Poemas neste tema

Árvores, florestas e montanhas

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Terra

Sorvo na garganta das folhas
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
1 030
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Ausência

O sol é uma noite suave.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.

Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.

De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.

Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Caminhante

Perdida em suave lucidez
na dolência do vazio. Nada
decifra, caminha claramente
nas diurnas arenas derradeiras.

Um inesgotável desejo de nascer
ou ser o odor da terra. Quem é a incógnita
soberana? Uma vigília
de praias. Uma tranquilidade de árvores.

Tudo é liso e repousa. Escuta
os ramos do silêncio, a simplicidade
do sangue. Perdida em suave
lucidez.
1 087
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Imagens

Sucedem-se sem coincidirem entre silêncios
e simultâneas vencem o inexplicável vazio.
Cada uma inteira com um gesto inicial.
Novas e limpas embriagam e despertam.
Não são ilhas. Trazem o vento completo.
Serei algum dia parte desta plenitude?
Sou já o amor da terra nestas vértebras.
As sílabas afluem como se um deus dormisse.
Tudo pertence às árvores, a uma frescura louca.
A exacta realidade é a mais viva fábula.
As imagens estremecem magníficas, errantes.
Uma linha trémula separa o rosa do cinzento.
Alguns vocábulos tenazes: vértebras, estrelas.
Uma segurança no incerto, um brilho no obscuro.
A mão vegetal toca a rosa libertada.
Quantas nascentes, quantas portas livres!
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe
Mais flores do que Flora pelos campos,
Nem dá de Apolo ao carro
Outro curso que Apolo.

Contemplação estéril e longínqua
Das coisas próximas, deixemos que ela
Olhe até não ver nada
Com seus cansados olhos.

Vê como Ceres é a mesma sempre
E como os louros campos entumece
E os cala prás avenas
Dos agrados de Pã.

Vê como com seu jeito sempre antigo
Aprendido no orige azul dos deuses,
As ninfas não sossegam
Na sua dança eterna.

E como as hamadríades constantes
Murmuram pelos ramos das florestas
E atrasam o deus Pã
Na atenção à sua flauta.

Não de outro modo mais divino ou menos
Deve aprazer-nos conduzir a vida,
Quer sob o ouro de Apolo
Ou a prata de Diana.

Quer troe Júpiter nos céus toldados,
Quer apedreje com as suas ondas
Neptuno as planas praias
E os erguidos rochedos.

Do mesmo modo a vida é sempre a mesma.
Nós não vemos as Parcas acabarem-nos.
Por isso as esqueçamos
Como se não houvessem.

Colhendo flores ou ouvindo as fontes
A vida passa como se temêssemos.
Não nos vale pensarmos
No futuro sabido

Que aos nossos olhos tirará Apolo
E nos porá longe de Ceres e onde
Nenhum Pã cace à flauta
Nenhuma branca ninfa.

Só as horas serenas reservando
Por nossas, companheiros na malícia
De ir imitando os deuses
Até sentir-lhe a calma.

Venha depois com as suas cãs caídas
A velhice, que os deuses concederam
Que esta hora por ser sua
Não sofra de Saturno

Mas seja o templo onde sejamos deuses
Inda que apenas, Lídia, pra nós próprios
Nem precisam de crentes
Os que de si o foram.
2 250
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Não Lugar

Múltiplas vozes anulam-se
no branco. A visão não é
da vibração dos actos
mas de máscaras brancas

invioláveis. A perspectiva
muda por momentos. Súbitas
muralhas fulgurantes,
uma mão tão antiga como a terra.

De súbito enegrece
a paisagem do mar. Nenhum rosto
ou palavra
ascende da terra.

Apenas uma árvore solitária
e um fogo negro na espuma
enevoada. É o lugar da
disparidade e da cegueira.

A opressão é permanente,
as relações indiscerníveis.
699
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Voz

Quero pertencer à abóbada escura como um amante inerme
e ser o alento do silêncio sobre os ombros das nuvens.
Quero aderir à sombra das palavras da folhagem
e compreender a terra na selvagem seda do desejo.
1 114
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Felizes, cujos corpos sob as árvores

Felizes, cujos corpos sob as árvores
Jazem na húmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua.

Verta Éolo a caverna inteira sobre
O orbe esfarrapado,
Lance Neptuno, em cheias mãos, ao alto
As ondas estoirando.

Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro
Que passa, finda a tarde,
Sob a árvore onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita de um deus,

Não sabe que os seus passos vão cobrindo
O que podia ser,
Se a vida fosse sempre a vida, a glória
De uma beleza eterna.


