Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Fernando Pessoa
Deixa passar o vento
Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
1 696
Fernando Pessoa
The master said you must not heed
The Master said you must not heed
What others talk of at their need.
Under the happy trees they sit
That talk of nothing and of wit.
Under the silent trees they stand
That talk of mist and no man's land.
Under the sulky trees they lie
That wonder of the earth and sky.
This was the matter of the song
No one could sing or well or long.
This was the substance of the tale
No one could tell unless it fail.
This was the subject of the verse
The last one made, lest earth be worse.
So that the collateral nightingale
Forgot its music and its tale.
So the lark rose and found but air
And false dominion everywhere.
So the dropt eagle, loosing prey,
Swept by and owned but the void day.
Yet what the secret of all this
May be or was none now can guess.
Perhaps beyond what thought defines,
Like wine some chance that some one may
Make shade and sleep of yesterday.
But wether this be sense or nought,
Surely it was a careful thought
To have the lawn so nicely laid
Out and the critics all gainsaid,
It was the reason and the home.
The rest is why tis right to roam.
02/02/1917
What others talk of at their need.
Under the happy trees they sit
That talk of nothing and of wit.
Under the silent trees they stand
That talk of mist and no man's land.
Under the sulky trees they lie
That wonder of the earth and sky.
This was the matter of the song
No one could sing or well or long.
This was the substance of the tale
No one could tell unless it fail.
This was the subject of the verse
The last one made, lest earth be worse.
So that the collateral nightingale
Forgot its music and its tale.
So the lark rose and found but air
And false dominion everywhere.
So the dropt eagle, loosing prey,
Swept by and owned but the void day.
Yet what the secret of all this
May be or was none now can guess.
Perhaps beyond what thought defines,
Like wine some chance that some one may
Make shade and sleep of yesterday.
But wether this be sense or nought,
Surely it was a careful thought
To have the lawn so nicely laid
Out and the critics all gainsaid,
It was the reason and the home.
The rest is why tis right to roam.
02/02/1917
4 253
Fernando Pessoa
10 - THE POEM
THE POEM
There sleeps a poem in my mind
That shall my entire soul express.
I feel it vague as sound and wind
Yet sculptured in full definiteness.
It has no stanza, verse or word.
Ev'n as I dream it, it is not.
'Tis a mere feeling of it, blurred,
And but a happy mist round thought.
Day and night in my mystery
I dream and read and spell it over,
And ever round words' brink in me
Its vague completeness seems to hover.
I know it never shall be writ.
I know I know not what it is.
But I am happy dreaming it,
And false bliss, although false, is bliss.
There sleeps a poem in my mind
That shall my entire soul express.
I feel it vague as sound and wind
Yet sculptured in full definiteness.
It has no stanza, verse or word.
Ev'n as I dream it, it is not.
'Tis a mere feeling of it, blurred,
And but a happy mist round thought.
Day and night in my mystery
I dream and read and spell it over,
And ever round words' brink in me
Its vague completeness seems to hover.
I know it never shall be writ.
I know I know not what it is.
But I am happy dreaming it,
And false bliss, although false, is bliss.
4 463
Fernando Pessoa
Jovem morreste, porque regressaste,
A. Caeiro
Jovem morreste, porque regressaste,
Ó deus inconsciente, onde teus pares
De após Cronos te esperam
Ressuscitados deles.
Antes de ti já era a Natureza,
Mas não a alma de compreendê-la.
Deu-te o deus o instinto
Com que sentir as cousas.
Os deuses imortais reconduziste
À humana visão obscurecida
(...)
(...)
Sós ficamos, mas não abandonados,
Porque a obra, que deixaste, és tu ainda
Qual luz à extinta estrela
Póstuma a terra alaga.
Por seu os deuses contam quem
E com teu nome a divindade prestas
De ser eterna à pátria
Odisseia cidade
Igual des ti às sete que contendem,
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou heptápila Tebas
Ogígia mãe de Píndaro.
Jovem morreste, porque regressaste,
Ó deus inconsciente, onde teus pares
De após Cronos te esperam
Ressuscitados deles.
Antes de ti já era a Natureza,
Mas não a alma de compreendê-la.
Deu-te o deus o instinto
Com que sentir as cousas.
Os deuses imortais reconduziste
À humana visão obscurecida
(...)
(...)
Sós ficamos, mas não abandonados,
Porque a obra, que deixaste, és tu ainda
Qual luz à extinta estrela
Póstuma a terra alaga.
