Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Leopoldo María Panero

Leopoldo María Panero

Auto de fé

Deus o cão me chama e o ar queima um homem
horizonte de corpos ardendo intensamente
quinze anjos velam onde esteve minha testa
sou o negro, o obscuro: ardendo está meu nome.
O cavalo me busca e pronuncia meu nome
com o machado partiram de dois em dois meus dentes
longe, no ocaso, alguém diz algo ou mente
sou o negro, o obscuro: ardendo está meu nome.
A lei é o silêncio e também a blasfêmia
é mostrar aos homens uma cruz nos lábios
e dizer-lhes que arde, vela acesa,
minha alma na penumbra como blasfêmia
Deus mudo, escultura de sombra, pétalas pétreas
e o lance de dados de um cego encerra o poema.
:
AUTO DE FE
Dios el perro me llama el aire quema a un hombre
horizonte de cuerpos ardiendo intensamente
quince ángeles velan donde estuvo mi frente
soy el negro, el oscuro: ardiendo está mi nombre.
Mi caballo me busca y pronuncia mi nombre
con el hacha rompieron de dos en dos mi frente
lejos, en el ocaso, alguien dice algo o miente
soy el negro, el oscuro: ardiendo está mi nombre.
Es la ley el silencio y también la blasfemia
es mostrar a los hombres una cruz en la boca
y decirles que arde, como cabo de vela
mi alma en la penumbra como una blasfemia
Dios el mudo, escultura de sombra, florecer de roca
y los dados de un ciego que cierran el poema.
1 144
Miguel Ángel Asturias

Miguel Ángel Asturias

Credo

Creio na Liberdade, Mãe de América
criadora de mares doces na terra,
e em Bolívar, seu filho, Senhor Nosso
que nasceu em Venezuela, padeceu
sob o poder espanhol, foi combatido,
sentiu-se morto sobre o Chimborazo,
ressuscitou na voz de Colômbia,
tocou ao Eterno com suas mãos
e está parado junto a Deus!

Não nos julgues, Bolívar, antes do dia último,
porque cremos na comunhão dos homens

que comungam com o povo, só o povo
faz livres aos homens, proclamamos
guerra a morte e sem perdão aos tiranos
cremos na ressurreição dos heróis
e na vida perdurável dos que como Tu,
Libertador, não morrem, fecham os olhos e se
ficam velando.

1 511
Leopoldo María Panero

Leopoldo María Panero

Figuras da Paixão do Senhor

Está morto, Ele, morreu e chove
e há uma lâmpada acesa para sempre
entre meus olhos:
perecida com a lua
que, zombeteira,
ri eternamente de Deus.
Igual a chuva desfaz minha imagem
e minha face, semelhante à Daquele, cai
ferido pela pedra,
pela pedra de ninguém que fere e mata
enquanto chove. Enquanto chova talvez eternamente
e a chuva impõem ao mundo a imagem de um rosto
que não nos permite olvidar, como o colorido óxido do farol
de Londres brilha entre a bruma
para que não esqueça
o cadáver daquela prostituta.
:
FIGURAS DE LA PASIÓN DEL SEÑOR
Ha muerto Él. Ha muerto él y llueve
y hay una lámpara encendida para siempre
entre mis dos ojos:
parecida a la luna
que, burlona,
se ríe eternamente de Dios.
Igual la lluvia deshace mi figura
y mi rostro, semejante al de Aquél, cae
herido por la piedra,
por la piedra de nadie que hiere y mata
mientras llueve. Mientras llueve quizás eternamente
y la lluvia imprime al mundo la figura da un rostro
que no nos deja olvidar, como el colorido óxido de la farola
de Londres que entre la bruma brilla
para que no olvide
el cadáver de aquella prostituta.
638
Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

O rogo

Senhor, Senhor, faz já tanto tempo, um dia
Sonhei um amor como jamais pudera
Sonhá-lo ninguém, algum, amor que fora
A vida toda, toda a poesia...
E passava o inverno e não vinha,
E passava também a primavera,
E o verão de novo persistia,
E o outono me encontrava em minha espera.
Senhor, Senhor: minhas costas estão desnudas.
Faça estalar ali, com mão rude,
O açoite que sangra aos perversos!
Que está a tarde já sobre minha vida,
E esta paixão ardente e desmedida,
A hei perdido, Senhor fazendo versos.

