Poemas neste tema

Criatividade e Inspiração

Helga Moreira

Helga Moreira

Sempre acontece sempre

Sempre acontece sempre
em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco
em lixo e roteiro o poema

que te envio. A ti primeiro.
Depois aquele parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte

apenas ódio, ou amor?
Já não distingo – ao que se chega!
um verso maior de um menor

alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?
590
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Murilo Mendes Hoje/ Amanhã

O poeta elabora sua personagem,
nela passa a viver como em casa natal.
E não é a casa natal?

Faz a caiação da personagem,
cobre-a de azul celeste e púrpura de escândalo,
adorna-a de talha de ouro e asas barrocas,
burila-a, murila-a
(alfaiate de Deus talhando para si mesmo),
viaja com ela pelo universo.

O poeta cavalga o mito em pelo
— é o verso dele que informa.
Dirige-se com rédeas cristalinas
de razão mineira — incendiada? —
mas sempre vigente.
O caos toma sentido
visto da janela cosmorâmica
onde ele se debruça
para dentro para fora para o alto
para o fundo
para a organização do delírio
em código de poesia.

Criador manipulador participante
do espetáculo
ele próprio é o espetáculo em seus belos dias
de confidente de Mozart,
ouvindo de olhos fechados, e impondo silêncio,
o que só em silêncio desabrocha,
para sair depois, com o guarda-chuva do Quixote,
em guerra contra a burguesia e seus moinhos
literoprovinciais.
Peregrino europeu de Juiz de Fora,
telemissor de murilogramas e grafitos,
instaura na palavra o seu império.
(A palavra nasce-me
fere-me
mata-me
coisa-me
ressuscita-me)

Torre corcunda de Pisa ou de Babel
de gritos, de visões, de enigmas rutilantes
afinal subjugados à sentença
de um mural espanhol:
Deus trágico;
de uma fonte romana:
Deus pagão;
do sentimento plástico de Deus
refratado na invenção de seus secretários-artistas.

O ponto de vista anedótico,
a história sarcástica do Brasil,
Jandiras e Clotildes cariocas,
tudo desaparece em névoa de terceiro plano
para revelar o poeta
e sua depurada personagem
em completa realidade.

Ei-lo declarando, pelo verbo de Ungaretti:
Non sarai un antenato
per non avare avuto figli.
Sarai sempre futuro per i poeti.

Não só por isso. Por ter sido futuro, entre passados
e estagnados:
futuro intensamente, poeta
a nascer amanhã, sempre amanhã.
1 422
Herberto Helder

Herberto Helder

1.