01/06/1916
2 082
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Antes de nós nos mesmos arvoredos

Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?


08/10/1914
2 155
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Fragilidade Verde

Na fragilidade verde de um intraduzível enclave
a obliquidade do sangue silencioso,
a dispersão das árvores claras e ardentes.
Minúsculas vozes atravessam o silêncio.
Uns joelhos da folhagem sob as lâmpadas
tremem num movimento de pacífica violência.
A pele está liberta na fresca identidade.
O tecto é uma rosácea de voláteis linhas.
A violência do fogo é ligeira e florida.
Um único segredo diz na brisa o seu sangue claro.
1 064
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Quem saberá?

Aqui
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
1 071
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Era um jardim

Macacos se fartam
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.

Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.

Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.

Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
1 050
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Casa di campo nei tropici

Se una volta non vengo
se ne va tutto in fumo
il giardino
il prato
e l’ordine curato.
Dietro al profumo
c’è la selva
in agguato.
1 043
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fácil Escrever

Fácil escrever na inesperada leveza.
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.
Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.

Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, silenciosas folhas,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.
Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.

Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Um animal levanta-se entre as pedras com as pedras.
1 104
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Todo campo de trigo

Cheguei tarde demais
o trigo foi ceifado
e esta estrada navega
em campos glabros
doces dorsos leoninos
espraiados sobre a falsa savana.

Todo campo de trigo
é o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em qualquer tempo
pássaros e papoulas junto aos talos
fugir de asas
filas de formigas
e o serralhar dos grilos sol adentro.

Todo campo de trigo é
o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em outros corpos.
E a carícia de pluma das espigas
o apartar-se das hastes contra o peito
o fino farfalhar daqueles campos
que atravessei com passos de menina
chegam-me intactos
dos trigais despidos
que cruzo agora
sem sair do carro.


Ravello, 2001
1 131
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Corpo de Argila

Aqui, para que se abram os poros na floresta.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.

A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.

Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
1 107
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fronteiras Não Fronteiras

As fronteiras são estas não fronteiras.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas

e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.

O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Figuras do Ar E da Terra

A língua liberta-se no silêncio e no espaço.
As graciosas folhas, as feridas nas colinas, os declives
incendeiam-se no azul. Alguma coisa se altera
subtil, inominável. Figuras do ar
enlaçam-se, dissipam-se, renovam-se.

É a hora da paixão das árvores e da inocência selvagem.
Entre o verde divisam-se flancos amorosos.
Uma espádua adormece na brancura dos murmúrios.
Sobre as coxas da terra caem as cascatas obscuras.
A vida ondula como uma árvore sob o sol.

Em suave indolência de seiva os músculos movem-se.
Respiram os contrários em formas simultâneas.
É uma fábula completa, é um país de silêncios.
Vibra, vibra o anel verde-negro da sombra.
Belo é o desejo e belo é o seu espaço.
1 118
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vejo o Fogo

Vejo o fogo (os dedos e a sombra), vejo os caminhos,
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.

Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.

Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
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Ruy Belo

Ruy Belo

Efeitos secundários

É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
o outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes

Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?

Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento

E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 106 e 107 | Editorial Presença Lda., 1984
1 543
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Escrevo-Te Com o Fogo E a Água

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
1 135
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nos altos ramos de árvores frondosas

Nos altos ramos de árvores frondosas
O vento faz um rumor frio e alto,
Nesta floresta, em este som me perco
E sozinho medito.
Assim no mundo, acima do que sinto,
Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma,
E nada tem sentido – nem a alma
Com que penso sozinho.


26/04/1928
2 307
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Imagem Quase Nula

Imagem quase nula ou tão sóbria e oculta
como uma lâmpada no dia, como uma folha entre as folhas.
Tenaz e fugidia, em subtis alentos
está e não está no seu domínio intacto.
Perfume obscuro do sangue do silêncio.

E todavia é clara, evidente e quase nítida.
Distrai-se no espaço, nos seus altos terraços.
Está talvez a meu lado gentil e sossegada.
Respiro sem o saber o hálito harmonioso.
Não há presença mais leve, nem há glória mais nua.

Entre os nomes e as árvores é um fulgor tranquilo
que anima as palavras simples e voluptuosas.
Entre ervas e saliva os sonhos são verdades
transformadas em madeira, em pedras, em insectos.
Nada se perde no sono das suas calmas sílabas.
619
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Os Prestígios Simples

Conheço as palavras das árvores, as voluptuosas têmporas
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.

Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.

Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
1 069