouvir esse dobrar do sino
e gravar no teu peito o que te diz:
temos nas nossas mãos o leme do destino
Nós os irmãos professos da ordem da noite
devolvemos a voz ao povo emudecido
pela ignorância forma extrema e eleita de opressão
Na sala de bilhares da estação de montparnasse
o general von choltitz após a rendição
desce no seu o olhar vencido do exército alemão
diante desse jovem general francês
que apenas diz: «Eu sou o general leclerc»
Era uma vez o tempo fugaz foge
Foi já há duas ou três décadas foi hoje



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 48 a 50 | Editorial Presença Lda., 1981
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Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga

Lira V

Eu não sou, minha Nise, pegureiro,
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!


Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
3 800
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MARCHA FÚNEBRE

Com lixo, dinheiro dos outros, e sangue inocente,
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente,
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,
(…)
Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.

O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.

Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.

Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.
1 752
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Clarim! Os mortos!

Contra Miguel de Vasconcellos
Republicano!

Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?

Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!

E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!

O Rei, a Lei, dias melhores …
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!

Hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;

Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;

Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;

Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,

Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
1 381
Ruy Belo

Ruy Belo

Espaço preenchido

Somos todos de aqui. Basta-nos a pátria
que uma tarde de domingo -nos consente
entre folhas de outono e frases de abandono
E abrem-se-nos ruas
para ir a sítios demasiado precisos
quando um só sítio se encontra
ao fim de todas as ruas e de todos os rios
Somos todos da raça dos mortos
ou vivos mais além
Mensagens de outra pátria não as traz
arauto algum que o nosso tempo vestisse

O que é preciso é dar lugar
aos pássaros nas ruas da cidade


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
1 358
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O fado cantado à guitarra

O fado cantado à guitarra
Tem um som de desejar.
Vejo o que via o Bandarra,
Não sei se na terra ou no ar.

Sou cego mas vejo bem
No tempo em vez de no ar.
Goze quem goza o que tem.
A nau se há-de virar.

Canto às vezes sem dar voz
Como penso sem falar.
A cegueira que Deus me pôs
E um modo de luz me dar.

Vejo claro quanto mais deixo
O corpo cego às escuras.
Rogo pragas, mas não me queixo.
As pedras são todas duras.

Vejo um grande movimento
Em roda de uma árvore alta.
Das estrelas no firmamento
Há a mais nova que falta.

A preguiça (?) anda de rastos,
Os mortos gemem na cova.
Os gados voltam aos pastos
Quando desce a estrela nova.

Lei[o] no escuro os sinais
Do Quinto Império a chegar.
O Bandarra via mais,
Mas Deus é que há-de dar

Sinto perto o que está longe,
Quando penso julgo que fito,
Meu corpo está sentado em hoje
Minh'alma anda no Infinito.

Ando pelo fundo do mar,
Pelas ilhas do avesso,
E uma coisa que há-de chegar
Tem ali o seu começo.

Há no fundo d'um poço em mim
Um buraco de luz para Deus.
Lá muito no fundo do fim
Um olho feito nos céus.

E pelas paredes do poço
Anda uma coisa a mexer.
Rei moço, lindo rei moço,
Só ali te posso ver!

Meu coração está a estalar,
Minha alma diz-lhe não.
Vejo o Encoberto chegar
No meio da cerração.

Vendidos à Inglaterra,
Caixeiros da França vil,
Meteram a gente na guerra
Como num cesto aos mil.

Este vem trôpego e cego
Lá das Flandres e das Franças,
Só para o Leotte do Rego
Endireitar as finanças.

Este, que aos muros se encosta,
Veio doido lá da tropa,
Só porque o Afonso Costa
Queria ser gente na Europa.

Anda o povo a passar fome
E quem o mandou para a França
Não tem barriga para o que come
Nem mãos para o que alcança.

Metade foi para a guerra,
Metade morreu de fome.
Quem morre, cobre-o a terra.
Quem se afoga, o mar o some.

Ninguém odiava o alemão.
Mais se odiava o francês.
Deram-nos uma espada para a mão
E uma grilheta para os pés.

É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É d'estrangeiros a nação,
Só a desgraça é portuguesa.

E a raça que descobriu
O oriente e o ocidente
Foi morrer de balas e frio
Para a cama dos Costas ser quente.

Mas a verdade há-de vir,
O mal há-de ser descoberto
E Portugal há-de subir
Com a vinda do Encoberto.

Hão-de rir dos versos do cego;
Hão-de rir mas hão-de chorar,
Quem não for o Leotte do Rego
E tiver Pátria a que amar.

M[ija]ram na pia da Igreja,
Escreveram na porta do Paço
É em linha recta de Beja
Que está quem traz o baraço.

Era dez réis por cada homem
Para o Chagas ter fato novo.
Cada prato que eles comem
É tirado da boca do povo.

Quem é bom nunca é feliz,
Quem é mau é que tem razão;
O Afonso vive em Paris
E o Sidónio está num caixão.

Pobre era Jesus Cristo
E ainda o puseram na cruz.
De dentro de mim avisto
O Princípio de uma luz.