A teoria era esta: arrasar tudo — mas alguém pegou
na máquina de filmar e pôs em gravitação uma cabeça recolhendo-a
de um lado e descrevendo-a de outro lado num sulco
vibrante “parecia um meteoro”
como se fosse muito simples e então a cabeça desaparecia “a lua”
a ferver a grande velocidade pelo céu dentro
“um buraco”
via-se apenas a intensidade “estávamos com medo pois aquilo
assemelhava-se a uma revelação” e foi quando ele apanhou a cabeça
outra vez
e era agora uma cabeça furiosa
“cheia de peso” dizia-se “a luz agarra qualquer coisa”
oh sim: “com toda a violência”
pensai num bocado de carne despedaçado entre as mandíbulas
de um tigre: e depois deixou cair esse rosto sustentado atrás
pela bela caixa craniana com aquele rastro de cometa
“que é isto?” perguntou-se — e pusemo-nos todos a pensar bastante
“havia ali um senso arcaico da paixão”
talvez uma coisa tão remota e bárbara como: o fausto:
o pavor:
a caça: “é um movimento uma forma” disse ele
“é preciso voltar ao princípio”
e então começámos a usar os olhos com a ferocidade das objectivas
sem truques capturando tudo selvaticamente
e havia por vezes a vertente das espáduas desalojadas
um caudal sumptuoso
cortado “era tão estranho!” pela ligeireza dos dedos abertos
delicado pentagrama a duas alturas
“uma estrela refractada” para falar do que se viu
na projecção do filme e então podia-se adiar tudo menos aquela ideia
de que “não digo beleza” de que uma força
impelia tudo e a rapidez criava formas
linhas de translação feixes
de desenvolvimento ao longo das paisagens redondas como
abismos
recorria-se ainda a imagens para devolver essa cabeça
ao fulgor da sua precipitação contra os olhos
a queda “como oxigénio a arder” e a fuga
e a correria em que voltava para subir e rodar
de um modo que dizíamos: “indomavelmente”
porque vistas assim as coisas eram de uma fatalidade total
e a irrevogável maneira que tinham de ser livres
soltas
impunes
— na sua firmeza: “inocentes” — isso fazia medo
e havia em nós “um estilo de ver” que nos arrastava
implacavelmente para a loucura e a alegria
“porque era preciso destruir tudo” sim “de extremo a extremo”
para encontrar “o centro” onde o calcanhar gira
e roda o corpo todo
o sítio talvez onde se formam as massas dos espelhos
de que saltam fortemente “os astros os rostos”
e não haver “exemplo” mas apenas uma forma rudimentar
desfechada
contra tudo aqui escavando achado o veio
a limpidez primeiramente: aquilo: a cabeça móvel apanhada
586
Herberto Helder

Herberto Helder

78

e a única técnica é o truque repetido de escrever entre o agraz e o lírico,
como com raios de lixa,
sentado sobre o sangue amarrado dos testículos,
abrindo do táctil para o intáctil,
como que às faíscas estilísticas,
um pouco como que ríspido,
como que rútilo,
como que revulsivo,
como que passado de passivo para activo,
como ser a obra de como que isso,
oh maravilha da frase corrigida pelos erros,
estrela a sair por todos os lados da cabeça doendo com um brilho de
pregos,
em nenhum écran do Deus descontínuo,
a frase rítmica e restrita que não pode ser posta em língua,
elíptica,
a frase de que sou filho
925
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Lúcio Cardoso (Na Casa de Saúde)

(na casa de saúde)
Entre visitas que perguntam,
no corredor, por tua vida
de artista recolhido à noite
sensorial, entre os amigos
que se inclinam preocupados
sobre a cisterna e não distinguem
teu reflexo brilhar no fundo,
entre os mais próximos e diletos
— não estou eu, porém de longe
mais perto me sinto e decifro
melhor teu perfil na sombra,
e perfil não só: tudo mais
que deu sentido a teu chamado
à rua dos homens: palavras
tramadas em papel, soando
em palco, problemas falantes,
movediços em preto e branco,
projeção em tela ou parede,
em cor quase som, mensagens
da mais subterrânea estação,
espectrais retratos do ser
para além de radiografias,
e um hálito de amor pedindo
espaços claros, praias de ouro
que se vão modelando em sonho
acordado, escrito, pintado.
Respiras, falas, comunicas-te
à revelia do corpo enfermo,
em tudo que é sinal. Contemplo
tua vida primeira e plena
a circular, transfigurada,
ó criador, entre vazios
sótãos de casa assassinada.
1 113
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Febre Feliz

Febre feliz, de entre a sombra me incita,
na fome de palavras plenas,
exactas como um crime,
iguais, penetrantes.

