Poemas neste tema

Criatividade e Inspiração

Martha Medeiros

Martha Medeiros

ah, mas é muito fácil escrever sobre o mar

ah, mas é muito fácil escrever sobre o mar
diria alguém que nunca viu o mar como eu vi
que já nem era azul de tão profundo
que nem deste mundo parecia ser
e que nenhum mergulho conseguiria descrever


ah, mas falar sobre os pássaros até eu
diria alguém que nunca voou nem em sonhos
e que enxerga os limites que inventa
pois não há limites no ar
e na terra quem ousa limitar não voa mais


ah, mas rimar amor e dor quantos fizeram
diria alguém que fez também sem reparar
e que no ato de amar não atentou
para os mistérios e os nocautes que só a vida
com sabedoria faz rimar
1 261
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Eu Quisera Ver o Mundo

Eu quisera ver o mundo
como o vê Sérgio Bernardo:
ver, no mundo, os muitos signos
que vigiam sob as coisas.

Sentir, sob a forma, as formas,
os segredos da matéria,
mais a textura dos sonhos
de que se forma o real.

Ver a vida em plenitude
e em seu mistério mais alto;
decifrar a linha, a sombra,
a mensagem não ouvida,

mas que palpita na Terra.
Eu quisera ter os olhos
que assim penetram o arcano
e o tornam (poder da imagem)

um conhecimento humano.
1 208
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Centenário

Francisco Biquiba La Fuente Guarany
conjurou os seres malévolos das águas.
Com o poder de suas mãos meio espanholas,
meio índias, meio africanas,
totalmente brasileiras.
Das mãos de Guarany surdiram monstros
que colocados na proa dos barcos
protegiam os viajantes contra os terrores do rio.
Eram monstros benignos, conjunção de forças milenares
enlaçadas na mente de Guarany.
As águas purificaram-se, as viagens
tornaram-se festivas e violeiras.
E ninguém temia a morte, e o louvor da vida
era uma canção implícita no cedro das carrancas.
Os tempos são outros. Onde as carrancas?
Onde os barcos, as travessias melodiosas de antigamente?
O rio São Francisco está sem mistério e poesia?
A poesia e o mistério pousaram
no rosto centenário de Francisco, irmão moreno
do santo de Assis, também ele miraculoso,
pelo poder das mãos calejadas e criadeiras.
1 329
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Perdi o Nascimento da Árvore

Perdi o nascimento da árvore. O acaso
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.

Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.

O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
1 043
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Construção do Poema

A construção do poema é a construção do mundo.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.

Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.

Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.
1 093
Heiner Müller

Heiner Müller

Fim dos manuscritos

Ultimamente quando quero escrever algo
Uma frase um poema um ditado
Minha mão rebela-se contra a vontade de escrever
Que minha cabeça tenta forçar sobre ela
A letra torna-se ilegível Só a máquina de escrever
Mantém-me pairando sobre o abismo do silêncio
Que é o protagonista do meu futuro



Ende der Handschrift

Neuerdings wenn ich etwas aufschreiben will
Einen Satz ein Gedicht eine Weisheit
Sträubt meine Hand sich gegen den Schreibzwang
Dem mein Kopf sie unterwerfen will
Die Schrift wird unlesbar Nur die Schreibmaschine
Hält mich noch aus dem Abgrund dem Schweigen
Das der Protagonist meiner Zukunft ist


862
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Desenhado

Talvez a linha se acenda e continue
ondeando a página e sendo nós só margem
de um domínio onde fulge a inocência,
talvez se revele a transparência inicial
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma.

Vêm figuras que se espraiam e crescem
até serem apenas ondulada memória.
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo.
As linhas enovelam-se num delírio exacto.
A alegria ilumina penumbras de volumes.

Em tensos membros lúcidos e redondos
move-se o desenhado corpo ligeiro
e lento. Aumenta a densidade até ao centro
de um deus que diz o esplendor silencioso.
Ou só o ar ondeia num planalto de vento.
942
Martha Medeiros

Martha Medeiros

silêncio, estou escrevendo

silêncio, estou escrevendo
e não sei se destas palavras
sairá como mágica um poema
uma reportagem ou um recado
não sei em que se transformará
este grupo de sujeitos e advérbios
que buscam aqui reunidos
decifrar todos os meus medos
silêncio, estou me escutando
e quem fala são meus dedos
1 178
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo E a Leitura

É talvez o sopro do horizonte, talvez o vento
que abre a corola do ventre na leitura
em que a sombra canta. E repentinos
entre árvores e aromas de planetas,
num túmido tumulto os potros saltam.

A mão quase toca as hastes e as nervuras
de um país que aflora num deslumbramento.
Uma atenção de antenas mais subtil e livre
vai seguindo o canto em que se move o fundo
incandescente. De cada sombra líquida desenreda-se

o globo que é fogo e água e ar unificados.
A inumerável trama é todo o corpo aceso
que treme em cada linha. Os instrumentos
se desatam e erram e irradiam
em torno de uma falha ou de uma folha branca.
1 061
João Baveca

João Baveca

Amigo, Sei Que Há Mui Gram Sazom

Amigo, sei que há mui gram sazom
que trobastes sempre d'amor por mi,
e ora vejo que vos travam i;
mais nunca Deus haja parte comigo
se vos eu des aqui nom dou razom
       per que façades cantigas d'amigo.

