Poemas neste tema

Corpo

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

62. Não a Raiva Perspicaz E Ainda Ordenadora

62
Não a raiva perspicaz e ainda ordenadora
mas a perna límpida, mas a perna negra
será obsessão atravessando a página
até à periferia ou à margem de cada

verso ou linha do texto ou do poema
ou não poema. Tudo o que é poema,
inanição — a lâmpada da inanição existe
num bairro pobre a uma esquina visível.

Essa lâmpada é de um amarelo de larva
e revela toda a solidão inenarrável.
Ela é a lâmpada mais triste: o informulado existe.
1 026
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

64. Mão Sem Sombra Sensível Veio

64
Mão sem sombra     sensível veio
de água                     estranha escrita
do animal sem referência        a terra
na ansiosa paciência da sua teia.

Na ferida ardente de uma página
domina a feliz respiração
antes do aparecimento da folhagem.

Soletrar o espaço o quanto de água
sobre a brilhante sede de uma parede ardente
e respirando o espaço no espaço da água

quadriculada de um claro verde.
1 049
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

66. Arma de Folhas E de Folhas

66
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.

O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.

Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
1 090
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

67. Veria Aqui o Rosto, o Punho Frágil

67
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.

Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.

Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
1 062
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

70. Incide a Água Onde Ainda É Água

70
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.

Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.

As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
1 109
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

69. Pedra E a Perfeição, Essa Frescura

69
Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pobreza numa festa.

Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.

Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.
514
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

78. Rosto Para Dizer o Rosto Rápido

78
Rosto para dizer o rosto rápido
pássaro quotidiano obscuro e vivo
poema da duração da alegria
do instante / do rosto pássaro.

Impulso e ombro táctil quase o beijo
sobre lábios de silêncio e de palavras
lábios lábios com seus dentes brancos
o que dizem o que falam negro e branco.

Aqui recuperada a perda exacta
da fala viva do rosto pássaro
no instante de dizer exaltação perdida.
993
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

77. Inflectida a Figura Recebe a Face

77
Inflectida a figura recebe a face
que vive no discurso das pedras dos detritos.
Na ausência da paisagem a ausência da figura.

Ó noite não ó dia manhã da vida forte
aí a face na multidão vestida
ou na nudez da cama do miserável quarto.

Com o suor da face e as pernas negras húmidas
com a humildade do sono na urina breve
vive a figura aqui
Vive? Respira pobre.
1 026
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

80. Anca, E Depois Campo, E Forte

80
Anca, e depois campo, e forte
a curva dançante mas discreta e dura
ela é campo não azul, corpo e dança
a deusa dos olhos e da rua e da dança.

Ela é o corpo, ela é a dança, ela é a rua
e os olhos brilham a boca arde no campo
arde no brilho do pássaro vivamente
desloca a pedra para que ela passe.

Anca na boca na língua quadril forte
dança no campo sem flores no passeio
passa sobre a capa da visão translúcida.
1 195
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

81. Verde E Tu Verás Por Sobre o Sono

81
Verde e tu verás por sobre o sono
das marés o único céu abrindo o mar
ou senão o campo em que verás o céu das árvores.

E o animal que não dança mas que exalta
o corpo da mulher da lança
ela própria a lança o pulso que a persegue.

A lisa redondez é toda ela face
figura sem imagem e imagem de outra imagem
— verde e tu verás a extrema lança: verde.
1 031
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

85. Vagos Sinais Dentes Na Pedra

85
Vagos sinais     dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único

este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul

e

que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
516
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

83. o Pulso Activo. a Água Dos Insectos

83
O pulso activo. A água dos insectos
abertura e queda noutro poema visto
e fogo oculto solicitando a pedra
a queda de uma cor talvez vermelha.

O corpo sob a nuvem, o pulso activo,
o corpo descoberto sob o lençol da pedra
com os lábios devorando os lábios livres
e com a água de um ventre harmonioso.

