Poemas neste tema

Morte e Luto

Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Aranha

Medusa
tecelã dos fios
da morte.

Seus olhos de Górgona
dilaceram
o corpo do vento.

Transformam
em rochas de sal
os filhos do nosso invento.

II

Num raio de sol
os fios da teia.
Arquitetura de vidro
com vigas de areia.

O fulgor da trama
que o vento incendeia.
Numa gota de orvalho
os olhos da teia.

Medusa acordada
a aranha passeia
nas ruas de seda
do seu devaneio.

III

Arquiteta
dos minutos
fiandeira
do tempo circular
semeadora
das messes do vazio
ceifadora
de asas e de vôos
contemporânea
dos anjos e da morte.

1 547
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Final de História

O quadro de formatura
foi pintado por Borsetti.
Borsetti, falsário exímio,
condenado por malfeitos,
aceita e avia encomendas
de todos os diplomandos
de academias mineiras.
Pintadas por trás de grades,
alegorias libertam-se,
vai Têmis e vai Hipócrates,
vão Mercúrio e saduceu
e vão sentenças latinas
cantando por toda parte
arte e engenho refinados
de montanhesa sapiência.
Meu Deus, formei-me deveras?
Sou eu, de beca alugada,
uma beca só de frente,
para uso fotográfico,
sou eu, ao lado de mestres
Ladeira, Laje, Roberto,
e do ínclito diretor
doutor Washington Pires?
Eu e meus nove colegas
mais essas três coleguinhas,
é tudo verdade? Vou
manipular as poções
que cortam a dor do próximo
e salvam os brasileiros
do canguari e do gálico?
Não posso crer. Interrogo
o medalhão do Amorim:
Companheiro, tu me salvas
do embrulho em que me meti?
Dou-te plenários poderes:
em tuas farmácias Luz
ou Santa Cecília ou Cláudia,
faze tudo que eu devia
fazer e que não farei
por sabida incompetência:
purgas, cápsulas, xaropes,
linimentos e pomadas,
aplica, meu caro, aplica
trezentas mil injeções,
atende, ajuda, consola
sê enfermeiro, sê médico,
sê padre na hora trevosa
da morte do pobre (a roça
exige de ti bem mais
que o nosso curso te ensina).
Vai, Amorim, sê por mim
o que jurei e não cumpro.
Fico apenas na moldura
do quadro de formatura.
1 586
John Berryman

John Berryman

26

As glórias do mundo me bateram, fizeram-me ária, certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
se tu num se incomoda.
- Henry. Henry tomou interesse pelo corpo das mulheres,
suas virilhas foram & foram palco de feitos estupendos.
Estupor. De joelhos, meu bem. Ore.

Todos as saliências & suavidades de, Deus meu,
o agachar-se & a confusão isto enxameava em Henry,
certa vez.
- Que então, Mr. Bones?
tu parece como que excitado.
Descaiu Henry, as costas no crime que origina: arte, rima

além dum sentimento do alheio, Deus meu, Deus meu,
e inveja da honra (vivente) de sua terra.
o que haveria de mais estranho?
e desgosto das gangues prosperantes & de heróis.
- Que então, Mr. Bones?
Tive uma sorte veramente fabulosa. Morri.

(tradução de Ismar Tirelli Neto)



Dream Song 26
John Berryman


The glories of the world struck me, made me aria, once.
-- What happen then, Mr. Bones?
if be you cares to say.
-- Henry. Henry became interested in women's bodies,
his loins were & were the scene of stupendous achievement.
Stupor. Knees, dear. Pray.

All the knobs & softnesses of, my God,
the ducking & trouble it swarm on Henry,
at one time.
-- What happen then, Mr. Bones?
you seems excited-like.
-- Fell Henry back into the original crime: art, rime

besides a sense of others, my God, my God,
and jealousy for the honour (alive) of his country,
what can get more odd?
and discontent with the thriving gangs & pride.
-- What happen then, Mr. Bones?
-- I had a most marvellous piece of luck. I died.



824
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Na mira

quartetos
(fragmentos)

I

Em vão jogar dados contaminados:sempre esperando, caso sobre caso,acidente branco em campo minado,uma certa explosão em cada passo.

Apostar em conta-gotas viciado:certeza de fratura exposta em aço,circulo só rabisco nos quadrados,isca disfarçada em frágil acaso.