E pois vos eles têm por melhor
de vos enfengir de quem vos nom fez
bem, pois naceu, nunca nẽũa vez,
e por en des aqui vos [jur'e] digo
que eu vos quero dar razom d'amor
       per que façades cantigas d'amigo.

E sabe Deus que desto nulha rem
vos nom cuidava eu ora fazer,
mais, pois vos cuidam o trobar tolher,
ora verei o poder que ham sigo;
ca de tal guisa vos farei eu bem
       per que façades cantigas d'amigo.
349
Martha Medeiros

Martha Medeiros

inspirada

inspirada
caio na velha cilada
de tornar lírico o miserável
concentro-me em rimas difíceis
construo imagens simbólicas
procuro ser respeitável
aí faço as piores burradas
não sei criar versos eternos
sou o azarão de todas as apostas
abandonada a literatura
hoje me detenho no que sei que tu gostas
os detalhes da minha última noitada
1 044
João Apolinário

João Apolinário

os zeros relativos

Reduzo
o espaço
ao limite
do zero

nasce
o mundo
___

Não se pede à alma
que anteceda o corpo
se o nada só existe
depois de ser
concreto
____

Só das coisas reais
tenho o sentido
da transcendência

Não sei do homem mais
do que a essência
de ter vivido
____

Uma única
pétala
gera
um universo
de formas

em órbita
____

Tomo o ar
que respiro
e dou vida
aos deuses

invento a sombra
____

Do mar
faço a planície
para as estrelas
fecundarem a noite

os dinossauros
cantam
____

E da vida
faço este delírio
de batráquios
em fuga

roendo horizontes
____

Só na morte
ponho o zero
à esquerda
do zero

outro zero
começa
____

Depois
do ouro
velho
queremos
o vermelho

1 020
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Nova meditação sobre a palavra

assim a palavra se prestasse
ao jade ao jogo ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka

assim nunca o poema se traísse
na trama aleatória de uma aposta
perdida no seu hábil mecanismo
traria o juro ao artesão que o monta
2 256
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Poema

silenciosamente aproximo-me do poema
circundo-o duma palavra faço nela
uma incisão deliberada

e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique

de resina ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro liso adstringente sinuoso

mas
todo o poema é perfeitamente impuro
2 949
Cláudio Ferro

Cláudio Ferro

Se aqui me manifesto

Se aqui me manifesto
por ter lido o teu...
E que o desejo meu
ede nao estar infesto
pelas poesias, e sim
repleto, satisfeito e feliz.

Pensava que estava so.
Mas neste mundo tao...
...tao imenso, vejo que,
existem monumentos
e pessoas grandes.

Viva a nossa poesia!
Com ou sem rima!
Bonita!
Feia!
Alegre!
Triste!
Que elas falam.
Que elas existem.
Porque nossos corações batem!

825
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Um Morto Na Índia

Meu caro Santa Rosa, que cenário
diferente de quantos compuseste,
a teu fim reservou a sorte vária,
unindo Paraíba e Índias de leste!

Tudo é teatro, suspeito que me dizes,
ou sonhas? ou sorris? e teu cigarro
vai compondo um desenho, entre indivisos
traços de morte e vida e amor e barro.

Amavas tanto o amor que as musas todas
ao celebrar-te (são mulheres) choram,
e não pressentem que um de teus engodos
é não morrer, se as parcas te devoram.

Retifico: são simples tecedeiras,
são mulheres do povo. E teu destino,
uma tapeçaria onde as surpresas
de linha e cor renovam seu ensino.

Que retrato de ti legas ao mundo?
Se são tantos retratos, repartidos
na verlainiana máscara, profunda
mina de intelecções e de sentidos?

Meus livros são teus livros, nessa rubra
capa com que os vestiste, e que entrelaça
um desespero aberto ao sol de outubro
à aérea flor das letras, ritmo e graça.

Os negros, nos murais, cumprem o rito
litúrgico do samba: estão contando
a alegria das formas, trismegisto
princípio de arte, a um teu aceno brando.

Essa alegria de criar, que é tua
explanação maior e mais tocante,
fica girando no ar, enquanto avulta,
em sensação de perda, teu semblante.