Ó espessa água obscura
no seio da qual me movo,
oiço e ouvindo escrevo
o que não vejo ainda.
*
Escrever para sentir ou para ver
a verdade do sol mais visível,
uma verde sombra, uma face perplexa e pura,
a ondulação do dia,
arcos ligeiros, longos…

Escrever para sentir ou ver a terra
tomar a forma declinante de um ombro,
lustroso pêlo violento e verde
de um animal novo entre ervas frescas.
*
Alongam-se os dedos na carícia obscura
de uma relva insistente onde um focinho escabuja
e rompe entre os dedos afilados, trémulos,
na delícia amarga e sequiosa
do beijo húmido,
violenta massa erguendo-se na sombra,
braços anelantes
ao corpo branco, já moldado tronco.
*
O punho não palpita, apenas cede
ao tumulto suave que o inunda.
Mas a mão suspende-se sem sangue,
não há luva que calce a febre obscura
e a palavra rompe numa sacada brusca,
arbitrária linfa, a que um sopro aviva,
o próprio punho amolda, quase extinta…
*
Não morre esta sede, quando o vibrar já cessa
no pulso incendiado.
De si mesmo se ergue e se encabrita,
cavalo desmoronando-se de patas para o sol,
onda rolando, lentamente viva,
despedaçada, monótona, rediviva.
1 044
Herberto Helder

Herberto Helder

85

bic cristal preta doendo nas falangetas,
papel sobre a mesa,
a luz que vibra por cima, por baixo
a cadeira eléctrica que vibra,
e é isto:
electrocutado, luz sacudida no cabelo,
a beleza do corpo no centro da beleza do mundo:
pontos de ouro nas frutas,
frutas na luz escarpada,
clarões florais atrás de paredões de água,
água guardada no meio das fornalhas
— isto que, sentado eu na minha cadeira eléctrica,
entra a corrente por mim adentro e abala-me,
e com perícia artífice deixa no papel
o nexo estilístico entre
o terso, vívido, caótico e doce:
e o escrito, o carbonífero, o extinto,
o corpo
1 042
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Para Respirar Um Pouco

Na tábua em que escrevo
um clarão de ervas crespas
alvoroça o cinzento.
Posso escrever: manhã, um pouco de água,
porque o vento sopra deste lado
da lâmpada.

Um pouco de água
só,
falta-me a alegria rápida,
punhal que se estende,
precipitados passos na varanda branca
ou um punho fechado sobre o papel.
*
Alegria, força, clamor
evidência sonora,
ao espaço amplio a minha voz
de doloroso insecto
crepitante
num quarto
de poeira rasa.

Alegria como o vento, nasces
de que boca
vasta como o vento?
Entornada enfusa nas ortigas
verde-esquecida,
de ti nasce o clamor surdo,
a força com que escrevo no silêncio.

E já respiro um pouco…
*
De constrangidas lâmpadas
violentadas, débeis
— respira a noite debruçada sobre
que muro?

De pequenas navalhas esverdeadas
crepita este silêncio
onde um homem se afoga sob o chapéu
em passos mansos, suburbanos
na lentidão delida e unânime
um homem moribundo caminhante?

Num país velho, sem antiguidade pura
morre-se à míngua de uma palavra nova,
num país que soçobra e subsiste, longe,
longe, mas aqui.
*
Motor na sombra,
intervalo brusco
— boca que sopra
num corpo elástico.

Sem luvas entro
nos antros de argila,
como a poeira
e o verde espesso.

Por sobre a terra
poema, és lâmpada
de água e de pedra,
de insectos duros.

Esplende pobre
— semente alada
que a mão desfaz
e um puro olhar orvalha.
*
Uma palavra qualquer,
uma, à experiência,
uma, um novo gosto
de respirar,
para dizer não
um não claro
e o sim a esse não
e entre o sim e o não
— uma palavra para respirar.
*
Preciso de um punho
pequeno, mas duro,
minucioso e negro,
polido,
de certa densidade,
lento como a água,
plenamente eficaz.
1 172
Adélia Prado