V

Escapo por pura sorte.O criminoso se enrola.A noite fere e explode,nenhuma estrela me chora.

Quando acordo pela morte,que falha, cala e consola,vislumbro o lume que foge,perfeita pedra por fora.

Poema em espanhol
1 162
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Morto Vivendo

Aquele morreu amando.
Nem sentiu chegar a morte
quando à vida se abraçava
nem a morte o castigou.
Enquanto beijava o amor
a morte o foi transportando
nos braços do amor gozoso
sem desatar-se a cadeia
de vida enganchada em vida.
Aquele morreu? Quem sabe
o que foi feito do amante
alçado em coche de chamas
ou carruagem de cinzas
no ato pleno de amar?
Não corrigiu a postura,
não voltou aos intervalos
de solitude na espera,
não repetiu mais os gestos
fora do rito amoroso.
Morreu completo, no êxtase
de estar no mundo e extramundo.
Que sabe a morte do abraço
paralisado na luz
do quarto aberto ao amor
e defeso a tudo mais?
E se continua vivo
e mais do que vivo amando
sem paredes e sem ossos
nos vazios espaciais,
não sei como, não sei quem?
1 563
Sebastião Alba

Sebastião Alba

O limite diáfano

Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.


1 328
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Engate

O morto no sobrado
no porão a mulata
a pausa no velório
o beijo no escurinho
a pressa de engatar
o sentido da morte
na cor de teu desejo
que clareia o porão.

O morto nem ligando.
1 245
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Vigília

A qualquer hora do dia ou da noite,
o ano inteiro, a vida inteira,
os padres da Boa Viagem,
os padres de Santa Efigênia dos Militares
atendem a chamados para confissão de agonizantes.
Sai aviso no Minas
e a morte, que paira sobre Belo Horizonte
e sobre todas as cidades, em qualquer tempo,
sente limitado o seu poder.
Já não chega à traição,
já não golpeia sem que o pecador
possa arrepender-se
e na mão de Deus, na sua mão direita,
como queria Antero, apascentar-se.
A noite mineira é mais tranquila:
convida, camarada,
a pecar mais um momento, um só, bem lento.
1 174
Firmino Rodrigues da Silva

Firmino Rodrigues da Silva

Nénia

Niterói, Niterói, que é do sorriso
Donoso de ventura, que teus lábios
Outrora enfeitiçava? Cor de jambo
Pelo sol destes céus enrubescido
Já não são tuas faces; nem teus olhos
Lampejam de alegria. — Que é da coroa
De madressilva, de cecéns e rosas,
Que a fronte engrinaldava? — Ei-la de rojo
Trespassada de pranto, e as flores murchas
Mirradas pelo sopro do infortúnio.
De teus formosos olhos se desatam
Dois arroios de lágrimas; — tu choras,
Desventurada mãe, a perda infausta
Do filho teu amado; e que outro filho
Mais sincero chorar há merecido?!

Da noite o furacão prostrou tremendo
Audaz Jequitibá, que ainda na infância
Com a cima excelsa devassava os céus!
— Eu o vi pelos raios matutinos
Do sol apenas nado, auritingido
Ainda sepulta em trevas a floresta!
Eu o vi, e asilou-me a sua sombra.

Também sou filho teu, oh minha pátria,
E o melhor dos amigos hei perdido,
Da minha guarda o anjo... eia deixemos
Amargurado pranto deslizar-se
Por faces, onde o riso só folgara:
Que ele mitigue dor que não tem cura!

Eu disse; — e majestosa e bela ergueu-se
A princesa do vale... Ei-la que os olhos
Crava nos céus, e aos céus as mãos levanta;
De tanta desventura enternecida
A viração da tarde parecia
Com ela suspirar, gemer-lhe em torno,
As luzidias tranças esparzindo-lhe

Pelo moreno colo tão formoso.
O Sol já descambava pra o ocidente,
E em cima das montanhas semelhando
Um círio aceso pela mão dos séculos
A fronte iluminava-lhe: — direis
Que da maternidade o gênio augusto,
Ante do Eterno as aras majestosas
Que a natureza por si mesmo erguera,
Sobrepondo à montanha altos serros,
Lenitivo a seus males implorava.