Por seu os deuses contam quem
E com teu nome a divindade prestas
De ser eterna à pátria
Odisseia cidade
Igual des ti às sete que contendem,
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou heptápila Tebas
Ogígia mãe de Píndaro.
1 394
Manuel Bandeira
Poema para Santa Rosa
Pousa na minha a tua mão, protonotária.
O alexandrino, ainda que sem a cesura mediana, aborrece-me.
Depois, eu mesmo já escrevi: Pousa a mão na minha testa,
E Raimundo Correia: “Pousa aqui, etc.”
É Pouso demais. Basta Pouso Alto.
Tão distante e tão presente. Como uma reminiscência da infância.
Pousa na minha a tua mão, protonotária.
Gosto de “protonotária”.
Me lembra meu pai.
E pinta bem a quem eu quero.
Sei que ela vai perguntar: — O que é protonotária?
Responderei:
— Protonotário é o dignitário da Cúria Romana que expede, nas grandes causas, os atos que os simples notários apostólicos expedem nas pequenas.
E ela: — Será o Benedito?
— Meu bem, minha ternura é um fato, mas não gosta de se mostrar:
É dentuça e dissimulada.
Santa Rosa me compreende.
Pousa na minha a tua mão, protonotária.
O alexandrino, ainda que sem a cesura mediana, aborrece-me.
Depois, eu mesmo já escrevi: Pousa a mão na minha testa,
E Raimundo Correia: “Pousa aqui, etc.”
É Pouso demais. Basta Pouso Alto.
Tão distante e tão presente. Como uma reminiscência da infância.
Pousa na minha a tua mão, protonotária.
Gosto de “protonotária”.
Me lembra meu pai.
E pinta bem a quem eu quero.
Sei que ela vai perguntar: — O que é protonotária?
Responderei:
— Protonotário é o dignitário da Cúria Romana que expede, nas grandes causas, os atos que os simples notários apostólicos expedem nas pequenas.
E ela: — Será o Benedito?
— Meu bem, minha ternura é um fato, mas não gosta de se mostrar:
É dentuça e dissimulada.
Santa Rosa me compreende.
Pousa na minha a tua mão, protonotária.
1 698
Fernando Pessoa
XXXII - When I have sense of what to sense appears,
When I have sense of what to sense appears,
Sense is sense ere 'tis mine or mine in me is.
When I hear, Hearing, ere I do hear, hears.
When I see, before me abstract Seeing sees.
I am part Soul part I in all I touch –
Soul by that part I hold in common with all,
And I the spoiled part, that doth make sense such
As I can err by it and my sense mine call.
The rest is wondering what these thoughts may mean,
That come to explain and suddenly are gone,
Like messengers that mock the message' mien,
Explaining all but the explanation;
As if we a ciphered letter's cipher hit
And find it in an unknown language writ.
Sense is sense ere 'tis mine or mine in me is.
When I hear, Hearing, ere I do hear, hears.
When I see, before me abstract Seeing sees.
I am part Soul part I in all I touch –
Soul by that part I hold in common with all,
And I the spoiled part, that doth make sense such
As I can err by it and my sense mine call.
The rest is wondering what these thoughts may mean,
That come to explain and suddenly are gone,
Like messengers that mock the message' mien,
Explaining all but the explanation;
As if we a ciphered letter's cipher hit
And find it in an unknown language writ.
4 263
Fernando Pessoa
É Carnaval, e estão as ruas cheias
É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
1 179
Manuel Bandeira
Nova Poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
19 de maio de 1949
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
19 de maio de 1949
1 557
Fernando Pessoa
Não leio já; queria abrir um livro
Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
755
Fernando Pessoa
Li vaga — inerte — e sonhadoramente li
Li vaga — inerte — e sonhadoramente li
Compreendendo mais do que havia
Em frase (...)
Fechei tremendo, os livros, e sentindo
Como que de detrás da consciência,
Negrume transcendendo o que de horror
(...)
Desde então o constante persistir
Do mistério em minha alma não me deixa
Quieto o espírito, por meditar
Que seja, meditando sempre.
Compreendendo mais do que havia
Em frase (...)
Fechei tremendo, os livros, e sentindo
Como que de detrás da consciência,
Negrume transcendendo o que de horror
(...)
Desde então o constante persistir
Do mistério em minha alma não me deixa
Quieto o espírito, por meditar
Que seja, meditando sempre.
1 317
Fernando Pessoa
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
1 400
Gilberto Mendonça Teles
Coreografia do Mito
4. "Un pas de trois"
Houve um reino qualquer e três sereias
que afinavam seu canto na linguagem:
a virgem, a casada e a que passava
seus dias na janela.