Adélia Prado

Nem Um Verso Em Dezembro

Não quero nunca desejar a morte,
a não ser por santidade, como a chamou Francisco: irmã.
É quase 25 e nem um verso.
Movo as pernas sem conter meus quadris,
como deveria ter feito a vida toda,
pra conquistar o mundo.
Borboletinhas pardas, ciscos, seixos, gravetos,
água de sabão escapando do muro, duram ofertados
enquanto percorro o bairro,
a menina me olha do alpendre ladrilhado
e nem um verso.
Eu primo na minha obra porque é tudo que tenho.
Na casa de três cômodos, de terreirinho escorrido,
a vida é ruim, a alma fica gemendo: ô vida.
Desguio dali uma ideia de suicídio
que paira sobre o telhado junto com a antena do rádio,
mas a ideia volta, e nem um verso.
Preciso me confessar ao homem de Deus:
cometi gula, ansiei pelo detalhe das fraquezas alheias
e mesmo tendo marido explorei meu corpo.
Nem um verso em dezembro, eu que para isso nasci e vim
[ao mundo.
Minha alma quer copular.
Os magos passam de jato, a estrela se esconde,
chove torrencialmente no Brasil.
1 102
Adélia Prado

Adélia Prado

Ruim

Me apanho composta:
as vísceras, o espírito,
meu ânima em dispneia.
Nem uma seta consigo pintar na estrada.
Ô tristeza, eu digo olhando meu livro.
Ô bobagem.
Ô merda,
polivalentemente, eu digo.
De que me adiantou pegar na mão do poeta
e mandar pra frente da batalha feminista
a mulher do meu amado,
se o que me sobra é um nó,
uma ruga nova,
a lembrança da gafe abominável?
Tudo para encruado.
Nem ao menos o rabo da poesia,
o fedor de vida
que às vezes deixa no ar
seu intestino grosso.
Ô Deus, eu digo enraivada,
esmurrando o ar com meu murrinho de fêmea.
Ó. Ai. Ai ai ai...
Se chovesse ou eu ficasse grávida,
quem sabe?
Na saída da cidade desconhecida
duas placas altas apontavam:
IBES.................ARIBIRI
Um preto no cruzamento
olhava atentamente para o fim dos tempos.
Eu olho meu olho fixo.
Como se não houvesse cantochão nem monges.
1 092
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Passatempo

O verso não, ou sim o verso?
Eis-me perdido no universo
do dizer, que, tímido, verso,
sabendo embora que o que lavra
só encontra meia palavra.
1 437
Herberto Helder

Herberto Helder

89

a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
622
Herberto Helder

Herberto Helder

5A

Gárgula.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
576
Herberto Helder

Herberto Helder

5C

Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.


1985, revisto em 1987.
1 119
Herberto Helder

Herberto Helder

4

filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas
que escreveste contra tudo, pais e filhos,
lugar e tempo,
filha é aquela que despes dos pés à cabeça,
perdendo os dedos nos nós que tem pelo cabelo abaixo,
e só pelo desejo que te traz de viver ou morrer dela,
desejo de ser o mesmo punho de cinza
deitado à espuma nos extremos da terra,
filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando
dormem,
essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas
onde hás-de ter o trabalho artesanal da morte:
o que de tudo reste pode ser testemunho distraído e mais nada,
tu sim vais tecendo e vendo tecer-se a tua dita atrás,
e essa atenção ilumina-te os nós dos dedos
e o cabelo todo aos nós por ela abaixo
— a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,
e tu olhas entre as coisas pequenas
e para onde olhas é essa parte alumiada toda
1 080
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Transcrição da Terra

Para um jardim sem flores
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,

mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.

O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.

Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,

ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar

este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.

Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia

de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.

Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.

A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.

Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.

E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.

Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.

Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
1 165
Herberto Helder

Herberto Helder

2

o teu nome novo, comecei eu a tirá-lo com uma navalha
da madeira grossa,
e nunca mais saía a única letra até dentro,
a primeira, e já toda a mão me sangrava
com o talho à volta dos dedos,
e a letra e o melhor do meu sangue e a seiva
metiam-se pela ferida como se ela mesma fosse
o meu trabalho apenas,
sangue que escorria pulso abaixo e me escoava:
a própria lavra da escrita —
^oh quando arranjarei mão que alcance em sangue e força
o fundo final desse começo de ti,
nome terreno,
isso: coisa amada tanto quanto o alvoroço mortal deste fim
de idade:
será que nenhum poder me devasta ainda?
1 089
Herberto Helder

Herberto Helder

11

queria ver se chegava por extenso ao contrário:
força e pulsação e graça,
isto é: a luz, de dentro, despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela / esteia
932
Herberto Helder

Herberto Helder

13

e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma
1 011
Herberto Helder

Herberto Helder

8

que um momento, um só, me toque o deslumbre
de estar no meio do mundo
encostado ao ar apenas, eu, o bruto,
o que não entendeu o sinal,
o que não viu a onda a entrar no porto
e a espuma a espumar no ar,
a estrela a rebentar no ar como uma estrela,
oh sim, abra as pernas como a Lady Godiva,
ou a grávida extrema,
a deusa,
a mais simples rapariga que vai parir,
a segunda rapariga rapariga a cantar a contar da outra,
abra, que dou logo com a boca na primeira palavra
onde já o sangue coze todo,
eu que em verdade não sei nada senão que me pareceu um
momento que estava pronto para ver,
e afinal só quero cair a um canto, fechar os olhos e, em
havendo algum calor,
chegar-me a ele, e quem sabe se pegar fogo,
ir embora numa labareda grande de meia dúzia de palmos
de iluminura:
purificação de esterco, oh glória que nunca ninguém me
prometera
nunca nunca:
uma espécie de musa ou de puta
946
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Linhas E Cores

Klee

Por umas escadas toscas, infantis, leves, subo à janela do velho que espreita para a rua. Uma aranha tece a claridade do vento. A janela solta evapora-se. Leves, leves, as escadas apoiam-se numa parede de ar.

Klee

No silêncio da caixa de vidro, o silêncio do ar e da luz, o ponto que se desvanece, a imobilidade do pássaro. A linha caminha, macia, firme. O homem caminha na linha, no meio da luz e do silêncio. Ao fim da linha há o espaço da página branca. Não há ponte e o sorriso do homem tremula ao vento como um fio.

Bissière

Dos quadradinhos coloridos, de breves trémulos riscos — exalava-se o cheiro do pão de outrora, uma parede de moinho, uma roda imóvel, um beijo no sol, a terra e a mão do menino.
1 073
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Diálogo Imóvel

No quarto lavado
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada

Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada

Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço

de ó silencioso e claro

todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino

O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas

A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho

A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala

todo o diálogo se perdeu

— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil     fascínio
da flor

— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
1 039
Eunaldo Costa

Eunaldo Costa

Flamejam luzes no meu peito

Flamejam luzes no meu peito
Quando começo a ouvir
A primeira partitura da madrugada,

Então, em êxtase, vôo como um pássaro
E colho a estrela que o tempo
Modelou para as minhas mãos
Que vão traçar o rumo dos rios
Que andam com o corpo ferido de âncoras

Alado, sinto que eu e o som
Da vida somos um só,
E que minha alma, banhada
De prata e sol, se transforma
Numa rosa mágica de um signo do zodíaco,
Neste momento começo a ouvir
A segunda partitura da madrugada.
E a minha consciência se veste do verdor das algas.

875
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

À Felicidade Viva

Qual é a cor que dou à pedra imóvel
ao animal, à forma que suspeito
sob a água sem lastro? Uma figura
como um círculo pura e grande espaço,
um esforço alegre, ó inviolável página!

Não há terror nem surpresa, reconheço
a ausência, um sorriso de começo,
uma vontade de ajudar talvez a flor,
ou antes a raiz, o gérmen, o romper
das folhas e corolas, largas faces,
que são mãos e punhos desatados,
ao rosto de ar, à felicidade viva!
550