— Oh! que mais lhe restava no infortúnio,
Senão volver pra o céu olhos maternos,
Para o céu, derradeiro, único abrigo,
Onde a esperança de vê-lo se acoitava? —
Ouvi que ela dizia:
"— Oh! meu filho,
Entre milhares filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?

Ainda ontem pendente do meu seio
Com sorrisos aos beijos respondias
Que amor de mãe nos lábios te arroiava.
De mil aromas perfumada a brisa
Embalava teu berço na palmeira,
E as rosas das campinas desfolhavam-se,
Porque teu vímeo leito amaciassem:
Oh! de meus filhos, filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?...

Ao donoso raiar da juventude
Vi-o mais belo do que o sol de julho
Que, desfeita a neblina, alto resplende!
De louro mel os lábios borrifou-lhe
Mimosa jataí; — branca açucena
Mais cândida não era que seu peito, —
Puro como os desejos dá inocência
Ingênua simpatia lhe esparzira
Um não sei quê de amável no semblante,
Que vê-lo era prezá-lo; — a fronte augusta
Traía o gênio que alma lhe acendia...
Oh! de meus filhos ufania e glória,

Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —
Que é feito do condor que o vôo ardido
Arrojava por cima desses Andes?
Dos céus nas sendas transviou-se acaso?
...................................... Ai! quão triste,
Quão sozinha deixou-me na floresta,
Gemendo de saudade! Vem, meu filho,
Consolo de meus males, minha esperança;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste? —

Tal como o rouco som das rotas vagas
Que contra as penedias bramam fúrias
Confuso burburinho ao longe ecoa
De gente que aproxima: — Ei-los — meus filhos,
Seus semblantes são pálidos; o gênio
Lampeja nos seus olhos cintilantes!
— Marchai avante, prole de esperança,
À glória, à glória, que o futuro é nosso... —
Mas que é dele? Não vai na vossa frente!
Ohl que é feito do rei da mocidade,
Tupá, Tupá, oh numem de meus pais!

Qual majestoso Chimborazo, esbelto
Alcantilado colo dentre os picos
Dos desvairados Andes, oh meu filho,
Em meio dessas turmas avultavas —
Oh Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito!
Não guiarei a turma das donzelas
Quando coréias rápidas tecendo
Por princesa dos jogos me aclamarem.
— Minhas irmãs, eu lhes direi, deixai-me
Na solidão chorar minhas desgraças;
Sem dó, nem compaixão, roubou-me a morte
Do meu cocar a pena mais mimosa;
A jóia peregrina do meu cinto,
O lírio mais formoso das campinas,
O lume de meus olhos! — Oh meu filho,
Ainda canta a araponga, e o rio volve
Na ruiva areia a lôbrega corrente;
Ainda retouca a laranjeira a coma
Verde-negra de flores alvejantes;
E tu já não existes! ..............................

Primeiro volverão séculos e séculos
Que outra palmeira tão gentil se ostente
Nestas florestas altas, gigantescas!
Como estalarão tantas esperanças
Num momento de dor! — Eia, dizei-mo,
Erguidas serras, broncas penedias
Oh! Tupá, oh Tupá, que mal te hei feito?!...

Não pude mais dizer... por entre as matas
Como um sonho ligeira a vi sumir-se.
E o oco som das vagas nos cachopos,
E o sibilo dos ventos nas florestas,
E o eco das montanhas, e o dos vales,
A modo que num coro majestoso
Ainda as últimas queixas repetiam:
Oh! Tupá! Oh! Tupá! que mal te hei feito