E havia a forma
de sirene e silêncio,
essas metades,
renda de bilro, milongagem, força
oculta e sem governo,
latejantes
nas têmporas do mito.
A primeira voltou à sua estância,
leu Bandeira, fez versos,
desnudou-se.
E, cumprindo o ritual, como sereia,
foi banhar-se num rio de água doce.
A segunda voltou-se para o mar,
tomou banho lustral de fevereiro,
fez cirandas na areia e ouviu lendas
da lira pendurada no coqueiro.
A terceira me deu esta janela
com desenho de peixe na vidraça.
E está sempre acenando
lá do fundo
do rio que não passa.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 69-70. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 4 partes: 1. Lorelei; 2. Iemanjá; 3. Iara; 4. Un pas de troi
Houve um reino qualquer e três sereias
que afinavam seu canto na linguagem:
a virgem, a casada e a que passava
seus dias na janela.
E havia a forma
de sirene e silêncio,
essas metades,
renda de bilro, milongagem, força
oculta e sem governo,
latejantes
nas têmporas do mito.
A primeira voltou à sua estância,
leu Bandeira, fez versos,
desnudou-se.
E, cumprindo o ritual, como sereia,
foi banhar-se num rio de água doce.
A segunda voltou-se para o mar,
tomou banho lustral de fevereiro,
fez cirandas na areia e ouviu lendas
da lira pendurada no coqueiro.
A terceira me deu esta janela
com desenho de peixe na vidraça.
E está sempre acenando
lá do fundo
do rio que não passa.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 69-70. Poema integrante da série Sombras da Terra.
NOTA: Poema composto de 4 partes: 1. Lorelei; 2. Iemanjá; 3. Iara; 4. Un pas de troi
1 659
Fernando Pessoa
EPITAPH - Here lies who thought himself the best
EPITAPH
Here lies who thought himself the best
Of poet’s in the world’s extend;
In life he had not joy nor rest.
He filled with madness many a song,
And at whatever age he died
Thus many days he lived too long.
He lived im powerless egotism,
His soul tumultuous and disordered
By thought and feeling’s endless schism.
In everything he had a foe
And without courage bore his part
In life’s interminable woe.
He was a slave to grief and fear
And incoherent thoughts he had
And wishes unto madness near.
Those whom he loved, by arts of ill
He treated worse than foes; but he
His own worst enemy was still.
He of himself did ever sing,
Incapable of modesty,
Lock’d in his wild imagining.
Useless was all his toiless trouble
Empty of sense his fears and pains
And many of them were ignoble.
Vile thus and worthless his distress;
His words, though bitterer far than hate,
His bitter soul could not express.
.........
Let not a healthy mind pollute
His grave, but fitly there will pass
The traitor and the prostitute;
The drunkard and the wencher there
May pass, but quick, lest they should ponder,
Perchance, that pleasure is but air.
Each weak and execrable mind
Which plagued man with its rotteness
Its conscious master here will find.
Conscious, for in him he could tell
Madness and ill were what they were,
But neither did he will to quell.
Pass by therefore ye who can weep,
Let rotteness work in neglect,
While the rough winds the dead leaves sweep.
His slumbering brother to the sod
Not even in imagining
Disturb not with the name of God.
But let him lie and peace for ever
Far from the eyes and mouth of men
And from what him from them did sever.
He was a thing that God had wrought
And to the sin of having lived
He joined the crime of having thought.
Alexander Search, Julho de 1907
Here lies who thought himself the best
Of poet’s in the world’s extend;
In life he had not joy nor rest.
He filled with madness many a song,
And at whatever age he died
Thus many days he lived too long.
He lived im powerless egotism,
His soul tumultuous and disordered
By thought and feeling’s endless schism.
In everything he had a foe
And without courage bore his part
In life’s interminable woe.
He was a slave to grief and fear
And incoherent thoughts he had
And wishes unto madness near.
Those whom he loved, by arts of ill
He treated worse than foes; but he
His own worst enemy was still.
He of himself did ever sing,
Incapable of modesty,
Lock’d in his wild imagining.
Useless was all his toiless trouble
Empty of sense his fears and pains
And many of them were ignoble.
Vile thus and worthless his distress;
His words, though bitterer far than hate,
His bitter soul could not express.
.........
Let not a healthy mind pollute
His grave, but fitly there will pass
The traitor and the prostitute;
The drunkard and the wencher there
May pass, but quick, lest they should ponder,
Perchance, that pleasure is but air.