Cortês amigo, a fala baixa, o manso
modo de conviver, e a dura crítica,
e o mais de ti que em fantasia dança,
pois a face do artista é sempre mítica,

em movimento rápido se fecha
na rosa de teu nome, claro véu,
ó Tomás Santa Rosa... E em Nova Delhi,
o convite de Deus: pintar o céu.
1 136
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Marpalavrilhar

e sombras, e enraizar coisas
e esse existir sempre, que não existia antes de ser imaginado
maior enigma que todos
como se fosse possível ter uma foto
nada, entre

balbucios, espaços entrecortados de sílabas, correntes de
prefixos, de ventos, assoprados por rimas, como se
houvessem dedos que procurassem segurar as cordas de uma
lira de areia, os enganos, as mentiras, os uivos, os olhares
lançados por maiúsculas, vôo de sinônimos, política das
relações oblíquas dos fonemas, prazeres guturais,
palatais, sibilantes, recurvados entre o balaústre de
hemistíquios, ávidos de presa, em seu pequeno choro
consonantal, nasal, linguodental, a epifania do som perfeito
da glota na invocação dos mistérios, vogais abertas ao ritmo
solar da andadura, pausa e percussão ocultas na cor da rima obscura,
ó falar dos gênios, em ão, em inhas, até o Poder. Ah! ervinhas a quem,
somente tu, Inês, dizias o nome que no peito, oculto tinhas.

"O perfume que dali se exala, já a deusa".

Nas palavras há galáxias distantes, onde talvez existam
estrelas em torno das quais girem planetas, fecundos
habitados por formas que desconhecemos, estrelas mortas,/
formadas

por desejos
iguais aqueles

necessários às reticências
distintos desses continentes que foram descobertos pelos
navegantes, na superfície do Planeta, apenas na forma em que
se apresentam, em mapa

onde cada ilha, arquipélago, promontório ou continente
submerge em um mar ausente, semelhante às coisas expostas ao
esquecimento, na luz do entardecer, além de qualquer
descobridor, entes aos quais não se pode ir ter com eles e
ao seu navegante o que cabe é criá-los, pelo dom que tem o
nome, ao ser dado às coisas

Marfim

Nota do Poema marpalavrilhar

" O perfume que dali se exala, já a deusa"
Castilho, "Amor e Melancolia"

933
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Enrique Banchs

Un hombre gris. La equívoca fortuna
hizo que una mujer no lo quisiera;
esa historia es la historia de cualquiera
pero de cuantas hay bajo la luna
es la que duele más. Habrá pensado
en quitarse la vida. No sabía
que esa espada, esa hiel, esa agonía,
eran el talismán que le fue dado
para alcanzar la página que vive
más allá de la mano que la escribe
y del alto cristal de catedrales.
Cumplida su labor, fue oscuramente
un hombre que se pierde entre la gente;
nos ha dejado cosas inmortales.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 612 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 289
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho uma pena que escreve

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.
2 270
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero versos que sejam como jóias

Quero versos que sejam como jóias
Para que durem no porvir extenso
        E os não macule a morte
        Que em cada cousa a espreita,
Versos onde se esquece o duro e triste
Lapso curto dos dias e se volve
        À antiga liberdade
        Que talvez nunca houvemos.
Aqui, nestas amigas sombras postas
Longe, onde menos nos conhece a história
        Lembro os que urdem, cuidados,
        Seus descuidados versos.
E mais que a todos te lembrando, escrevo
Sob o vedado sol, e, te lembrando,
        Bebo, imortal Horácio,
        Supérfluo, à tua glória...
1 216
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Praticando

Van Gogh cortou fora sua orelha
e a deu para uma
prostituta
que a jogou longe com
extremo
desgosto.

Van, putas não querem
orelhas
elas querem
dinheiro.

acho que é por isso que você foi
um pintor tão
genial: além da pintura você
não entendia
grande
coisa.
1 373
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Assassinato

competição, ganância, desejo de fama –
depois de ótimos começos eles na maioria das vezes
escrevem quando não querem escrever, escrevem por
encomenda, escrevem em troca de Cadillacs e garotas
mais jovens – e para pagar
velhas esposas descartadas.

eles aparecem em talk shows, frequentam festas
com seus pares.
a maioria vai para Hollywood, eles viram franco-atiradores e
bisbilhoteiros
e têm mais e mais casos com garotas e/ou
homens mais e mais
jovens.
eles escrevem entre Hollywood e as festas,
é escrita com relógio de ponto
e no meio das calcinhas e/ou dos
suportes atléticos
e da cocaína
muitos deles dão jeito de se complicar com a
Receita Federal.

entre velhas esposas, novas esposas, garotas
mais e mais novas (e/ou)
todos os seus adiantamentos e direitos autorais –
as centenas de milhares de
dólares –
são agora subitamente
dívidas.

a escrita vira um espasmo
inútil
a punheta de um dom
outrora
poderoso.

isso acontece e acontece e
continua igual:
a mutilação do talento
que os deuses raramente
dão
mas tão rapidamente
tiram.
1 024
Tite de Lemos

Tite de Lemos

Altamira's gift

Esboça um caçador a sua caça
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores

848
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Quieto

sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela

a mulher está
acabrunhada
no
quarto

ela está em seus
dias especialmente
ruins.

bem, eu tenho
os meus

então
em deferência
a ela

a máquina de escrever
está
parada.

é esquisito
imprimir este troço
à
mão

me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.

agora
o gato vem
me
ver

ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés

estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.

e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema

e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.

bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.

Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.

eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e

nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.


me viro
de volta

fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel

não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa

e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós

mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato

ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja

e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro

vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto

que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
1 101