E o ser translúcido sob o pulso activo
o ser da queda na abertura viva
a terra descoberta na transparência da água.
1 047
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Extremo da Abolição, a Entrega Toda.

No extremo da abolição, a entrega toda.
O insondável puro é o vazio da água.
A terra inteira entrega-se num corpo.
870
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto do amor imperfeito

Território de flores. Chão de plumas
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas

murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.

Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.

Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
724
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nela Se Curva a Luz

Nela se curva a luz
como se um feixe de músculos tocássemos
sob a pele.
1 121
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Cavidade da Simplicidade

Na cavidade da simplicidade
deslizando no imóvel
somos animais marinhos de uma delícia verde.
571
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Delícia Intacta É o Seu Corpo

Uma delícia intacta é o seu corpo
numa irradiante atmosfera luminosa.
Gracioso repouso de irredutível sentido
e de enigma suave. Nudez de água
intensa
sobre areias verdes.
Um sopro grácil conduz o seu trabalho.
1 063
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele corre

ele corre
e abre a grande angular


eu foco a fantasia
e a gente ri que dói


ele Fórmula 1
eu capa da Playboy
1 156
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pedra de Sol Na Boca

Pedra de sol na boca

língua verde

ombros no horizonte

próximos
990
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto das estrelas sem conta

E eu galguei o alcantil tendo-a em meus braços,
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.

Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.

Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.

        A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
        pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
738
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Que Importam Estas Pálpebras Na Cerração

Que importam estas pálpebras na cerração

da terra

um olho dilacerado vê     a nudez de um corpo

obstinada desordem dos membros dissolvidos

o latejante trajecto da obscura mão

atinge o vazio de um centro                     o limite vivo

boca na árvore

iluminado seio     caminho

do pulso
518
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Holograma

Contemplo-te de frente
e o faço firmemente.
E vejo a suavidade
da fronte - está defronte.
Contemplo os lagos vivos
de cor castanho escura
cercado como os lagos
por matas ciliares.
É a pequena colina
com duas cavidades
que trazem para o mundo
teu aroma interior
sabendo a juventude.
Sobre a boca de beijos.
Vejo também os montes
e o vale que os separa
cujos cumes exibem
como que rósea neve,
ao pé dessa planície
que conduz os meus olhos
para a floresta negra
de sombras insondáveis.
O todo monumento
é sustentado por
duas altas colunas
pousadas sobre o solo.
Onde as plantas semelham
como um quê de raízes.
Giro em torno de ti
como gira o Satélite
em volta do Planeta,
na direção contrária
ao rumo dos relógios.
Sigo vendo o milagre.
Bem mais da escura coma,
os braços dos abraços
caídos junto ao tronco,
exibindo no extremo
os dedos de carícias.
As colunas agora
observadas de lado,
têm a mesma beleza
já dantes constatada.
O giro continua
e uma nova paisagem
é então descortinada.
A coma desce em ondas
a base do pescoço.
Nova quase planície,
duas novas colinas,
outro vale, insondado.
O giro continua.
E agora é a paisagem
toda igual à segunda.
Resta o giro final,
confirmação da vista
antevista, no inicio.
O término da viagem
que se empreendeu à volta
da mulher desejada.
                               1991
392
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Consonância do Intacto

Consonância do intacto

com o corpo

nudez

de pedra

exacta
1 043
Rossini Corrêa

Rossini Corrêa

Soneto da Arte Poética

Como escrever um soneto antológico,
se o sentimento não for meritório?
Tem, o poema, seu universo biológico,
sobre a fronteira deste território

verbal, que arquiteta o vôo mágico
do sonho, com plumas vestindo o azul.
Mas, sem coração e sem cérebro, trágico
será o soneto, estre cruzeiro sem sul.

— Se o poema é escrito com palavra,
a boca há de sentir gosto de sangue
e a mão há de pensar a sua lavra...

Do trapézio do verbo quedará exangue,
todo aquele que, à procura do infinito,
no promontório, canto, viva em grito.

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