Each weak and execrable mind
Which plagued man with its rotteness
Its conscious master here will find.
Conscious, for in him he could tell
Madness and ill were what they were,
But neither did he will to quell.
Pass by therefore ye who can weep,
Let rotteness work in neglect,
While the rough winds the dead leaves sweep.
His slumbering brother to the sod
Not even in imagining
Disturb not with the name of God.
But let him lie and peace for ever
Far from the eyes and mouth of men
And from what him from them did sever.
He was a thing that God had wrought
And to the sin of having lived
He joined the crime of having thought.
Alexander Search, Julho de 1907
5 094
Fernando Pessoa
DESOLATION
DESOLATION
Here where the rugged hills
Their gnarled loose bases grip into the earth,
And nothing save the sorrow of our birth
From seeing the seeing spirit fills,
Here where, among the grim, deserted stones,
Na hope of green for desertness atones,
Or water's sound
Make sweet the solitude around,
Here may I lay
This day
My head
Upon the ground and say
No better bed
Can he who has but himself for life have,
Nor better grave.
The sterile part
Of love, feeling, was given me.
Fom the humanness even of a broken heart
God set me free.
Out of my destiny no flower was made
To grow.
All in me fated was not even to fade
Or e'en a vain and transient glory show.
The very need
For love or joy or the human part of thought,
Pride, and the abstract greed
For truth, that lifts the heart and doth allot
A value of self and world to consciousness –
Even this bliss
My empty heart has not.
O weary born,
Faded begun.
Gone from unseen shores to seen shores forlorn,
Sent out of sun-gone unto unborn sun!
The singer of his wish
To sing no song,
The poor spendthrift rich
With knowing not fo, what to long.
The Hyperion dispossessed
Ere birth
Of that sun-mansion set out beyond rest
Above the wide-lit stretches of the earth.
The uncrowned king
That never saw the land
Of which he oft doth sing,
And whose lost path he cannot understand
Nor know to dream steps him there to bring.
The priest deferred
From the inner shrine.
The thought but never uttered word,
The fore spilt wine,
The anxiousness for hope, the cold divine
Of anguish that no anguish human is,
The solitary pine
On the cold hill of consciousness.
The hour
The lord
Returns
Back to the polluted bower,
Home to the intransitable ford,
Again to the ice-padlocked burns:
The shadow
Fixedly thrown
On the green meadow
By a tree overgrown
With leaves, but fruitless, flowerless and lone.
The last
Sight of a shore
Which the unhalting ship doth pass
And where it never shall pass more;
But where the heart-dim sailor knows
Homes are happy because not his,
Lips warm because never his lips to kiss,
Gardens fair because therein grows
The unfound rose,
Hours soft, fate fresh, life a real fair elf
Because somewhere outside himself.
16/10/1916
Here where the rugged hills
Their gnarled loose bases grip into the earth,
And nothing save the sorrow of our birth
From seeing the seeing spirit fills,
Here where, among the grim, deserted stones,
Na hope of green for desertness atones,
Or water's sound
Make sweet the solitude around,
Here may I lay
This day
My head
Upon the ground and say
No better bed
Can he who has but himself for life have,
Nor better grave.
The sterile part
Of love, feeling, was given me.
Fom the humanness even of a broken heart
God set me free.
Out of my destiny no flower was made
To grow.
All in me fated was not even to fade
Or e'en a vain and transient glory show.
The very need
For love or joy or the human part of thought,
Pride, and the abstract greed
For truth, that lifts the heart and doth allot
A value of self and world to consciousness –
Even this bliss
My empty heart has not.
O weary born,
Faded begun.
Gone from unseen shores to seen shores forlorn,
Sent out of sun-gone unto unborn sun!
The singer of his wish
To sing no song,
The poor spendthrift rich
With knowing not fo, what to long.
The Hyperion dispossessed
Ere birth
Of that sun-mansion set out beyond rest
Above the wide-lit stretches of the earth.
The uncrowned king
That never saw the land
Of which he oft doth sing,
And whose lost path he cannot understand
Nor know to dream steps him there to bring.
The priest deferred
From the inner shrine.
The thought but never uttered word,
The fore spilt wine,
The anxiousness for hope, the cold divine
Of anguish that no anguish human is,
The solitary pine
On the cold hill of consciousness.