3 128
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Dois Fantasmas

O fantasma da Serra,
natural de Ouro Preto,
ninguém mais fala nele.
Desistiu; apagou.
Nos lentos, velhos tempos
cumpria seu destino
com toda a sisudez.
Era grave, pontual,
a ninguém assustava.
Surgia à meia-noite
e trinta, ponderado,
no nevoeiro de junho,
a pessoas seletas
que voltavam de festa.
Deixava-se ficar
junto a portões de chácaras
e lembrava sem gesto
a convivial presença
das almas do outro mundo
no coração mineiro.
Há muito ninguém volta
de festa na Floresta
ou qualquer outro bairro.
A rua embalsamada
permanece vestida
de solidão-magnólia.
Por falta de assistentes,
retira-se o fantasma
rumo ao País do Tédio.
Chega a vez do avantesma
da popular Lagoinha,
noutro extremo da vida.
Sinal de coisas novas.
É excêntrico, forja
diabruras cruéis.
Espanta motorneiros
sentando-se entre os trilhos
sem mover uma palha
se o bonde tilintante
desce a rampa. Conserva-se
em calmo desafio
à potência rangente.
O motorneiro, morto
de pavor, pula fora,
o condutor imita-o,
os raros passageiros
dessa hora glacial
aos gritos se levantam,
e, no tremendo instante
de esmagar o duende
ou de morrermos todos,
ele, o senhor de preto,
sem rosto, mas sarcástico
na postura insolente,
dissolve-se qual sonho
que não quer ser sonhado.
Em estrondar de rodas
de súbito freadas,
o pesadelo extingue-se.
Apenas se distingue
no interior do bonde
o convulsivo choro,
e na rua teatro
ao sol da lua cheia,
vago cheiro de enxofre.
1 458
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Sêmen

Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.

O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.

A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.

935
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

V - Como se cada beijo

Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.

3 059
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

História Trágica

— Esta ponte está podre,
não passa de janeiro.
Ou cai agora ou não me chamo
Flordualdo.

— Esta ponte cair? Meu avô foi quem fez.
Ninguém vivo, atual, dura mais do que ela.
Esta ponte é de Deus,
é Deus quem toma conta
da madeira e dos ferros,
eterno, tudo eterno.

— Pois eu digo que sim.
Repare nos buracos.
Você passa e ela treme
de velhice. O caruncho
alastrado nas vigas.
Esta ponte é o diabo,
ela está condenada
só você que não sabe.

— Alto lá.
Esta ponte é sagrada.
É ponte de família
que meu pai ajudou
a tirar da cabeça
e a dominar as águas.
Ela há de viver
nos séculos dos séculos
contra caruncho e raio,
dinamite e praga.
E, pra encurtar conversa,
eu Mateus te afianço:
antes que a ponte caia,
você cairá da ponte
com esta bala certeira:
toma.
1 075
António José Forte

António José Forte

Memorial

As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes


António José Forte, Uma Faca nos Dentes


1 428
António José Forte

António José Forte

O Bom Artífice

Entretanto
dez séculos mais tarde no local do drama
o diabo
diante do seu fomo
levanta por instantes seus doces olhos
para quatro mil cadafalsos

Vêde
mais além o bom artífice
mostrando
anjos
ou
batéis

ainda uma canção
se gostais
de belas torturas
não ouvireis nada



António José Forte, Uma Faca nos Dentes


1 086
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Oração da Tarde

Pelas almas,
pelas almas do Purgatório,
rezai a Salve-Rainha
Padre-Nosso, Ave-Maria,
as rezas que decorastes
no tempinho de criança.

Pelas almas,
pelas almas do Purgatório,
atirai vossas migalhas
sobre o vazio da Praça.
Têm fome de Deus as almas
e enquanto o não vão comendo
se consolam com esses restos.

Pelas almas
pelas almas do Purgatório,
desapertai vossas bolsas,
na sacola esfarrapada
quando bate à vossa porta
em nome da eternidade
o aleijado irmão-das-almas.

Pelas pobrinhas das almas.
1 071
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Abrãozinho

Largou a venda, largou o dinheiro,
largou a amante sem se despedir.
Foi para o Rio fazer o quê?
Sentar no banco em frente ao Supremo
Tribunal Federal,
estourar a tiro a própria cabeça,
fazendo justiça
a si mesmo, crime
ignorado até de si mesmo.
A carta de suicida
— “Me firmo Abraão Elias” —
nada esclarece.
892
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Resistência

O tísico
não tosse.
Não precisa tossir
para provar que continua tísico.
Rosto esverdinhado, barba por fazer,
pescoço envolto em lã xadrez,
roupa de brim dançante no esqueleto,
o tísico da cidade quando morre?

Cumprimentado de longe,
ninguém lhe aperta a mão.
Alguém já viu micróbios passeando
em seus ossudos dedos pré-defuntos.

Sua voz mal ouvida é som de longe,
de onde ninguém volta, ou só voltou
em véus de assombração. Terá morrido
o tísico, e transita,
pausado, de brim cáqui, em dia azul?