Um dia o Sidónio torna.
Estar morto é estar a fingir.
Quem é bom pode perder a forma
Mas não perder o existir.

Depois de quarenta e oito
Quando o sol estiver no Leão,
Há-de vir quem traga o açoite,
Até os mortos se erguerão.

Não riam da minha praga,
Os que viverem verão
Porque toda a Bíblia acaba
Na visão de S. João.

Sou cego mas tenho vista
Com os olhos de ver no escuro.
Falta o melhor da conquista
Que é ver para lá do muro.

Falo na minha guitarra
Só com o meu coração,
Vejo o que via o Bandarra
E no fim há um clarão.

Vejo o Encoberto voltar,
Vejo Portugal subir,
Há uma claridade no ar
E um sol no meu sentir.

Por que mesmo quem não acredita
É preciso acreditar;
Quando a gente endoidece de aflita,
Até se abraça ao ar.

Até que para o lado da barra
Há-de vir um grande clarão,
E voltar, como diz o Bandarra,
El-Rei Dom Sebastião.

No seu dia veio o segundo,
No outro será o terceiro,
Se o segundo foi para o fundo,
O terceiro será o primeiro.

Eu não quero nenhum estrangeiro,
Francês e inglês é o demónio,
Cuidado com o Terceiro
Que não é o Pimenta ou o Sidónio.

Logo que a Lua mudar
De onde não mostra valia,
No meio do meio do ar
Há-de aparecer o dia.

Na sua ilha desconhecida
O Encoberto já vai acordar.
Inda tem a viseira subida
E o ar de dormir a pensar.

Seu olhar é de rei e chama
Pela alma como uma mão.
Não é português quem não o ama.
Viva D. Sebastião!

Minha esquerda é a direita
De quem corre para mim.
Do futuro alguém me espreita,
Portugal não terá fim.
1 116
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

De la diversa Andalucía

Cuántas cosas. Lucano que amoneda
el verso y aquel otro la sentencia.
La mezquita y el arco. La cadencia
del agua del Islam en la alameda.
Los toros de la tarde. La bravía
música que también es delicada.
La buena tradición de no hacer nada.
Los cabalistas de la judería.
Rafael de la noche y de las largas
mesas de la amistad. Góngora de oro.
De las Indias el ávido tesoro.
Las naves, los aceros, las adargas.
Cuántas voces y cuánta bizarría
y una sola palabra. Andalucía.




Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 622 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 158
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Conversa de Amigos

— Meu capitão, alvíssaras! O AI-5
vai ser cassado, e tudo fica brinco

na vida brasileira: uma só lei
que defenda e proteja toda a grei,

sem o estranho fantasma dessa Carta
roída pelo apêndice-lagarta.

— Boas falas, amigo. Celebremos
o sol da liberdade, com extremos

de carinho e fervor, que bem merece
o seu raiar, depois de tanta prece,

tanto esperar e tanto renunciar,
entre crer e descrer e duvidar

e voltar a insistir, em pensamento,
em palavra e silêncio, contra o vento.

Quer dizer que amanhã já temos novo
estatuto ditado pelo povo?

— Bem. Não é tanto assim. Foi dado o mote,
mas não vá com tanta sede ao pote.

Carece ter cuidado, jeito e calma,
não esmoreça e nem tropece a alma…

Capítulo importante: salvaguardas
que sejam eficazes qual bombardas,

mas não venham, com pinta diferente,
mascarar o AI-5 eternamente.

— Estou contigo. Em dose pra leão
qualquer remédio acaba com a Nação.

Mas há os “homens bons”, e com cautela
os vai ouvindo o Senador Portela.

De todas essas vozes concordantes,
uníssonas em pedir o quanto antes

o regresso ao estado de direito
(aspiração ardente em cada peito),

há de surgir a fórmula correta
que não seja de mágico ou de poeta,

capaz de garantir a liberdade
com sua irmã — responsabilidade.

Deve ser forte o Estado? Também forte
que seja o cidadão, de Sul a Norte,

consciente, vibrante, em sua fé,
escolhendo melhor do que Pelé.

Aguardemos, portanto, na vigília
de toda gente: em forma de família.

E que me contas mais? Outros assuntos?
— Não sei se deva pô-los assim juntos.

Enfim, grande lição vem de Israel
e do Egito, que, surdos ao tropel

de interesses guerreiros e rancores,
curam velhas feridas, velhas dores,

seguindo no bordado da esperança
de um futuro de luz e de bonança.

De Carnaval já vejo indícios mil
aqui no Rio: erige-se o perfil

de arquibancadas para o grande samba
daqui a meses… — Cáspite, caramba!

— O mais importa pouco. Mil buracos?
A gente se acostuma, e volta, aos cacos,

para casa, escapando dos assaltos
(uns escapam), driblando os sobressaltos

do moderno viver, tão mais gostoso
quanto mais o sentimos pavoroso.

— Não sejas tão azedo. Olha, o Natal
já vem pintando… e é o maior Sinal.