1 073
Leopoldo María Panero

Leopoldo María Panero

Hino a Satanás

Tu que moldas o rastejar das serpentes
das serpentes do espelho, das serpentes da velhice
tu que és o único digno de beijar minha carne enrugada
e mirar no espelho
onde se vê somente um sapo,
belo como a morte:
tu que és como o adorador de ninguém:
se aproxime,
construí o poema como um anzol
para que o leitor caia nele,
e rasteje
umidamente entre as páginas.
* * *
Os pássaros voam sobre teus olhos
e o esqueleto de um cavalo desenha a silhueta da mentira
da mentira de deus em uma habitação escura
onde voam os pássaros
:
HIMNO A SATANÁS
A belfegor, dios pedo o creptus
Tú que modulas el reptar de las serpientes
de las serpientes del espejo, de las serpientes de la vejez
tú que eres el único digno de besar mi carne arrugada,
y de mirar en el espejo
en donde sólo se ve un sapo,
bello como la muerte:
tú que eres como yo adorador de nadie:
ven aquí, he
construido este poema como un anzuelo
para que el lector caiga en él,
y repte
húmedamente entre las páginas.
* *
Los pájaros vuelan sobre tus ojos
y la calavera de un caballo dibuja la silueta de la mentira
de la mentira de Dios en una habitación a oscuras
en donde vuelan los pájaros.
804
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

... Mas eu não ouso. Ó horror e tortura

... Mas eu não ouso. Ó horror e tortura!
O transcendente horror de um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser,
O mistério encarnado em nu e sólido.

A nudez(...)
Há entre alma e alma um abismo. Saber
Que me está vendo uma alma em  (...), nudez
E acto de amor!
Não a nudez da estátua,
Mas a nudez viva, cheia de olhar-me
Até que me apavoro de pensá-lo.

Nem tenho gestos para saber amar,
Nem alma para tirar ao mero-oco
Pensar aqueles gestos, o horror
Que vem de eles saberem a mistério.
1 466
Antonio Machado

Antonio Machado

La Saeta (O canto)

Disse uma voz popular:
Quem me empresta uma escada
para subir ao madeiro
para tirar-lhe os cravos
a Jesus o Nazareno?

Oh, la saeta, o cantar
ao Cristo dos ciganos
sempre com sangue nas mãos
sempre por desencravar
Cantar do povo andaluz
que todas as primaveras
anda pedindo escadas
para subir à cruz

Cantar da terra minha
que joga flores
ao Jesus da agonia
e é a fé de meus velhos
Oh! Não és tu meu cantar
não posso cantar, nem quero
a este Jesus do madeiro
senão ao que andou no mar!

2 034
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei se os astros mandam neste mundo,

Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas —
As de jogar ou as do Tarot —
Podem revelar qualquer coisa.

Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.

Sim, não sei
Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias,
Cuja autenticidade ninguém me garante.
Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cómodo,
Acreditar em qualquer outro sol —
Outro que ilumine até de noite. —
Qualquer profundidade luminosa das coisas
De que não percebo nada...

Por enquanto
(Vamos devagar)
Por enquanto
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro.
Seguro com a mão —
O corrimão que me não pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... Ascendo
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...
1 491
Marilda Vasconcelos de Oliveira

Marilda Vasconcelos de Oliveira

Arte Plástica

Um deus recria o perfil imaginado.
Tintas desfia sobre a tela
compondo a substância
de um rosto pétreo.

Surge amarga boca
desdenhando frutos
olhar de gelo
nuca de soldado alerta.

Entanto
as mãos do mesmo deus
impondo ao pincel
ordem de lã
na tela fazem nascer um outro rosto
e as tintas
traço a traço
configuram
na cruz sacrificado
um justo agonizante.

544
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A PARTIDA [c]

A PARTIDA

E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...

Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
4 956
Martins Vieira

Martins Vieira

O Parnaíba

Vem de longe, tangendo alvacentas espumas
Ao sabor da corrente, eriçando cachoeiras;
Aqui, se aperta; ali, se espraia, enquanto as plumas
De leques vegetais baloiçam nas palmeiras.