Morre de congestão o velho indagador,
de ataque morre súbito o fortudo
professor de ginástica. Morrem outros
de 20 anos, rapazes não marcados.
O tísico, vai tossindo, enterra todos.
1 352
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Morte de Noivo

Suicida-se o noivo de Carmela,
antes noivo de Isaura.
Desfeito o primeiro compromisso,
Carmela esperava-o do alto da sacada.
Para entrar, não precisa bater palmas
o amor. De uma rua
a outra rua, transita, pesquisando.
É Carmela a escolhida. E agora o noivo mata-se
com insabido veneno, sem uma palavra.

Duas moças vivendo a morte muda.
Nenhuma vai ao enterro. Proibido
chorar em público morte de infiel.
Cada uma em seu quarto solteiríssimo,
escurecido em quarto de viúva.
Isaura: Se não havia de ser meu,
nenhum dedo terá sua aliança.
Carmela: Todas duas fomos derrotadas
ou ninguém perdeu,
ganhou ninguém?

As fronhas são esponjas
de lágrimas secretas.
1 175
Sebastião Alba

Sebastião Alba

Último poema

(ao Jorge Viegas)


Nestes lugares desguarnecidos
e ao alto limpos no ar
como as bocas dos túmulos
de que nos serve já polir mais símbolos?

De que nos serve já aos telhados
canelar as águas de gritos
e com eles varrer o céu
(ou com os feixes de luar que devolvemos)?

É ou não o último voo
bíblico da pomba?

Que sem horizonte a esperamos
em nossa arca onde há milénios se acumulam
os ramos podres da esperança.


1 153
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ombro

Se triste é ir para o colégio distante,
fica mais triste ainda
ao ver Sebastião Ramos chorando no ombro de meu pai:

“Estou perdido! Nunca mais levanto!
A quebra dessa casa é a minha morte”.
O fragor do trem martela seu desespero,
ou seu desespero rilha nos trilhos
e, na caldeira, queima?

Ei, Sebastião Ramos, faz assim não na minha frente!
Também estou perdido: morte no internato.
Morrer vivo o ano inteiro é mais morrer
embora ninguém perceba
e ficarei sem ombro
para acalentar a minha morte.
Ó Sebastião Ramos, você roubou meu ombro.
1 245
Yoji Fujiyama

Yoji Fujiyama

A Garcia Lorca

A branca madrugada não sabia
que encontraria o teu corpo, frio
como o orvalho que caíra
de noite, manso, sobre os olhos.

Estavas já no outro plano
imenso e leve, e breve habitarias
todos os lugares que só tu
e os anjos conhecem intimamente.

O súbito estremecer de uma folhagem
ao toque ingênuo de uma lebre,
e uma asa que deslizava lenta

sobre os teus lábios, eram tudo
que em teu redor inda se movia.
O resto, sem aviso, emudecera longamente...

972
Yoji Fujiyama

Yoji Fujiyama

Opus Zero

A Élcio Xavier
Transmutas tua face, ó Morte, em grave
silêncio. E a comunhão das árvores
humildes é completa pelo toque solene
da fonte. Efêmera e resignada fonte
onde bebias com a indiferença de um vencedor.

Morte, Morte sem símbolo. Inútil espanto
das aves inocentes. Inútil oferta
de um sacrifício. Que representaria o altar
se nele vivesse o perene e não o ocasional?
Que representaria o perpetuar-se
de um canto se a certeza do eterno
bafejasse os seus passos? Oh incerto,
trivial alimento de uma casta de condenados!

841
Pentti Saarikoski

Pentti Saarikoski

XXXV

eu nunca estarei à altura dos meus poemas
eu tusso eu ofego
enquanto eles respiram livremente
eu caminho por aí de olhar fixo
eles conhecem seu próprio valor
me ridicularizam
à noite eles saem aos berros às ruas
mas de dia sentam-se comportados no escritório
batendo à mesa com um lápis dizendo
qual o seu número?
eu me decepcionei com todos eles
eu não os criei à minha imagem e semelhança?
eles deviam fazer propaganda de mim mesmo
e o que eles estão fazendo?
sorrindo com desdém
enquanto uma delegação de poetas europeus os aplaude
eu desmaio num banco de parque a cagar nas calças
quando estou doente eles vêm me ver? não
quando estiver morto
trarão flores ao meu túmulo? oh não
eles não têm órgãos internos
eles não envelhecem
eu encolho enquanto crescem
eu morro
e eles vivem com a bunda virada pra lua
601