The hour
The lord
Returns
Back to the polluted bower,
Home to the intransitable ford,
Again to the ice-padlocked burns:
The shadow
Fixedly thrown
On the green meadow
By a tree overgrown
With leaves, but fruitless, flowerless and lone.
The last
Sight of a shore
Which the unhalting ship doth pass
And where it never shall pass more;
But where the heart-dim sailor knows
Homes are happy because not his,
Lips warm because never his lips to kiss,
Gardens fair because therein grows
The unfound rose,
Hours soft, fate fresh, life a real fair elf
Because somewhere outside himself.
16/10/1916
4 443
Carlos Drummond de Andrade
Em Versiprosa
Soyez le bienvenu, mon général!
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
1 004
Urhacy Faustino
De boca aberta
Em nossas brigas não voam televisões,
nem há corporais agressões:
o verbo é a flecha que nos perfura
mesmo nos tempos e modos que a gente se censura.
Trocamos o costumeiro texto sacana
por verborrágica luta insana
e, se alguém se sente em desvantagem,
apela pra figuras de linguagem,
misturando metáforas, pleonasmos,
com licenças poéticas, no orgasmo
ao medirem forças dois titãs.
Até que já sem fala, de manhã,
mais sedentos que famintos, como taças
nos bebemos um ao outro, extasiados
de repente sem palavras, embrigados,
(eis que a língua se enrola, a gramática falha),
nos lambemos em nossa cama de batalha,
onde desejos e tesões explodem atômicos
em delírios guturais, gozando afônicos.
nem há corporais agressões:
o verbo é a flecha que nos perfura
mesmo nos tempos e modos que a gente se censura.
Trocamos o costumeiro texto sacana
por verborrágica luta insana
e, se alguém se sente em desvantagem,
apela pra figuras de linguagem,
misturando metáforas, pleonasmos,
com licenças poéticas, no orgasmo
ao medirem forças dois titãs.
Até que já sem fala, de manhã,
mais sedentos que famintos, como taças
nos bebemos um ao outro, extasiados
de repente sem palavras, embrigados,
(eis que a língua se enrola, a gramática falha),
nos lambemos em nossa cama de batalha,
onde desejos e tesões explodem atômicos
em delírios guturais, gozando afônicos.
785
Fernando Correia Pina
Na breve arquitectura de um soneto
Na breve arquitectura de um soneto,
em seus catorze versos de harmonia,
tentava ela celebrar um preto
que lhe enchia as noites de alegria.
No rosto começou. Em quatro estrofes
os beiços lhe cantou e o vasto peito,
sereno espelho de ébano perfeito,
mar embalado na maré dos bofes.
Passou depois às coxas e joelhos,
cantou-lhe o negro aço dos pintelhos
e ia já no mastro duro e liso
quando notou que fechar num terceto
quase dois palmos de caralho preto
era coisa de quem não tem juízo.
em seus catorze versos de harmonia,
tentava ela celebrar um preto
que lhe enchia as noites de alegria.
No rosto começou. Em quatro estrofes
os beiços lhe cantou e o vasto peito,
sereno espelho de ébano perfeito,
mar embalado na maré dos bofes.
Passou depois às coxas e joelhos,
cantou-lhe o negro aço dos pintelhos
e ia já no mastro duro e liso
quando notou que fechar num terceto
quase dois palmos de caralho preto
era coisa de quem não tem juízo.
1 198
Manuel Bandeira
Escusa
Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade.
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar O gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.
Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade.
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar O gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.
Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.
1 356
Felipe Vianna
INVEJA
Poesia de uma nota só
Para a inveja.
Dó!
18/11/1997
Para a inveja.
Dó!
18/11/1997
807
Felipe Vianna
POETA
Nenhum poeta
Faz poesia do que não sente.
Se não sente,
Não faz poesia;
Apenas escreve linhas.
Só o sofrimento mais profundo
Transforma a tinta da caneta
Em lágrimas de dor.
Só a paixão mais forte dá ao poeta,
Na sensação do lápis deslizar no papel,
O prazer do carinho nas costas de sua amada.
Ser poeta é sofrer mais,
É amar mais,
É sentir mais,
E não ter vergonha de passar ao papel
Seus sentimentos mais íntimos.
20/12/2000
Faz poesia do que não sente.
Se não sente,
Não faz poesia;
Apenas escreve linhas.
Só o sofrimento mais profundo
Transforma a tinta da caneta
Em lágrimas de dor.
Só a paixão mais forte dá ao poeta,
Na sensação do lápis deslizar no papel,
O prazer do carinho nas costas de sua amada.