06/12/1977
713
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Foi-Se a Copa?

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus, chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
a Copa da Liberdade.

24/06/1978
1 575
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Juan López y John Ward

Les tocó en suerte una época extraña.
El planeta había sido parcelado en distintos países, cada uno provisto de lealtades, de queridas memorias, de un pasado sin duda heroico, de derechos, de agravios, de una mitología peculiar, de próceres de bronce, de aniversarios, de demagogos y de símbolos. Esa división, cara a los catógrafos, auspiciaba las guerras.
López había nacido en la ciudad junto al río inmóvil; Ward, en las afueras de la ciudad por la que caminó Father Brown. Había estudiado castellano para leer el Quijote.
El otro profesaba el amor de Conrad, que le había sido revelado en una aula de la calle Viamonte.
Hubieran sido amigos, pero se vieron una sola vez cara a cara, en unas islas demasiado famosas, y cada uno de los dos fue Caín, y cada uno, Abel.
Los enterraron juntos. La nieve y la corrupción los conocen.
El hecho que refiero pasó en un tiempo que no podemos entender.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 631 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Fragmentos de una tablilla de barro

Es la hora sin sombra. Melkart el Dios rige desde la cumbre del mediodía el mar de Cartago. Aníbal es la espada de Melkart.Las tres fanegas de anillos de oro de los romanos que perecieron en Apulia, seis veces mil, han arribado al puerto.
Cuando el otoño esté en los racimos habré dictado el verso final.
Alabado sea Baal, Dios de los muchos cielos, alabada sea Tanith, la cara de Baal, que dieron la victoria a Cartago y que me hicieron heredar la vasta lengua púnica, que será la lengua del orbe, y cuyos caracteres son talismánicos.
No he muerto en la batalla como mis hijos, que fueron capitanes en la batalla y que no enterraré, pero a lo largo de las noches he labrado el cantar de las dos guerras y de la exultación.
Nuestro es el mar. ¿Qué saben los romanos del mar?
Tiemblan los mármoles de Roma; han oído el rumor de los elefantes de guerra.
Al fin de quebrantados convenios y de mentirosas palabras, hemos condescendido a la espada.
Tuya es la espada ahora, romano; la tienes clavada en el pecho.
Canté la púrpura de Tiro, que es nuestra madre. Canté los trabajos de quienes descubrieron el alfabeto y surcaron los mares. Canté la pira de la clara reina. Canté los remos y los mástiles y las arduas tormentas...

Berna, 1984.


"Los conjurados", 1985


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 597 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pranto Geral Dos Índios

Chamar-te Maíra
Dyuna      Criadorseria mentir
pois os seres e as coisas respiravam antes de ti
mas tão desfolhados em seu abandono
que melhor fora não existissem
As nações erravam em fuga e terror
Vieste e nos encontraste
Eras calmo pequeno determinado
teu gesto paralisou o medo
tua voz nos consolou, era irmã
Protegidos de teu braço nos sentimos
O akangatar mais púrpura e sol te cingiria
mas quiseste apenas nossa fidelidade

Eras um dos nossos voltando à origem
e trazias na mão o fio que fala
e o foste estendendo até o maior segredo da mata
A piranha a cobra a queixada a maleita
não te travavam o passo
militar e suave
Nossas brigas eram separadas
e nossos campos de mandioca marcados
pelo sinal da paz
E dos que se assustavam pendia o punho
fascinado pela força de teu bem-querer
Ó Rondon, trazias contigo o sentimento da terra

Uma terra sempre furtada
pelos que vêm de longe e não sabem
possuí-la
terra cada vez menor
onde o céu se esvazia da caça e o rio é memória
de peixes espavoridos pela dinamite
terra molhada de sangue
e de cinza estercada de lágrimas
e lues
em que o seringueiro o castanheiro o garimpeiro o bugreiro colonial e moderno
celebram festins de extermínio

Não nos deixaste sós quando te foste
Ficou a lembrança, rã pulando n’água
do rio da Dúvida: voltarias?
Amigos que nos despachaste contavam de ti sem luz
antigo, entre pressas e erros, guardando
em ti, no teu amor tornado velho
o que não pode o tempo esfarinhar
e quanto nossa pena te doía

Afinal já regressas. É janeiro
tempo de milho verde. Uma andorinha
um broto de buriti nos anunciam
tua volta completa e sem palavra A coisa amarga
girirebboy circula nosso peito
e karori a libélula pousando
no silêncio de velhos e de novos
é como o fim de todo movimento

A manada dos rios emudece
Um apagar de rastos um sossego
de errantes falas saudosas uma paz
coroada de folhas nos roça
e te beijamos
como se beija a nuvem na tardinha
que vai dormir no rio ensanguentado

Agora dormes
um dormir tão sereno que dormimos
nas pregas de teu sono
Os que restam da glória velha feiticeiros
oleiros cantores bailarinos
estáticos debruçam-se em teu ombro
ron don ron don
repouso de felinos toque lento
de sinos na cidade murmurando
Rondon
Amigo e pai sorrindo na amplidão
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