Leva a flor que tranqüila adormece entre as brumas
E se deixa impelir como as balsas fagueiras,
Onde geme o violão do embarcadiço, e algumas
Das cordas vão ferir as cordas verdadeiras...

— Ó rio lá de casa, ó Pai velho das crianças,
Águas que vão molhar o solo e as belas tranças
Da noiva que se banha em ti, ao vento e à luz,

Ó rio benfazejo, aplacarás a sede
Do mar, deixando aqui o pão em cada rede
a nós elo batismo, o nome de Jesus.

922
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A PARTIDA [b]

A PARTIDA

Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!

Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.

Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!

Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.

Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
 (...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.

Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
1 134
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ubiquidade

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

Petrópolis, 11.3.1943
1 279
Leopoldo María Panero

Leopoldo María Panero

Nascimento de Jesus

Os cavalos em vento se transformam
o deserto entre minhas mãos nasce
o medo é Jesus Cristo entre meus olhos
estrela que no nada jaz
O medo diante da neve se ajoelha
o medo diante da escuridão é o nada
uma mulher que entre os homens nasce.
:
NACIMIENTO DE JESÚS
Los caballos en viento se mudan
el desierto entre mis manos nace
el miedo es Jesuscristo entre mis ojos
como una estrella que en la nada yace.
El miedo ante la nieve se arrodilla
el miedo ante lo oscuro es una nada
como una mujer que entre los hombres nace.
724
Leopoldo María Panero

Leopoldo María Panero

O que disse a virgem diante do fogo

Cai da mesa o vinho
o pão em migalhas pelas gargalhadas se converte também em vinho
uma mulher morta na cozinha recita diante do fogo
que não queima
lentamente o Evangelho do Sangue.
:
LO QUE DIJO LA VIRGEN FRENTE EL FUEGO
Cae de la mesa el vino
y el pan roto por la risa se convierte también en vino
y una mujer muerta en la cocina recita ante el fuego
que no quema
lentamente el Evangelio de la Sangre.
586
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Pietá

Foi com os dedos
com a lingua suave e áspera
dos dedos
não com o duro osso
que Michelangelo poliu
o corpo do Cristo
morto
o morto
corpo do Cristo. 
Mármore feito mel
favo escorrendo
na doçura da carne
abandonada.

Inútil é teu esforço
Buonarroti
tentando erguer
o Cristo
pelos braços.
Teu rijo rosto envolto
no capuz
teu patético olhar
já traem o que bem sabes,
que a vida
a vida que o deixou
você só lhe dará esculpindo-lhe a morte.
1 084
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Odylo-nazareth

Vai a bênção que pediste.
Mas a maior bênção é
Ganhar em Natal tão triste
Maria de Nazareth.

Janeiro de 1942
583
Eduardo Guimaraens

Eduardo Guimaraens

Dante

Pelo divino horror de um desespero eterno
e pelo ardor febril a que a alma nos conduz,
florindo para o azul, irrompendo do inferno,
Dante evoca um abismo onde há lírios de luz.

Cada verso revela um fundo imenso de erma
tristeza em que uma voz alucinada clama:
e ora, inútil recorda a asa de uma águia enferma,
ora a ascensão brutal de uma língua de chama.

Dá-me, agora, o terror de uma visão que assombra.
Torvo, Ugolino sofre a sua fome atroz;
tem Virgílio a expressão sagrada de uma Sombra;
uiva um blasfemo! E a selva é lúgubre e feroz.

Lembra, após, o esplendor pesadelar de um sonho
magnífico e sangrento, em que anjos maus esvoaçam,
quando por mim, à flor do turbilhão tristonho,
enlaçados e nus, Paolo e Francesca passam...

Dante! — Quero-o, porém, mais doloroso e terno,
mais humano, a compor, torturado e feliz,
sob a angústia mortal do seu secreto inferno,
uma canção de amor em louvor de Beatriz!


Publicado no livro A divina quimera (1916).

In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
1 123
Juan L. Ortiz

Juan L. Ortiz

Sim, as escamas do crepúsculo...

Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? ...
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado
Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris...
Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima...
Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos...
Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista....
(tradução de Idelber Avelar)
:
Sí, las escamas del crepúsculo...
Juan L. Ortiz
Sí, las escamas del crepúsculo
en el filo, último?, de Noviembre sobre el río:
o el éxtasis de los velos de Noviembre
fluyendo hasta la noche, y más allá?...
increíble de ecos
y de fugas y pasajes
de no se sabe ya
qué despedida o qué llamado...
Sí, el fluido profundo, sobre oro,
que nimba la barranca
e inscribe místicamente un árbol alto,
y radia, hasta cuándo?,
unos vagos pétalos de iris...
Sí, sí,
el verde y el celeste, revelados,
que tiemblan hacia las diez porque se van
y en la media tarde se deshacen o se pierden
en su misma agua fragilísima...
Sí, sí, sí...
Pero vino la luz, estaba sólo la luz
detrás de las persianas de la mañana íntima:
vino la criatura eterna, el sentimiento de las estrellas,
la eucaristía de los mundos, el alma primera
antes, antes del prisma,
con esa flauta blanca, inefablemente blanca, siempre impuesta
sobre el caos…
Vino la luz, vino la niña esencial,
imposiblemente pura de las hojas y de sus propias alas,
hasta un olvido lleno de ella
como de la mirada, única, de un estío nunca visto…
518
Manuel Sérgio

Manuel Sérgio

Maria

Maria trazia no ventre um menino. Para ela que enchia
as horas pensando no filho nascituro, o menino era um ser
sobrenatural. Por isso, num ritmo apressado de passos,
voou pela paisagem doce da Galileia, a comunicar
a sua prima Isabel que, dentro em breve, daria à luz.
E fê-lo num tão cândido hino de amor à vida
que a prima rasgou os lábios num canto rubro de admiração:
Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!
Maria respondeu com o Magnificat, onde se reconheciam ecos de todas as mães do Mundo. E nem sequer uma palavra
de incerteza lhe murchou os lábios. Os sonhos das mães
não têm princípio nem fim...

989
Sousândrade

Sousândrade

Canto Segundo [I

Opalescem os céus — clarões de prata —
Beatífica luz pelo ar mimoso
Dos nimbos d'alva exala-se, tão grata
Acariciando o coração gostoso!

Oh! doce enlevo! oh! bem-aventurança!
Paradíseas manhãs! riso dos céus!
Inocência do amor e da esperança
Da natureza estremecida em Deus!

Visão celeste! angélica encarnada
Co'a nitente umidez d'ombros de leite,
Onde encontra amor brando, almo deleite,
E da infância do tempo a hora foi nada!

A claridade aumenta, a onda desliza,
Cintila co'o mais puro luzimento;
De púrpura, de ouro, a c'roa se matiza
Do tropical formoso firmamento!

Qual um vaso de fina porcelana
Que de através o sol alumiasse,
Qual os relevos da pintura indiana
É o oriente do dia quando nasce.

Uma por uma todas se apagaram
As estrelas, tamanhas e tão vivas,
Qual os olhos que lânguidas cativas,
Mal nutridas de amores, abaixaram.

Aclaram-se as encostas viridantes,
A espreguiçar-se a palma soberana;
Remonta a Deus a vida, à origem d'antes,
Amiga e matinal, donde dimana.

Acorda a terra; as flores da alegria
Abrem, fazem do leito de seus ramos
Sua glória infantil; alcion em clamos
Passa cantando sobre o cedro ao dia

Lindas loas boiantes; o selvagem
Cala-se, evoca doutro tempo um sonho,
E curva a fronte... Deus, como é tristonho
Seu vulto sem porvir em pé na margem!

Talvez a amante, a filha haja descido,
Qual esse tronco, para sempre o rio —
Ele abana a cabeça co'o sombrio
Riso do íris da noite entristecido.

(...)


Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.

In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
2 601
Sousândrade

Sousândrade

Harpa XXXV - Visões

..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? — quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão — mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
— E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno —
Quanto eu amara! quanto — Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!

(...)

Imagem - 00310003


Poema integrante da série Noites.

In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
2 580
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Maria da Glória

Maria dá glória a menina,
Mas esta dá glória a Maria.
Então viva muito a menina
Para glória maior de Maria.
1 359
Matheus Tonello

Matheus Tonello

O Show da Vida

Abrem-se as cortinas, o show vai começar,
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;

Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo

O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!

O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!

928