Ser poeta é sofrer mais,
É amar mais,
É sentir mais,
E não ter vergonha de passar ao papel
Seus sentimentos mais íntimos.
20/12/2000
653
Felipe Vianna
POESIA À POESIA
Rosas, amor, morte, vida,
São as armas da poesia.
Poesia hoje não lida,
Poesia hoje esquecida.
Poesia é um discurso,
Um discurso com muito som.
Se seu ritmo é bonito
É de alguém com muito dom.
Poesia é cultura,
É beleza, é arte pura.
Canto dos pássaros,
Pérola dos poetas.
Na vida das poesias
Tantas vidas se passaram,
Estas vidas já se foram
Mas nas poesias ficaram.
Tão bela quanto a rosa
A poesia ainda é,
Mas hoje, totalmente esquecida
Na conquista da mulher.
Já vou aos poucos findando
Esta poesia de dor,
Dor da ausência da arte
Na presença de um amor.
13/04/1991
São as armas da poesia.
Poesia hoje não lida,
Poesia hoje esquecida.
Poesia é um discurso,
Um discurso com muito som.
Se seu ritmo é bonito
É de alguém com muito dom.
Poesia é cultura,
É beleza, é arte pura.
Canto dos pássaros,
Pérola dos poetas.
Na vida das poesias
Tantas vidas se passaram,
Estas vidas já se foram
Mas nas poesias ficaram.
Tão bela quanto a rosa
A poesia ainda é,
Mas hoje, totalmente esquecida
Na conquista da mulher.
Já vou aos poucos findando
Esta poesia de dor,
Dor da ausência da arte
Na presença de um amor.
13/04/1991
606
Ana Marques Gastão
Alvo
Por uma vez conta como o corpo se ajusta à superfície
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.
723
Daniel Francoy
LATITUDES
Fala-me Conrad de um tempo,
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso –
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau após degrau.
Sujamo-nos, não há outro caminho
que não seja ter as mãos sujas.
Sujamo-nos e são as mãos sujas
o último elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizível,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O último elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pólen.
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso –
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau após degrau.
Sujamo-nos, não há outro caminho
que não seja ter as mãos sujas.
Sujamo-nos e são as mãos sujas
o último elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizível,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O último elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pólen.
1 173
Torquato Neto
Marginália II
eu, brasileiro, confesso
minha culpa meu pecado
meu sonho desesperado
meu bem guardado segredo
minha aflição
eu, brasileiro, confesso
minha culpa meu degredo
pão seco de cada dia
tropical melancolia
negra solidão:
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
aqui o terceiro mundo
pede a bênção e vai dormir
entre cascatas palmeiras
araçás e bananeiras
ao canto da juriti
aqui meu pânico e glória
aqui meu laço e cadeia
conheço bem minha história
começa na lua cheia
e termina antes do fim
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
minha terra tem palmeiras
onde sopra o vento forte
da fome do medo e muito
principalmente
da morte
o-lelê, lalá
a bomba explode lá fora
e agora, o que vou temer?
yes: nós temos banana
até pra dar,
e vender
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
In: Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gil; Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1962/ - Tendências Contemporâneas
Canção Popular
TRAÇOS FORMAIS:
Anáfora
Citação
Letra de Música
Paródia
Refrão
Verso Livre
TEMAS/ASSUNTOS
ARTE
- Linguagem/Literatura
- Música
HUMOR
NOME
- Escritor
. Gonçalves Dia
minha culpa meu pecado
meu sonho desesperado
meu bem guardado segredo
minha aflição
eu, brasileiro, confesso
minha culpa meu degredo
pão seco de cada dia
tropical melancolia
negra solidão:
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
aqui o terceiro mundo
pede a bênção e vai dormir
entre cascatas palmeiras
araçás e bananeiras
ao canto da juriti
aqui meu pânico e glória
aqui meu laço e cadeia
conheço bem minha história
começa na lua cheia
e termina antes do fim
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
minha terra tem palmeiras
onde sopra o vento forte
da fome do medo e muito
principalmente
da morte
o-lelê, lalá
a bomba explode lá fora
e agora, o que vou temer?
yes: nós temos banana
até pra dar,
e vender
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
In: Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gil; Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1962/ - Tendências Contemporâneas
Canção Popular
TRAÇOS FORMAIS:
Anáfora
Citação
Letra de Música
Paródia
Refrão
Verso Livre
TEMAS/ASSUNTOS
ARTE
- Linguagem/Literatura
- Música
HUMOR
NOME
- Escritor
. Gonçalves Dia
5 140